Tim Vickery: Como jogo polêmico do Barcelona virou reflexo problemático do futebol global
Colunista da Trivela avalia decisão controversa da LALIGA desejar levar partida para os Estados Unidos
Fiz um podcast esta semana com um grande cidadão que há anos trabalha como torcedor/jornalista cobrindo o Liverpool. Ele me contou o seguinte: que, há mais de dez anos, alguém da hierarquia lá em Anfield deu um conselho para ele: ‘você tem que deixar de pensar em Liverpool como um clube de futebol, e começar a vê-lo como um gerador de conteúdo’.
Bem, ele não quis. Nem eu. E, por isso, estamos felizes que não vingou a ideia de levar um jogo de LALIGA para os Estados Unidos. Mas também estou triste porque a ideia não vingou, mas somente por enquanto.
Barcelona, LALIGA e os problemas do futebol global
Cada tentativa está ficando mais perto de concretizar uma proposta que trata-se de uma ofensa ao conceito de clube de futebol, e uma homenagem ao pensamento de um time deveria ser um gerador de conteúdo global.
O futebol profissional vive numa corda bamba permanente entre negócios e cultura, e sempre tem momentos quando um lado precisa ceder para o outro. Vejo isso como o momento mais importante para não ceder. Barcelona e Villarreal não deveriam nunca jogar uma partida da LaLiga em Miami.
Um motivo óbvio se chama a integridade do campeonato. Pontos corridos se joga num entendimento de partidas em casa e em fora, com condições iguais para todo mundo. Por isso, entre outras razões, sou rigorosamente contra a venda do mando de campo no Brasil.

Fiz outro podcast com um grande jornalista espanhol que apoia a ideia. Obviamente, por trás da tentativa, há um esforço para competir com a Premier League. E se LaLiga realmente é uma competição global, deveria viajar de vez em quando para levar o seu espetáculo para uma audiência global.
Tem sentido — mas tem problemas. O primeiro é que o modelo dos Estados Unidos não serve tanto. A NBA ou a NFL já são campeonatos globais, totalmente dominantes.
O futebol é muito, muito maior e, felizmente, é muito mais espalhado pelo mundo. Não tem comparação. Não serve muito um sujeito de Miami virar torcedor do Barcelona.
Quantas vezes o time vai visitá-lo para fazer um jogo competitivo? Poucas. Pode virar torcedor/simpatizante. OK, tranquilo. Mas é muito melhor para o esporte se ele se apaixona por um clube local, que ele pode assistir a cada duas semanas.

Sempre acho isso sobre jogos em Brasília. O pessoal fala que é bom, que por lá tem muitos flamenguistas e vascaínos, que vão ter uma chance para ver o seu time. Penso o contrário.
A cidade já tem 65 anos. Chegou na idade da aposentadoria sem ainda desenvolver um clube de massa. Alguma coisa está errada. E fica mais difícil desenvolver tal clube já que, de vez em quando, tem a visita de um clube grande e glorioso de um centro mais tradicional. É concorrência desleal.
Mas para mim o argumento mais forte contra a proposta de ‘liga ambulante’ é o dano que faz para a essência do futebol de clubes. Aquela palavra: clube, pessoas se juntando para um determinado propósito.
E no futebol, localidade tem tudo a ver. O clube de futebol vira um representante legítimo de um certo espaço geográfico. Claro, pode crescer e conquistar corações de quem mora longe, mas são sempre agregados. A essência fica lá no bairro, que nem no caso do Barcelona e nem no do Villarreal se chama “Miami”.



