e Barcelona se enfrentaram, nas duas últimas temporadas, por Liga dos Campeões, Campeonato Espanhol, e Supercopa da Espanha. E foi justamente nesse último torneio, o menos relevante (convenhamos, a Supercopa é quase que um amistoso de luxo) que o pau quebrou, com direito a empurrões e dedada no olho. Sinal evidente de como o clássico espanhol deixou de ser algo racional há um bom tempo.

Por isso, quando as duas equipes percebem que se enfrentarão na Copa do Rei em quartas-feiras seguidas, a reação inicial é de ansiedade, e de criar mais uma vez um clima de guerra para vencer o rival. Mas, se houver um pequeno espaço para pensar friamente, o Real Madrid deveria deixar o resultado em segundo plano, e usar os compromissos para testar formações que possam mudar a lógica dos últimos encontros.

Desde que Guardiola assumiu o Barcelona, o domínio sobre o Real Madrid é assombroso. São 8 vitórias catalãs, 3 empates e uma vitória madrilena:

13/dez/2008 – Barcelona 2×0 Real Madrid
2/mai/2009 – Real Madrid 2×6 Barcelona
29/nov/2009 – Barcelona 1×0 Real Madrid
10/abr/2010 – Real Madrid 0x2 Barcelona
29/nov/2010 – Barcelona 5×0 Real Madrid
16/abr/2011 – Real Madrid 1×1 Barcelona
20/abr/2011 – Real Madrid 1×0 Barcelona
27/abr/2011 – Real Madrid 0x2 Barcelona
3/mai/2011 – Barcelona 1×1 Real Madrid
14/ago/2011 – Real Madrid 2×2 Barcelona
17/ago/2011 – Barcelona 3×2 Real Madrid
10/dez/2011 – Real Madrid 1×3 Barcelona

Podemos excluir os quatro primeiros encontros, pois os técnicos do Real eram Juande Ramos e Manuel Pellegrini. Nos demais, já sob a “gestão” José Mourinho, houve duas histórias: a) o Real Madrid tentou jogar seu jogo de sempre e acabou superado por um time envolvente; ou b) o Real Madrid se trancou e conseguiu anular o Barça, mas ficou sem saída para fazer o seu próprio jogo.

Antes da última partida, José Mourinho deu a entender que usaria a opção B novamente, escalando três volantes, mas acabou usando a A, colocando o time no 4-2-3-1. Deu-se mal. O Real até abriu o marcador, mas tomou a virada e poderia ter sido goleado em casa. O estilo de um time encaixa bem demais no estilo do outro. O técnico português não encontra uma saída para acabar com a freguesia, e isso o incomoda muito.

A Copa do Rei lhe dá essa brecha. De todos os torneios da temporada, é o único em que o Real Madrid não está em dívida com sua torcida: foi na final da edição 2010/11 dele que os merengues conseguiram a solitária vitória sobre o Barça de Guardiola. O time pode se aventurar em experiências sem grandes traumas, pensando em capitalizar no Campeonato Espanhol e, principalmente, na Liga dos Campeões.

Mourinho é um sujeito normalmente conservador, mas poderia tentar ousar. Por exemplo, buscar um meio-campo mais leve (um volante fixo atrás de uma linha de quatro meias técnicos, como Di María Kaká, Özil e Marcelo, com Cristiano Ronaldo na frente) para ter volume no meio-campo e velocidade na saída de bola. Ou então priorizar os jogadores com passe mais apurado para tirar a posse de bola do Barcelona.

Pode ser um fracasso, claro. Os blaugranas podem dominar mais uma vez a partida e vencerem com facilidade. Mas, e daí? O Real Madrid precisa encontrar soluções para usar na reta final da temporada, quando precisará lidar com um confronto direto contra os catalães no Camp Nou pelo Campeonato Espanhol (pelos cinco pontos que já abiru, talvez os merengues precisem apenas de um empate) e talvez com outros duelos pela Liga dos Campeões. Sacrificar a Copa do Rei pode ser um preço baixo a se pagar. É só ter frieza para entender que uma ou outra derrota não é o fim do mundo.