Espanha

Chega de esperar

Ronald Koeman chegou ao Valencia no início de novembro sem querer fazer muito barulho. Claro, a própria demissão de Quique Sánchez Flores e a posterior contratação do holandês já fez algum burburinho, mas o ex-zagueiro queria que se limitasse a isso. A idéia era conquistar o elenco e implementar suas idéias aos poucos, de modo a evitar uma cobrança ainda maior caso atitudes extravagantes não funcionassem.

Dessa forma, Koeman não mexeu imediatamente no sistema de jogo. A base de Sánchez Flores foi mantida, bem como o módulo de 4-4-2 com meio-campo de dois meias internos ligeiramente defensivos e dois externos ofensivos. O holandês acreditava que era um time forte e pequenos ajustes táticos e psicológicos/motivacionais bastassem. Ledo engano.

Depois de oito jogos sob novo comando, o Valencia conseguiu uma vitória, três empates e quatro derrotas, três gols feitos (todos no mesmo jogo) e nove sofridos. Nas últimas sete partidas, os ches não marcaram um gol sequer. E o time, que lutava pela liderança do Campeonato Espanhol (dividia a terceira posição com o Barcelona, a quatro pontos do líder Real Madrid), caiu para a sétima posição, a seis pontos da zona de classificação para a Liga dos Campeões, e já foi eliminado de competições européias.

Nos últimos jogos, o holandês tentou variar o esquema, adotando um 4-3-3 incomum, com David Silva quase como ponta. Não funcionou porque seus jogadores não têm características que se encaixem nesse sistema. Além disso, começou a ficar claro que havia resistências dentro do grupo. Koeman não agüentou mais e resolveu se impor.

Nesta terça, o técnico afastou Cañizares e Albelda. E afastou de verdade, sem querer parecer convincente com os eufemismos de praxe (do tipo “foi uma decisão técnica”) e chegando a recomendar que ambos procurassem um novo emprego. Além disso, ratificou que conta com o apoio da diretoria valencianista na medida e afirmou que o elenco oferece opções para substituir o goleiro e o volante.

A atitude foi corajosa. Cañizares está no Valencia desde 1998 e participou das campanhas de dois títulos nacionais e dois vice-campeonatos da Liga dos Campeões. Assim, se tornou um dos ídolos da torcida e referência para os colegas de equipe. Albelda tem trajetória parecida. Revelado pelo Mestalla (Valencia B), o volante fez quase toda sua carreira no clube. Um histórico que lhe valeu uma vaga de titular na seleção espanhola e a braçadeira de capitão dos ches.

Deixar dois símbolos valencianistas de fora do clube desse modo abrupto não é algo que se faça sem motivo. E há sinais fortes de que é o início da tentativa de Koeman de tomar um pouco as rédeas do elenco. Justamente por serem lideranças naturais, Cañizares e Albelda têm ascendência muito forte sobre os companheiros. Outro possível envolvido seria Miguel Ángel Ângulo, também cotado para afastamento.

A suspeita é que a dupla (ou trio) comandaria um grupo de “catedráticos” do elenco e acabaria colocando a autoridade do treinador em xeque. Pior, desestabilizam o ambiente ao boicotar os recém-chegados, dificultando a evolução do time taticamente e contribuindo para o fim completo do jogo coletivo que caracterizava os ches.

O Valencia, agora, tem um fato novo. Houve um confronto e o resultado dele foram mudanças. Koeman ganhou poder e terá condições para mudar o time sem tantas contestações. Jogadores recém-contratados como Hildebrand, Arizmendi, Zigic e Manuel Fernandes podem ganhar espaço. Haverá um período de turbulência, mas não se poderá acusar a diretoria do clube e o técnico de omissão. Pelo menos, estão tentando fazer algo.

Messi machucou. E agora?
A crise do Valencia foi providencial ao Barcelona e a Eto’o. O camaronês voltou a campo depois de três meses e meio contundido e teve pela frente um adversário frágil e sem alma. Sem pressão, o atacante pôde mostrar seu talento e foi decisivo, marcando dois golaços na vitória catalã. No entanto, os blaugranas saíram de campo preocupados, afinal, Messi se contundiu.

O argentino teve rompimento de um músculo da coxa e tem tratamento previsto para cinco semanas. Desse modo, desfalcará o clube por, no mínimo, as próximas três rodadas. O pior é que o primeiro jogo desta série é justamente o clássico contra o Real Madrid no Camp Nou.

Em teoria, o Barcelona tem opções para absorver esse desfalque. Ronaldinho, Eto’o e Henry são craques capazes de encarar qualquer desafio, inclusive um clássico contra o Real. Com apenas dois deles o time já estaria bem coberto no ataque. Para jogos menores (os dois jogos após o clássico são Mallorca e Murcia), dá para colocar Giovani e Bojan sem receio. Aliás, eles até têm talento para se destacar contra o Real, mas seria crueldade cobrar tanto de adolescentes.

O problema da saída de Messi é mais psicológico. O argentino vem sendo o grande nome do Barça na temporada. Com suas jogadas insinuantes, abre espaços e comanda as ações, tanto na armação quanto na conclusão. Para os companheiros, para o técnico Rijkaard e para a torcida, Messi é o sujeito que vai resolver em favor dos blaugranas se as coisas estiverem difíceis. Assim que foi diagnosticada a gravidade da contusão do atacante, o diretor esportivo Txiqui Beguiristain disse que era a pior coisa que poderia ocorrer para o Barcelona. Talvez até seja verdade, mas esse tipo de declaração pode agravar o problema.

O Barça precisa dos três pontos contra o Real Madrid para reduzir a desvantagem na classificação a um ponto. Para isso, precisa acreditar que é melhor que o rival. Ou seja, precisa confiar em quem estará em campo ao invés de pensar no desfalque. Caso contrário, poderão se complicar nos próprios traumas.

CURTAS

– O afastamento de Albelda do Valencia pode ter reflexos na seleção espanhola. O volante é titular da seleção de Luis Aragonés, mas tal condições certamente será abalada se ele não encontrar um novo clube e ficar sem atuar até o final da temporada.

– O ex-jogador barcelonista Guillermo Amor sofreu um grave acidente de carro e está internado na UTI de um hospital em Tortosa (Catalunha). Sua condição é estável, mas ele precisa de ajuda de aparelhos para respirar. Amor voltava a Barcelona depois de ter ido a Valência comentar Valencia 0x3 Barcelona.

– O Valladolid não decola no campeonato, mas não dá para menosprezar o esforço do time contra os grandes. Os blanquivioletas já transformaram o estádio José Zorrilla em inferno dos grandes. Real Madrid, Barcelona e Sevilla não passaram do empate, enquanto que o Villarreal perdeu.

– Outros times fortes também tiveram problemas com os pucelanos. Atlético de Madrid e Valencia sofreram para vencer (4 a 3 e 2 a 1) e o Espanyol perdeu em casa (0 a 1).

– Veja a seleção Trivela da 16ª rodada do Campeonato Espanhol: Sorrentino (Recreativo de Huelva); Coloccini (Deportivo de La Coruña), Pepe (Real Madrid), Jarque (Espanyol) e Alexis (Valladolid); Marcos Senna (Villarreal), Sneijder (Real Madrid) e Vela (Osasuna); Nihat (Villarreal), Eto’o (Barcelona) e Pavone (Betis).

– Este colunista finalmente entrará em férias. Assim, volto a escrever a coluna em 16 de janeiro. Até lá, serei substituído pelo amigo Roberto Piantino. Continuem prestigiando esse espaço e até logo!

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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