Espanha

Boa noite, e boa sorte

Guardiola é um técnico novo, cujo primeiro trabalho de verdade é justamente em um dos maiores clubes do mundo. Natural despertar desconfiança, e esse colunista sempre esteve no grupo de, digamos, céticos. Mas é preciso dar um crédito a quem merece. Depois de um título espanhol batendo recordes, uma Liga dos Campeões e um Mundial, o ex-volante já mostrou estar à altura do cargo. E, no último sábado, seu desempenho no comando do Barcelona contra o Real Madrid confirmou isso para quem ainda tinha alguma dúvida.

Os blaugranas entraram em campo de um modo diferente do convencional. Messi foi o atacante pelo meio. Puyol ficou na lateral direita, enquanto Gaby Milito entrou como titular na zaga. Daniel Alves atuou como meia-atacante pela direita. Parte das novidades se justifica pela ausência de Ibrahimovic, a inexperiência de Bojan e a má fase de Henry. Mas as mudanças não se trataram apenas improvisos para colocar 11 jogadores em campo. Muito se deveu a uma adaptação tática dos catalães.

O Barcelona respeitou o Real Madrid. Não havia como ser diferente: as duas equipes dividiam a liderança, os madridistas jogavam em casa e tinham Cristiano Ronaldo. Por isso, uma escalação diferente. Puyol ficou como lateral – onde já atuou algumas vezes, o suficiente para não ser uma insanidade colocá-lo lá em um clássico – para fechar melhor o lado direito, o preferido por Cristiano Ronaldo. Para não perder o potencial ofensivo de Daniel Alves, Guardiola colocou o baiano como meia avançado (ou atacante recuado?) na direita. Messi ocupava esse espaço, mas já estava confortável atuando com mais liberdade, pelo meio. E assim foi.

A nova formação deu grande vantagem aos blaugranas no duelo de meio-campo. Daniel Alves e Pedro eram meia-atacantes, mas voltavam para marcar os laterais merengues. Messi, o atacante pelo meio (não era centroavante, pois sua função era diferente), voltava, ia pela direita, pela esquerda, marcava e puxava contra-ataques. Xavi armava o jogo com a bola, mas era um a mais para contribuir no combate sem ela. Busquets e Keita ficaram mais fixos como volantes, mas sem se preocupar tanto em cobrir as costas de laterais que não avançavam tanto (Puyol e Maxwell).

O Real Madrid ficou asfixiado. Gago ficava só na marcação, Xabi Alonso não pôde fazer nada com seus lançamentos e Van der Vaart foi uma figura sumida em campo. Marcelo tentava imprimir velocidade, mas teve espaço apenas nos raros contra-ataques merengues. Com Higuaín perdido na defesa barcelonista, Cristiano Ronaldo era a única opção viável para o ataque. E o português não fugiu do jogo. Tentou, mas sempre esbarrou na falta de companhia. Pellegrini foi acusado – e com alguma razão – de dar poucas opções para mexer a armação do time, até porque Kaká está contundido e Granero (que faz boa temporada) nem no banco ficou.

A partida foi amarrada. O Real Madrid tomava a iniciativa, mas nada criava. O Barcelona, fugindo de sua característica, preferia bloquear o adversário e estudar o oponente, fazendo um jogo de paciência. Nessa hora, quem tem mais talentos, leva grande vantagem. Em um lançamento magnífico de Xavi, Messi cortou da esquerda para o meio, encontrando um espaço entre Albiol e Gago, driblou o primeiro com uma matada de peito e abriu o marcador.

O gol apenas acentuou as características da partida. Os merengues aumentaram sua suposta pressão, enquanto os barcelonistas tiveram mais espaço para contra-ataques. Pedro ampliou o marcador em uma dessas oportunidades e Messi poderia ter feito dois gols mais assim (Casillas defendeu). No final da partida, quando a marcação catalã relaxou, o Real aproveitou que estava com uma formação ainda mais ofensiva e até teve algumas chances. Mas nada que pudesse ser chamado de “sufoco”.

Mesmo concentrando seu futebol vistoso para poucos momentos, o Barcelona teve mérito ao vencer o clássico fora de casa. Xavi foi o grande jogador em campo, mas parte do crédito deve ser dado a Guardiola, por mostrar conhecimento do elenco, coragem para mudar seu time em um jogo importante e anular o adversário.

Precisa-se de treinador

O Marca faz campanha contra Manuel Pellegrini desde o início da temporada. Ela se tornou aberta após a derrota do Real Madrid por 4 a 0 para o Alcorcón na Copa do Rei. O jornal assume isso com orgulho, e agora ficou com mais argumentos para pedir a troca de técnico. A derrota para o Barça, com derrota tática também, deixou o título espanhol distante. E pouca coisa justificaria a manutenção do chileno no cargo.

Pellegrini teve bons e maus momentos. Merece algum crédito por desenhar uma equipe interessante para Cristiano Ronaldo e Kaká, bancar Granero e Higuaín, não se render a Raúl e fazer o time usar sua força para ganhar quase todos os jogos dos pequenos. No entanto, leva parte da culpa por não ter um plano B para a contusão de Kaká, dispensar os holandeses errados (Sneijder e Robben saíram, Van der Vaart ficou) e não dar um padrão de jogo ao time.

Mas o grande problema do chileno foi não dar personalidade à equipe. O Real é quase infalível contra times mais fracos, mas não suporta um jogo mais intenso, contra um adversário tecnicamente mais forte. Contra um Milan bagunçado e em crise, os merengues perderam uma e empataram outra, mesmo retrospecto contra o Lyon. Diante do Barcelona, duas derrotas, ainda que a atuação no Camp Nou não tenha sido das piores.

Um clube que vê a si próprio como algo grandioso não pode se apequenar tanto nos momentos mais agudos da temporada. O erro não é só de Pellegrini, mas de todo o projeto madridista. Tanto que o time não passa das oitavas de final da LC há seis anos. Mas o técnico é o elemento mais fraco da corrente. E, como ele não pode ser isento de faltas, dificilmente escapará da degola.

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Equipe Trivela

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