Espanha

Quem imaginaria ver o Barcelona em decadência?

Crise após crise, o clube catalão protagoniza um processo de desidratação pública que parece longe do fim

O que acontece com o Barcelona? Tudo que um dos maiores clubes da Espanha e do mundo projetava com a campanha “Barcelona do Século 21” está sendo desidratado publicamente, em um dos maiores e mais dramáticos processos de decadência da história do futebol.

O Barça, a Seleção Nacional da Catalunha, Mais Que Um Clube administrado por seus sócios que se orgulhava de não ostentar publicidade paga em sua camisa. O que se vê hoje enquanto o majestoso Camp Nou passa por uma grande reforma, é uma instituição perdida, envolta em uma sucessão de crises que desemboca em um time fraco, sem personalidade e sem comando, dado o anúncio público de saída do treinador Xavi Hernández, um dos maiores ídolos da instituição.

O Barcelona não disputa a final da Champions League deste a temporada 2014/15, período em que o Real Madrid abocanhou quatro taças. O símbolo catalão ainda sustenta uma boa performance em La Liga, tendo vencido quatro das últimas dez temporadas, mas as glórias continentais parecem cada vez menos prováveis. Sevilla, Villareal e Atlético de Madrid conquistaram a Liga Europa neste recorte de dez temporadas.    

O que acontece no Barcelona? Uma visão realista

Um excelente artigo de Juan Josep Pallas no importante jornal “La Vanguardia” traz uma visão ácida e realista do Barcelona e do barcelonismo neste momento grave. Entre outros trechos de um texto sólido e bem argumentado, destaco dois: “estar em franca decadência e negar-se a aceitar. Nada mais humano”; e “recordemos que a chamada melhor torcida do mundo não quis se mudar para Montjuic porque faz frio e é longe”. Pallas identifica dois aspectos fundamentais para o momento do Barça: soberba e distanciamento da torcida. O clube e sua direção não reconhecem o estado de coisas, e a torcida faz biquinho para ver o time jogar no estádio Olímpico que fica relativamente próximo ao Camp Nou (cerca de 8 km).

Outro ponto destacado por Pallas que chama atenção é sobre o suporte a Xavi. Segundo ele, Deco como diretor não pode dar a Xavi, um ídolo muito maior do que ele, a proteção necessária em momentos de ebulição. 

Barcelona vive uma sucessão de escândalos

A sucessão de escândalos administrativos e esportivos envolvendo o Barcelona cobra seu preço de uma vez. O clube enfrentou proibições de contratações, problemas com a administração de suas mídias digitais e confessa uma dívida de 550 milhões de euros (não se sabe se a confissão é equivalente à realidade). Paira sobre o clube uma suspeita de manipulação de arbitragem que, caso confirmada, pode ter efeitos cataclísmicos sobre a instituição. Não apenas sobre o clube, mas sobre a cidade de Barcelona e a Catalunha. O Barça é um dos principais ativos políticos da região autônoma espanhola. Dados de 2021 apontavam que o Fútbol Club Barcelona respondia por 1,46% do PIB da cidade de Barcelona.

Com a bola rolando, o Barça é reflexo da crise administrativa. Embora esteja em terceiro lugar na Liga Espanhola quando este texto está sendo escrito, o clube amarga dez pontos de distância do Real Madrid e onze do surpreendente primo pobre catalão (nem tão pobre, já que é turbinado pelo Grupo City), o Girona. O time protagoniza resultados como a derrota por 5 a 3 para o Villareal ou o baile sofrido diante do Real na Supercopa da Espanha. Nada leva a crer que o desempenho sustente o primeiro lugar no grupo da Champions League.

Em campo o Barça é um conjunto frágil, que faz enorme esforço para atacar e oferece latifúndios aos adversários para o contragolpe. Ainda que conte com grandes jogadores do porte de Gundogan e Lewandowski e muitos jovens de excelente potencial em um elenco com 12 jogadores de seleções nacionais e 11 estrangeiros, o Barça, em termos de equilíbrio, lembra uma equipe muito mais jovem que sua média de 26 anos de idade sugere.

Ao anunciar sua saída precocemente, Xavi aponta para uma questão que deixa o Barça e principalmente Deco, o diretor responsável, em um dilema: trocar agora ou esperar que o treinador cumpra o contrato até o final da temporada, em 30 de junho?

Lá como cá, os resultados é que decidirão pelos dirigentes. Antes de enfrentar o Napoli pela Champions, em 21 de fevereiro, o calendário do Barça prevê jogos contra Osasuna, Alavés, Granada e Celta. Sequência que nos bons tempos culés não assustaria. O nome mais cotado para a vaga de Xavi é o do mexicano Rafa Marquez, atual treinador do time B, o Barça Athletic. Também ídolo do clube, embora muito menos que Xavi, ele seria uma aposta do presidente Joan Laporta para emplacar alguém barato e fiel ao DNA de futebol do Barça. Ainda que o time atual esteja longe de atestar essa hereditariedade.

Foto de Mauricio Noriega

Mauricio Noriega

Colunista da Trivela
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