Copa do ReiEspanha

A pancadaria entre Barça e Athletic na final da Copa do Rei provocada por Maradona

Ninguém questiona a hegemonia de Real Madrid e Barcelona no futebol espanhol. Os títulos nas competições continentais e a supremacia a cada temporada de La Liga são evidentes. No entanto, é curioso notar que o torneio mais antigo do país não é dominado pela dupla de gigantes. De 1911 a 2009, o maior vencedor da história do torneio era outro, o Athletic Bilbao. Os leones foram ultrapassados pelo Barcelona, justamente em uma derrota na final para os blaugranas no Mestalla. O Real Madrid, por sua vez, é apenas o terceiro na lista de campeões. Juntos, bascos e catalães levantaram a taça 49 vezes. Trajetória grandiosa da dupla, que ganhará seu 50o capítulo neste sábado, com a decisão no Camp Nou.

VEJA TAMBÉM:  A noite em que Maradona foi ovacionado pelo Marakana lotado

Ao longo dos 112 anos de Copa do Rei, esta será a oitava final entre Athletic e Barcelona. Passado que resgata lendas como o basco Telmo Zarra e o catalão Josep Samitier, maiores artilheiros da competição. Que remonta períodos de repressão, como o duelo decisivo de 1942, quando os símbolos regionais reprimidos após a Guerra Civil pelo ditador Francisco Franco disputaram o título da “Copa do Generalíssimo”. Que também reforça o caráter opositor de ambas as torcidas, com as vaias ao hino espanhol em 2009 e 2012. Só que os clubes que já se uniram também sustentam uma grande rivalidade. A ponto de protagonizarem a final mais violenta da Copa do Rei: a Batalha do Bernabéu, em 1984.

O Athletic Bilbao vivia naquela época o seu último momento no topo da Espanha. Bicampeões de La Liga, os leones buscavam a dobradinha na Copa do Rei, após eliminarem o Real Madrid nas semifinais. O Barcelona, por sua vez, vivia meses conturbados e tinha a pressão de vencer a final para salvar a temporada. Enfrentaria justamente o rival com quem teve problemas meses antes. Em setembro de 1983, uma entrada criminosa de Andoni Goikoetxea fraturou o tornozelo de Diego Maradona e chegou a ameaçar a própria carreira do craque de 23 anos.

Neste clima, o Santiago Bernabéu vivia um clima convulsivo naquela decisão. As declarações às vésperas do jogo deixavam bem claro como os ânimos estavam exaltados, com o técnico Javier Clemente chamando Maradona de “estúpido, castrado e sem qualidades”. Já durante a partida, o principal personagem da polêmica foi Bernd Schuster, outra vítima de Goikoetxea em 1981, que começou a provocar a torcida e viu objetos lançados contra si. Enquanto o futebol imperou, ao menos, o Athletic Bilbao conseguiu se impor. Endika fez o gol do título aos 14 minutos, enquanto Andoni Zubizarreta segurou a vitória por 1 a 0 dos leones contra o time de César Luis Menotti.

maradonaa

As imagens que fazem aquela final tão célebre, contudo, vieram logo após o apito final. Maradona estava possesso com outra entrada forte de Goikoetxea, além dos gritos xenófobos da torcida basca. E Miguel Ángel Sola caiu no erro de provocar o camisa 10. A deixa para uma briga generalizada no gramado do Bernabéu. O argentino chegou a acertar uma cabeçada em Sola, além de uma joelhada em outro adversário, que desmaiou imediatamente. Enquanto isso, também tomou uma voadora de Goikoetxea, e o restante dos atletas se juntava à pancadaria. Além disso, também havia focos de confusão nas arquibancadas, com muitos objetos atirados em campo e até jogadores que os devolviam em represália. Ao todo, 60 pessoas saíram feridas do Bernabéu.

Aquele momento encerrou a passagem de Maradona pelo Camp Nou. Por mais que encantasse, o craque havia conquistado poucos títulos, e teve problemas nos vestiários. Já a briga o levou uma suspensão de três meses, que acelerou sua venda ao Napoli. Enquanto isso, nenhum outro jogador foi sancionado – e Goikoetxea, inclusive, foi expulso na primeira rodada de La Liga 1984/85. Cenas do maior símbolo da rivalidade entre Athletic e Barcelona.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo