Espanha

Como meia esquecido no Real Madrid se tornou astro de Marrocos na Copa Africana

Pouco utilizado por Xabi Alonso, Brahim vive torneio histórico e reacende o sonho de um título que não vem há 50 anos

Enquanto segue como coadjuvante no Real Madrid, Brahim Díaz se transformou no rosto da Copa Africana de Nações. Pela seleção do Marrocos, o meia-atacante de 26 anos vive um momento de afirmação rara no futebol internacional: marcou gols em todas as partidas disputadas pelos anfitriões no torneio e assumiu um protagonismo que poucos imaginavam há alguns meses.

O gol que abriu o placar na vitória por 2 a 0 sobre Camarões, nas quartas de final, não foi apenas decisivo. Com ele, Brahim atingiu uma marca histórica: balançar as redes em cinco jogos distintos da mesma edição da Copa Africana, feito alcançado por apenas três jogadores em toda a história da competição.

Nem Samuel Eto’o, maior artilheiro da AFCON, conseguiu tal sequência — o ex-atacante, hoje presidente da federação camaronesa, estava nas arquibancadas em Rabat.

Dois mundos distintos entre Real Madrid e Marrocos

O contraste com a realidade no Real Madrid é evidente. Sob o comando de Xabi Alonso, Brahim foi titular apenas três vezes na atual edição de LaLiga. Em uma delas, sequer voltou para o segundo tempo.

Seus minutos em campo ficam atrás até de jogadores que passaram boa parte da temporada lesionados, como David Alaba e Ferland Mendy, além de jovens ainda em formação, como Endrick, Gonzalo García e Valde.

Brahim comemora gol pelo Marrocos
Brahim comemora gol de Marrocos (Foto: Imago)

A AFCON, portanto, surge como um respiro e uma vitrine. Em Marrocos, Brahim não apenas joga: decide. Abriu o placar em quatro partidas do torneio, marcou o primeiro gol da competição e foi essencial para furar defesas fechadas como as de Comores e Tanzânia. Já nas eliminatórias, deixou sua marca com um hat-trick contra o Lesoto e terminou como artilheiro, com sete gols.

Nenhum jogador é tão consagrado no país quanto Achraf Hakimi, eleito Jogador Africano do Ano da Confederação Africana de Futebol e campeão europeu com o PSG. Ainda assim, Brahim começa a dividir — e, em alguns aspectos, disputar — esse protagonismo. O técnico Walid Regragui não economizou nos elogios.

“Ele pode ser o melhor jogador do mundo. Hoje, é o fator X do time. Ele entendeu o que significa ter sangue marroquino: correr, lutar e dar tudo”, afirmou após a classificação contra Camarões.

As palavras encontram eco fora do campo. Até as quartas de final, o ambiente nas ruas de Rabat era de cobrança e tensão. A expectativa cresceu desde a campanha histórica na Copa do Mundo de 2022, e chegar às semifinais da AFCON era visto como obrigação. A vitória sobre Camarões mudou o tom. Houve festa madrugada adentro, com carros lotados, bandeiras, tambores e celebrações improvisadas no centro da cidade.

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Brahim fez escolha que virou identidade

Nascido em Málaga, formado na Espanha e com passagem pela seleção espanhola em um amistoso em 2021, Brahim optou por defender o Marrocos em 2024. A decisão, tomada “com o coração”, como ele mesmo definiu, transformou sua carreira internacional.

Sinto-me 100% espanhol e 100% marroquino”, disse à época. Hoje, a conexão é visível. Após os jogos, Brahim beija o escudo, grita para as câmeras e se mistura ao público — gestos que o colocaram como sucessor natural de Hakim Ziyech no imaginário popular.

Nem mesmo a polêmica arbitragem contra Camarões, que gerou críticas do lado derrotado, diminuiu o impacto do momento. Para os marroquinos, pouco importa. A festa demorou, mas começou — e tem um nome claro como catalisador.

Enquanto seu futuro no Real Madrid segue indefinido, Brahim Díaz vive, no Marrocos, algo raro no futebol de elite: a sensação de ser indispensável. Em um país que espera por um título continental há quase cinco décadas, isso vale tanto quanto qualquer status em clube gigante.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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