Ausência de Abidal tem deixado Barcelona vulnerável
Números sempre impressionam. Pelo menos no mundo moderno, em que a objetividade que eles supostamente representam dão tom solene e científico a qualquer informação. Então, vamos a números. O Barcelona perdeu apenas dois jogos nesta temporada, o primeiro em um torneio que não é tão oficial assim e o último em um duelo bizarro contra o Celtic, em que os espanhóis tiveram 84% da posse de bola e pararam em um inspiradíssimo goleiro Forster. Isso foi nesta semana. Ou seja, o clube havia sobrevivido até então sem sair de campo derrotado em uma partida de competição importante. Ah, e ainda tem a melhor campanha da história do Campeonato Espanhol após dez rodadas.
Sinal de que o Barcelona de Tito Vilanova não é muito diferente do Barcelona de Pep Guardiola, que a continuidade desejada pelo clube foi atingida e que o projeto segue firme e forte. Claro, tudo isso é verdade se você acreditar nos números do primeiro parágrafo. Mas não é bem assim. E a enganação não está em minimizar uma derrota para o Real Madrid na Supercopa da Espanha (que normalmente é quase amistosa, mas muda muito de cara quando o adversário é seu maior rival). A questão está em ver como o time chegou a seus resultados, e como o nível de risco está cada vez maior.
Um dos fatores que surpreendia no Barça era o modo como a marcação forte na saída de bola do adversário e a posse de bola massacrante não eram apenas recursos ofensivos. Eram também medidas defensivas, que serviam para tirar o ataque oponente da partida. Isso não acontece mais. Vamos a mais números, agora sem edição maldosa. Neste caso, os gols sofridos pelos blaugranas em todas as competições oficiais desde a chegada de Guardiola:
| Temporada | Técnico | Jogos | GC | Média |
| 2008/09 | Guardiola | 59 | 52 | 0,88 |
| 2009/10 | Guardiola | 59 | 39 | 0,66 |
| 2010/11 | Guardiola | 60 | 36 | 0,6 |
| 2011/12 | Guardiola | 64 | 48 | 0,75 |
| 2012/13 | Vilanova | 17 | 21 | 1,23 |
Nem é preciso fazer um gráfico para perceber a escalada repentina de gols sofridos do Barcelona na atual temporada. É mais que o dobro em relação à temporada 2010/11, por exemplo. Vários motivos levam a isso. Um deles é simples e direto: a contusão da dupla de zaga. Sem Piqué e Puyol, a defesa barcelonista perde suas referências. Mas outro motivo importante é a saída do veterano e combalido Abidal pelo jovem Jordi Alba na lateral esquerda.
A diferença de ambos é marcante, ainda mais nesse período em que o espanhol ainda está se adaptando ao novo time. Alba é um bom jogador, mas é um lateral ofensivo. Exatamente como já é Daniel Alves pela direita. Na temporada passada, Guardiola experimentou um Barcelona que transitava entre o 4-3-3 e o 3-4-3, justamente dando liberdade para o brasileiro avançar e se transformar em ala ou ponta. Mas, para garantir a proteção defensiva, Abidal se mantinha atrás, e aproveitava sua experiência como zagueiro para fechar mais e se juntar a Puyol e Piqué em uma linha de três. Além disso, Busquets permanecia em sua posição, um pouco a frente da defesa.
Com Alba, a movimentação é diferente. Ele também avança muito, como Daniel, e não marca muito bem, como Daniel. Isso tem tido bons resultados ofensivamente. Entre Barcelona e seleção espanhola, o lateral-esquerdo já fez 4 gols nesta temporada, igualando a melhor marca de sua carreira (2008/09, pelo Gimnàstic). No entanto, é comum os dois laterais subirem ao mesmo tempo, o que obriga Busquets a recuar para compor a linha defensiva. Não é uma movimentação tão natural, porque obriga o volante a mudar de setor e ainda cria a necessidade de os meio-campistas se preocuparem com a proteção à defesa.

Todo esse trabalho pode funcionar, mas precisa de um tempo para todos os jogadores criarem esse sistema de avanços e coberturas de modo mais orgânico. Enquanto isso não acontecer, a defesa do Barcelona continuará dando muitos espaços para times que saírem em velocidade assim que recuperarem a bola. Enquanto os blaugranas estão trocando de posição, um atacante rápido pode se projetar com liberdade.
E por que, então, Vilanova não coloca Alba como lateral-lateral, como fazia Abidal? Simples, ele não sabe fazer isso. Alba foi o lateral da Espanha na Eurocopa, e até foi às redes na final contra a Itália. No entanto, o sistema espanhol é bem diferente. Vicente del Bosque escalou um time com um lateral-direito que avança moderadamente (Arbeloa) e dois volantes. Com isso, Jordi teve muito mais liberdade para avançar, como tinha Capdevila antes. No Valencia, Alba até começou a temporada como lateral, mas cresceu mesmo quando se transformou em meia aberto, deixando o defensivo Mathieu na lateral.

A falta de cacoete de defensor ficou evidente em vários momentos desse início de temporada. No Campeonato Espanhol, o lateral se embananou ao fazer a cobertura da zaga e fez um belo gol contra, encobrindo Valdés, nos 5 a 4 contra o Deportivo. Na Liga dos Campeões, o Spartak fez um gol pela esquerda e outro em jogada rápida, aproveitando os espaços da defesa catalã. Contra o Celtic, faltou a Alba altura (ele tem 1,70 metro, 16 cm a menos que Abidal) e impulsão para marcar Wanyama em uma bola aérea no primeiro gol.
Por isso, a vulnerabilidade da defesa barcelonista já merece atenção. Os retornos de Puyol e Piqué são fundamentais pela segurança no miolo e pela capacidade de orientar melhor o posicionamento dos jogadores. Mas Tito Vilanova terá trabalho para que Jordi Alba se encaixe logo nesse esquema. Neste momento, é um ponto fraco que nem sempre o ataque conseguirá compensar. Contra o Celtic, já não conseguiu.



