Clube x seleção, de novo

Já começaram as reclamações. Cristiano Ronaldo se contundiu na importante vitória de Portugal sobre a Hungria e desfalcará o Real Madrid por duas semanas. Dirigentes blancos acusam os portugueses de colocarem o jogador em campo sem totais condições de jogo. E ainda falam que o prejuízo seria de quase € 2 milhões. Argumentos para reforçar sua posição – e a da ECA (Associação de Clubes Europeus) – contra competições entre seleções.
Há muito de especulação aí. As condições de jogo de Cristiano Ronaldo só são realmente conhecidas pela comissão técnica de Portugal e o próprio atleta (o madeirense ficou uma semana com sua seleção antes da partida contra a Hungria, tempo suficiente para mudar a condição que tinha quando deixou Madri). O cálculo dos tais € 2 milhões são claramente exagerados, usando critérios bastante duvidosos apenas para reforçar o lado madridista. De qualquer modo, criou-se um atrito que deve alimentar nova discussão. Então, vamos a ela.
Para quem você torce mais: seu clube ou sua seleção preferida? Esse é o jeito mais estúpido e menos produtivo de se conduzir uma discussão a respeito do debate entre clubes e equipes nacionais. A questão não é quem o torcedor gosta mais, porque ele sempre preferirá o clube. Aliás, quase sempre, porque a resposta para “você prefere a Liga dos Campeões/Libertadores/campeonato nacional ou a Copa do Mundo?” certamente será a favor das seleções.
É óbvio que, em geral, os torcedores prefiram seus clubes. E isso nem deve ser levado em consideração. Afinal, jogos de seleções são importantes até hoje, e eles ajudaram o futebol a se popularizar e criar raízes em quase todos os países do mundo. Só que é preciso mudar a maneira como se relacionam as competições clubísticas e de seleções.
A Fifa fez um calendário internacional, mas ainda há muitos buracos. Por exemplo, o fato de Mundiais Sub-17 e Sub-20 serem disputados no meio da temporada. Contusões como a de Cristiano Ronaldo também se tornam mais comuns, até porque os jogadores estão em um ritmo de temporada e acabam mudando repentinamente, disputando partidas decisivas fora de hora e, muitas vezes, em condições de trabalho muito piores que o normal.
Uma possibilidade seria abrir duas janelas grandes para as seleções, em fevereiro e em junho. Nesses meses se concentrariam as competições, como Copa do Mundo, Eurocopa/Copa América/Copa Africana…, Mundiais Sub-qualquer-coisa e, claro, Eliminatórias. No resto do ano, seriam abertas uma ou outra data para amistosos e partidas que forem necessárias.
Seria bom para as seleções, que teriam seus jogadores por longos períodos para treinar e se entrosar. Seria bom para os clubes, pois, se a contusão sofrida na primeira partida pela seleção, ele teria um mês para se recuperar antes da reapresentação. Além disso, ficaria muito mais fácil entrar em acordo sobre quem é responsável pelos salários dos atletas enquanto servem a equipe de seu país.
Já há um entendimento de que as federações nacionais têm de repassar parte de seus ganhos com partidas de seleções para os clubes que cedem jogadores. E, em temporada de Copa do Mundo, fica evidente que partidas entre países têm apelo. No entanto, casos como o de Cristiano Ronaldo tendem a acalorar os ânimos, e fazer a discussão retroceder alguns passos.
Enquanto isso, em Ierevan
A imprensa espanhola defende o Real Madrid contra Portugal, mas não mantém a coerência quando se trata da seleção de seu país. A Fúria, que ainda está concentrada na Armênia, onde enfrentou a seleção local no sábado, tem cinco baixas para a partida contra a Bósnia-Herzegovina. Xavi, Marchena e Güiza sentiram dores, Fàbregas tem problemas particulares e Puyol está suspenso.
Os cinco foram liberados para retornar a seus clubes. Parece uma decisão lógica, mas boa parte da imprensa espanhola a criticou. Para muitos, eles deveriam continuar com a seleção, pensando no clima no grupo. As principais contestações partem de Madri e se concentram na dispensa de Xavi. Não é coincidência o fato de o meio-campista ser do Barcelona.
A confusão irritou Vicente del Bosque, que não considera justas as críticas. Para o técnico, há uma politização da discussão. A avaliação é pertinente. A Espanha já está na Copa do Mundo e a Bósnia-Herzegovina já está na repescagem. Nem a longa invencibilidade ibérica se mantém, pois a Fúria perdeu uma partida na Copa das Confederações. Ou seja, o último jogo serve para muito pouca coisa. Talvez seja mais útil se usado para testar os reservas.



