Cabeça fraca?

Todas semana, é a mesma história. O Zaragoza entra na rodada precisando de uma vitória para sair da situação delicada em que já se encontra e inicia o discurso. “Estamos com azar, apenas isso. Uma vitória e o astral passa a ser outro.” É assim rodada após rodada. Já foram oito no Campeonato Espanhol 2010/11 e os maños estão com apenas três pontos.
Normalmente, esse tipo de explicação é desculpa. Mas a direção do clube parece realmente acreditar que o único fator que separa os zaragocistas das vitórias é a confiança. Na terça retrasada, os jogadores receberam a visita do psicólogo Luis Cantarero nos treinos. O objetivo é levar novo ânimo ao La Romareda, fazer o time acreditar que pode se recuperar, impor dificuldade aos adversários e ter resultado compatíveis com a história de uma equipe que sempre foi considerada entre média e média-grande.
É o que defende Nayim, assistente técnico do time e ex-jogador maño (alguém se lembra que ele fez, contra o Arsenal, um gol do meio de campo, no último minuto da prorrogação, para decidir o título da Recopa de 1994/95?). “Precisamos recuperar o moral dos jogadores, porque eles são os verdadeiros protagonistas. Agora estão abalados, mas são profissionais e precisam se recompor. Até porque, quando a torcida vê a equipe lutar, vai junto – e fica contra quando isso não acontece.” O ex-meia considera que melhorar psicologicamente seria, inclusive, mais importante do que mexer em tática ou técnica.
O treinador José Aurélio Gay sustenta essa tese. Ele já reclamou da falta de concentração da equipe, que acorda apenas depois de sofrer gols. Um exemplo claro disso foi a incrível derrota por 5 a 3 em casa para o Málaga. Os andaluzes fizeram 5 a 0 no primeiro tempo. No segundo, os aragoneses reagiram e até deram um susto no final.
No entanto, qualquer pessoa que conheça os sinais sutis na relação jogadores-comissão técnica-diretoria percebe que há algo errado nisso tudo. Ainda que as palavras sejam usadas com cuidado para dar um enfoque puramente psicológico para o assunto, não é muito normal membros de uma comissão técnica reclamarem da falta de luta e concentração dos jogadores em campo. Isso é passar a responsabilidade para a frente.
Os fatores que indicam problemas de relacionamento surgem discretamente. Mesmo com resultados tão ruins e as cutucadas no elenco, Gay continua no cargo. O presidente Agapito Iglesias já negou diversas vezes que pretende demiti-lo. Manteve a posição mesmo depois de um incidente mais grave: a expulsão do zagueiro italiano Contini em um treino por falta de dedicação na última quarta.
Não é difícil entender por que os dirigentes estão ao lado da comissão técnica, algo normalmente raro nesses casos. A falta de clima do elenco não seria culpa do treinador, mas de problemas mais profundos. O meia Ander Herrera, formado nas categorias de base mañas, disse que jamais viu um racha social tão grande no clube.
O jogador se refere à relação instável entre torcedores e diretoria, além da grave crise financeira do Zaragoza. O clube foi colocado à venda e a imprensa espanhola especula que os salários estejam atrasados. Resultado de um longo processo, que começou há várias temporadas, com investimento pesado em reforços que acabaram não dando os resultados esperados (classificação para a Liga dos Campeões ou, no mínimo, algum título de Copa do Rei ou boa campanha na Liga Europa). A queda para a segunda divisão, há três anos, só agravou o cenário.
No final das contas, é provável que Gay seja demitido em algum momento. Por mais que a diretoria esteja contrariada com o comportamento do elenco, são os jogadores que entrarão em campo para buscar os pontos que podem salvar o time do rebaixamento. Mas os zaragocistas precisam mesmo é torcer para mudanças lá em cima. Algo mais difícil do que contratar um psicólogo para animar um grupo de pessoas.



