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Ancelotti: goleada sofrida para o Atleti foi pior do que a derrota para o Liverpool em Istambul

Todo clube grande é marcado por pressão igualmente elevada, mas não existe no mundo equipe capaz de fazer paralelo com o Real Madrid. As seguidas trocas de comando e as compras e vendas de jogadores às vezes desnecessárias a cada janela de transferências provam isso, e essa percepção ganhou ainda mais força depois de uma entrevista de Carlo Ancelotti para o jornal inglês Daily Mail. O experiente treinador falou sobre sua demissão ao fim da temporada passada e dimensionou o tamanho da cobrança no Santiago Bernabéu: “Perder para o Liverpool em 2005 foi minha pior experiência? Experimente perder por 4 a 0 no dérbi de Madri”.

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Apesar de afirmar que já sabia o tipo de pressão por resultados que enfrentaria no Real Madrid antes de assinar com o clube e de avaliar que isso era uma troca justa pela oportunidade de comandar o “clube mais importante do mundo”, como ele mesmo define, Ancelotti assumiu que ficou decepcionado por ter sido demitido mesmo com o bom trabalho que fazia, incluindo o sonhado título de La Decima um ano antes, que, segundo ele, foi a única coisa que o manteve por mais uma temporada em Madri.

“Ser demitido faz parte do trabalho, mas se você me perguntar sobre minha demissão do Real Madrid, te direi que não foi certa. Eu fiquei muito descontente, porque eu tinha um relacionamento fantástico com os jogadores. Eu gostava muito de treinar aquele time. Eles eram muito sérios e profissionais. Fiquei mais decepcionado do que quando saí do Chelsea. Você é julgado pelos resultados, mas não dá para vencer todo ano. Certamente não na Espanha, onde você tem o melhor time do mundo, que é o Barcelona, e um terceiro time, o Atlético, que também é muito competitivo”, defendeu-se o italiano.

Para dimensionar o tamanho da cobrança no Real Madrid, Ancelotti comparou duas derrotas marcantes de sua carreira como técnico: o 4 a 0 para o Atlético de Madrid na temporada passada e a decisão da Champions League de 2005, quando treinava o Milan e, após abrir 3 a 0 no primeiro tempo, sofreu o empate e, nos pênaltis, acabou derrotado pelos Reds: “O Real Madrid foi meu trabalho mais difícil. Mais pressão mesmo que o Milan. Perder para o Liverpool em 2005 foi minha pior experiência? Experimente perder por 4 a 0 no dérbi de Madri. Naquela temporada, tínhamos uma sequência de 22 vitórias, mas tudo foi esquecido em 7 de fevereiro, quando perdemos por 4 a 0 para o Atlético.”

Ancelotti lembra com carinho dos tempos de Real Madrid quando o assunto é o elenco, mas um de seus comandados em especial o impressionava: Cristiano Ronaldo. “Às vezes, voltávamos de um jogo pela Champions League, e podia ser três da manhã que, mesmo assim, o Cristiano Ronaldo era o único jogador que não ia direto para casa. Em vez disso, ele ia para o CT mergulhar na banheira de gelo, para ajudar na recuperação do jogo. Como grupo, todos eram muito profissionais, no entanto. Casillas, Modric, o Bale também”, relembra.

Em ano sabático após a saída do Real Madrid, Ancelotti agora aguarda propostas para retornar ao futebol. Seu retorno à Premier League vem sendo especulado há algum tempo. Primeiro em relação ao Liverpool, que vivia má fase sob o comando de Brendan Rodgers, mas que já acertou com Jürgen Klopp. Porém, também com rumores de que poderia voltar a treinar o Chelsea, que faz início ruim de temporada e vê Mourinho balançar no cargo.

Apesar de reconhecer que seria uma boa experiência voltar ao futebol inglês, Ancelotti afirmou que os Blues já decidiram pela permanência do português e que considera essa uma boa escolha. Sobre o momento pelo qual o atual campeão inglês passa, o italiano falou que é difícil explicar o motivo, mas especulou que o problema esteja na dificuldade de se motivar um grupo recentemente vencedor.

“Eu olho à distância o Chelsea e acho que eles venceram facilmente o título no ano passado e não acho que estão tão motivados neste ano. É verdade que o treinador tem que conseguir motivar os jogadores, mas o treinador não pode motivar um jogador que não motiva a si próprio. É impossível. Eles perderam algo, e é difícil mudar como se fosse um interruptor. Você tem que trabalhar lentamente para mudar. Mas o Mourinho é um dos melhores treinadores do mundo, sem dúvidas. Vejo sua linguagem corporal, e ele está bem, não está preocupado. Durante o jogo com o Dynamo Kiev, os torcedores estavam cantando seu nome. Ele vai resolver as coisas”, projetou Ancelotti.

Além de ter um currículo extenso, repleto de títulos, Ancelotti conta com seu ótimo gerenciamento de grupo como carta na manga para emplacar em breve um trabalho em algum grande clube. Líderes compreensivos como o italiano costumam ser bem recebidos pelos atletas. “Gosto de ter uma relação nivelada com os jogadores. É claro que eu tenho autoridade, mas depois de uma derrota eu ainda posso dizer que amanhã o dia é livre, e em alguns clubes isso foi tomado como uma fraqueza”, comentou.

O treinador reconheceu que às vezes perde a paciência e inclusive revelou um episódio em que acabou acertando uma caixa no rosto de Ibrahimovic, mas garantiu que seu perfil não combina com o de um líder autoritário: “Disseram que você precisa castigar. Eu digo que encontrem outro treinador. Eu nunca castigo. Nem como treinador, nem como pai. É claro que já perdi a paciência. No Paris Saint-Germain, uma vez perdemos para o Evian na Copa (da França), e eu estava tão nervoso que chutei uma caixa, e ela acertou a cabeça do Ibrahimovic. Foi mais ou menos o mesmo que aconteceu com Ferguson e a chuteira com o Beckham. Mas nós rimos disso depois”. Ancelotti prefere exercer sua liderança através da validade de seus métodos e argumentos.

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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