Boca grande

“¿Por qué no te callas?” A frase (“por que não cala a boca?” em português, se é que alguém não entendeu) virou moda na Espanha desde que o rei Juan Carlos a usou para pedir ao presidente venezuelano Hugo Chávez parar de chamar o ex-primeiro ministro espanhol José María Aznar de fascista. Há toques de celulares com a pergunta, as pessoas falam de brincadeira em conversas informais e… já virou chama de capa de jornal esportivo. No caso, do El Mundo Deportivo, que mandava Edmílson fechar a boca.
O zagueiro-volante brasileiro falou mais do que devia na última semana. Em entrevista à TV3 (canal estatal da Catalunha), o jogador do Barcelona disse que nem todos o elenco estava se dedicando devidamente ao time, que muitos treinavam menos para poderem atender a seus compromissos comerciais e que há más pessoas no clube. Ainda deu a entender que Ronaldinho poderia estar passando por problemas pessoais, o que explicaria a queda de rendimento do craque nos últimos meses.
Imediatamente veio à mente de todos a imagem de Eto’o dizendo à toda a imprensa que o Barcelona estava rachado e que havia jogadores ligados à oposição. Ainda que o brasileiro não tenha sido tão contundente quanto o camaronês, havia um agravante no caso da última semana: era data Fifa. Assim, os barcelonistas estavam desmobilizados: muitos jogadores servindo a suas seleções nacionais, elenco reduzido nos treinos e diretoria aproveitando a suposta calmaria para anunciar as mudanças no organograma do clube.
Desse modo, as respostas demoraram. Rijkaard preferiu ficar quieto e dar a entender que resolveria o problema internamente. Entre os jogadores, o capitão Puyol fez o mesmo. Ronaldinho, envolvido nas declarações, só chegou à Espanha dois dias depois e também falou pouco. Xavi, o vice-capitão, se limitou a negar que o Barcelona sofria com os problemas apontados por Edmílson.
O único a falar com mais propriedade foi Iniesta. O volante não foi convincente ao desmentir o brasileiro. Disse que as declarações mereciam ser respeitadas, mas que são assuntos que devem ser tratados no vestiário e, por isso, a entrevista havia sido inoportuna. Ficou nas entrelinhas de que o problema é real. Aliás, a iniciativa de Iniesta de tomar a frente no caso mostra como o jogador ganha espaço como líder do grupo, algo justificado pela grande fase que vive (mas isso não é o assunto do texto).
Voltando ao caso Edmílson. O diretor do departamento social do Barcelona, Toni Rovira, não ajudou a apaziguar os ânimos. Pouco antes da reunião de diretoria que trataria do caso, Rovira disse à imprensa que o brasileiro não havia dito nada de novo. No final das contas, os dirigentes blaugranas decidiram não interferir e deixar Rijkaard fazer o que considerasse necessário. No caso, fingir que nada aconteceu logo depois de Edmílson pedir desculpas.
Mais uma vez, o Barcelona empurra o problema com a barriga. Não faltam evidências de que o ambiente no clube está bastante desgastado. As estrelas começaram a se chocar e as vaidades passaram a ser maiores que o desejo de trabalhar em conjunto. Laporta não encara a crise de frente porque quer crer que montou um elenco perfeito por ser tecnicamente bom e muito compromissado com a causa barcelonista. Esse é seu discurso nos últimos três anos, mas cada vez menos dá par acreditar.
Punir Edmílson talvez não fosse a solução. Até porque ele não parece ter dito nenhuma mentira. O que o clube precisa fazer é reavaliar sua relação com os atletas e, eventualmente, modificar peças-chave para melhorar o ambiente. Do jeito que está, o time continuará esbanjando instabilidade.
Nada de coadjuvante
A rodada do fim-de-semana time um interessantíssimo Espanyol x Barcelona no estádio Olímpico de Montjuïc. Os pericos não perdem há nove rodadas, apresentam um futebol competitivo e técnico e já estão na zona de classificação para a Liga dos Campeões. Assim, não seria um absurdo considerar que as chances dos espanyolistas seriam, pelo menos, as mesmas do Barça no dérbi catalão.
A boa campanha do Espanyol é resultado direto do bom trabalho de Ernesto Valverde. O técnico montou um time coeso e com uma base bem definida há três temporadas. Além disso, conta com a fidelidade de jogadores como Tamudo, De la Peña (desfalque no clássico do domingo), Kameni e Luis García. Mas a formação do time é algo para outra coluna, quando poderá ter mais espaço.
De qualquer modo, esse raro equilíbrio entre os catalães se vê no clima antes do jogo. Daniel Sánchez Llibre, presidente do Espanyol, provocou o rival dizendo que os blanquiazules vencerão novamente (fizeram 3 a 1 na temporada passada). Uma atitude mais ou menos esperada, considerando que o dirigente não esconde sua rejeição ao Barcelona e ao modo como a mídia catalã trata com diferença os dois clubes da cidade.
Outro sintoma desse bom momento perico é a autoconfiança que seus torcedores ganharam. Nos últimos anos, o Espanyol se sentiu protagonista em algumas competições. Conquistou a Copa do Rei em 2005/6 e foi vice-campeão da Copa da Uefa 2006/7. Com isso, houve até um aumento no respeito da sociedade catalã ao clube (rejeitado por seu nome, pois falar em ser espanhol é algo visto como coisas de catalães antipatriotas). Por tabela, os atritos entre barcelonistas e espanyolistas se tornaram mais freqüentes nos dias de dérbis.
CURTAS
– Além do Espanyol, outro time que surpreende é o Racing de Santander. Os cántabros já estão invictos há oito rodadas e têm a melhor defesa do campeonato.
– Depois de dois anos, o Barcelona voltou a ter um vice-presidente de futebol. É Marc Ingla, ex-diretor de marketing do clube. O cargo estava vago desde a saída de Sandro Rosell.
– Ingla ganhou força em Les Corts depois de participar das negociações do clube com Unicef, Mediaset e Nike. Tem perfil mais tecnocrata, frio e distanciado do elenco que Rossell, postura que agrada a Laporta.
– O fato de Ingla ter trabalhado no marketing despertou algumas desconfianças de que o Barça poderia embarcar em contratações por razões publicitárias, e não pela necessidade técnica. Mas é cedo para tirar tantas conclusões.
– Segundo o Marca, o Real Madrid já tem uma lista de dispensas para janeiro. Curiosamente, formada por jogadores que acabaram de chegar ou voltar de empréstimo: Soldado, Drenthe, Júlio Baptista, Saviola, Diarra e Dudek. Como é o Marca, é preciso ter prudência antes de acreditar.
– Uma estatística curiosa: os três últimos jogos do Atlético de Madrid no Vicente Calderón terminaram em 4 a 3.
– Veja a seleção Trivela da 13ª rodada do Campeonato Espanhol: Lux (Mallorca); Gabriel Milito (Barcelona), Garay (Racing de Santander) e Arzo (Murcia); Valdo (Espanyol), Granero (Getafe), Vela (Osasuna), Maxi Rodríguez (Atlético de Madrid) e Ibagaza (Mallorca); Bojan (Barcelona) e Riga (Levante).



