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Barcelona volta à final do Mundial para encontrar um clube que já lhe serviu de escola

* Por Bruno Rodrigues

River Plate e Barcelona se enfrentarão no próximo domingo, para definir o campeão do Mundial de Clubes. Na última vez em que esteve no torneio, o clube catalão saiu com o título, em 2011, após bater o Santos por 4 a 0. Brindou os fãs com uma exibição de cinema, classificada por ninguém menos que Pep Guardiola, então técnico culé, como a melhor partida do time sob seu comando.

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Há quatro anos, alguns analistas afirmavam que Guardiola e o seu Barça haviam bebido dessa fonte infinita de inspiração que é o “verdadeiro futebol brasileiro”. Mas, por mais que Guardiola tenha mencionado de maneira elogiosa o passado do nosso futebol, ele nunca serviu de referência para as inspirações táticas de Pep – como afirma o jornalista Martí Perarnau, responsável pela obra “Guardiola Confidencial”, um relato da intimidade futebolística do treinador em seu primeiro ano à frente do Bayern de Munique.

Agora sim, diante do River, pode-se dizer que o Barcelona encontra um clube e uma escola de futebol que já lhe emprestaram conceitos, um deles muito importante para a construção do Barça contemporâneo: o falso 9, função que transformou Lionel Messi em uma máquina de gols – e isso sem aprofundar as outras referências argentinas de Pep, como Cesar Menotti e Marcelo Bielsa.

Guardiola e Messi, na última temporada do treinador no Barcelona (AP Photo/Andres Kudacki)

Primeiro de maio de 2009. Guardiola estudava as maneiras de causar danos ao Real Madrid no clássico do dia seguinte, marcado para o Santiago Bernabéu. O técnico percebeu que entre a linha de meio e a de defesa, os merengues deixavam um enorme espaço quando os volantes saíam para pressionar Xavi e Iniesta. Então, pensou que aquela zona vazia poderia ser terreno fértil para Messi receber o passe às costas dos meias e ir em direção ao gol, como já havia dado certo em uma goleada sobre o Sporting Gijón naquele mesmo Campeonato Espanhol (6 a 1, em 21 de setembro de 2008). O treinador ligou para Messi e, às dez e meia da noite de sábado, indicou ao argentino o caminho a ser seguido no domingo.

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“Leo, quando Xavi ou Andrés (Iniesta) transpuser a linha adversária e lhe passar a bola, vá direto até o gol, até o Casillas”, disse Guardiola. A partida terminou 6 a 2 a favor dos catalães, Messi fez dois e o resto da história muita gente já sabe. O que talvez poucos saibam é a origem do conceito de falso 9.

“Como jogador, Pep foi companheiro de Michael Laudrup no Dream Team de Cruyff. E Laudrup foi um falso 9 extraordinário. Cruyff deixava vazia a zona do finalizador e utilizava Laudrup como ‘homem sem posição’”, escreve Perarnau, em Guardiola Confidencial. “Guardiola foi testemunha e protagonista daquele período. Mais tarde, estudou o histórico da jornada do falso 9: Pedernera, Hidegkuti, Palotás, Di Stéfano, Laudrup, Totti…”, conta o autor.

Michael Laudrup

Portanto, além da experiência exitosa e empírica que o Guardiola jogador teve no Dream Team treinado por Cruyff, o conceito absorvido pelo hoje técnico surge em algo que ele foi buscar lá nos anos 1930 e 1940, no início dessa linha do tempo traçada em seu estudo. Mais precisamente, no River Plate que ficou conhecido como La Máquina.

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Os Millonarios encantavam o futebol argentino com um jogo vistoso e muitos gols, fruto do potente ataque formado por Muñoz, Moreno, Pedernera, Labruna e Loustau. Adolfo Pedernera, El Maestro, foi reposicionado da ponta-esquerda para uma faixa mais central, desempenhando um papel de falso atacante atrás do quarteto que compunha esta máquina. Atraía marcadores e originava espaços na defesa adversária, muito bem aproveitados pelos companheiros.

A ideia do reposicionamento de Pedernera, da esquerda para o meio, se perdeu no tempo, não sendo possível determiná-la com exatidão ao então técnico do River, Renato Cesarini, nem a seu assistente, Carlos Peucelle – ex-companheiro de Pedernera antes de se juntar à comissão técnica. O que pode, sim, ser creditada a Peucelle é uma frase marcante não sobre a paternidade, mas sobre a maternidade do Maestro e, com boa dose de humor, do próprio time: “A Máquina do River foi uma invenção de Dona Rosa, mãe de Adolfo Pedernera”.

Sob o comando de Luis Enrique, Messi não é só um falso 9, mas também não apenas um ponta aberto pela direita, no trio que forma ao lado de Neymar e Suárez. O técnico sabe que limitar a zona de atuação do camisa 10 é desperdiçar o potencial máximo de suas capacidades e, inclusive, limitar também suas possibilidades de vitória. Essa liberdade certamente originará o(s) momento(s) em que Messi recebe, centralizado, o passe entre linhas e parte para encarar a linha de zaga. Defesa que, desta vez, vestirá a camisa que emprestou (mesmo que indiretamente) o conceito do falso 9. Conceito que, no próximo domingo, talvez os Millonarios lamentem por terem criado.

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