A missão não tão impossível do PSG e o novo velho Barça
Carlo Ancelotti preferiu adotar um discurso cauteloso na Liga dos Campeões. Desde que o Paris Saint-Germain passou pela primeira fase com tranquilidade e se colocou como forte candidato aos mata-matas, o treinador afirmou que o título continental não era seu objetivo nesta temporada. No entanto, se os parisienses tinham a intenção de justificar o investimento milionário da família real do Qatar com ao menos uma vaga entre os quatro melhores, viram o objetivo bem mais distante depois do sorteio das quartas de final.
Ninguém nega a qualidade do elenco do PSG, mas em muitas ocasiões a equipe deixa a desejar na noção de conjunto. Algo bem diferente do que acontece com o Barcelona. Os blaugranes contam com jogadores ainda mais qualificados e é um dos maiores exemplos de entrosamento da história do futebol. E, por vezes, é neste ponto que se concentra o problema, com a ausência de alguém além de Messi para quebrar o ritmo deste jogo coletivo e partir para a definição.
Time por time no papel, a superioridade do Barcelona é clara. O que também não tira as chances de classificação do PSG às semifinais. Saber se defender e aproveitar os contra-ataques é um caminho para desbancar os catalães e os parisienses têm virtudes suficientes para tanto. Milan e Real Madrid já provaram as vulnerabilidades dos culés nesta temporada e Ancelotti quer seguir pelo mesmo caminho a partir desta terça, no Parc des Princes.
Unindo defesa e ataque
Embora as principais estrelas do Paris Saint-Germain se concentrem no ataque, é a defesa que tem se mostrado o setor mais maduro sobre o comando de Carlo Ancelotti. Considerando os jogos pela liga nacional e pelas competições continentais, os parisienses sofreram apenas 25 gols na temporada, mais apenas que Bayern Munique e Juventus entre os cinco principais países da Europa.
O sistema defensivo ganhou força a partir de dezembro, quando Ancelotti passou a escalar o time no 4-4-2. Desde então, foram apenas sete gols sofridos em 17 partidas, com apenas uma derrota sofrida e o estabelecimento do novo recorde de invencibilidade da meta do clube na Ligue 1 – permanecendo oito partidas seguidas sem ser vazada.
Individualmente, a principal peça da defesa é Thiago Silva, líder pela função e pela qualidade técnica. Entretanto, os esforços brasileiros seriam em vão não fosse a compactação dada pelos meio-campistas. Graças à aproximação das duas linhas de quatro jogadores, a equipe tem mantido a segurança. Pela faixa central, Blaise Matuidi é quem carrega o piano e vive grande temporada. Ao seu lado, diante do desfalque de Thiago Motta, Marco Verratti é o favorito. Pela qualidade na saída de bola, o italiano pode ajudar na transição, que muitas vezes deixa a desejar.
Já pelos lados, Javier Pastore e Lucas precisam se empenhar para ajudar Maxwell e Christophe Jallet. A dedicação dos meias para não exporem os laterais foi notável contra o Valencia, time com capacidade ofensiva muito inferior ao Barcelona, mas bem mais dependente de suas investidas pelos flancos. Segurar a pressão adversária e não se precipitar diante das trocas de passes dos blaugranes será essencial para o PSG. Sabendo fazer isso, repetir a eficiência do primeiro jogo contra os Ches poderá abrir o caminho para a vitória.
Na ocasião, Pastore e Lucas puxaram muito bem os contra-ataques pelos lados e souberam variar o posicionamento com Ezequiel Lavezzi, atuando como segundo atacante. A velocidade é uma grande arma para aproveitar os espaços às costas deixados pelos zagueiros do Barcelona e arrancar até a linha de fundo. De qualquer maneira, ao lado do trio, quem também precisa chamar a responsabilidade é Zlatan Ibrahimovic.
Mesmo sem considerar a expulsão no fim, o sueco foi nulo no primeiro confronto com o Valencia. Contando com a benevolência da Uefa, que reduziu a suspensão, o artilheiro precisa ser mais participativo. Não apenas chamando o jogo, como também servindo de referência na área. Apesar da altura, Ibra marcou apenas um gol de cabeça na temporada. Aproveitar esse potencial diante da maior fraqueza do Barcelona pode facilitar seu trabalho, bem como afastar o rótulo de “amarelão” que carrega nos mata-matas da Champions.
O Barcelona de Pep com Tito?
Do outro lado, o Barcelona deixa interrogações sobre sua escalação. O 4-3-3 de pouca variação é uma das características do comando de Tito Vilanova, que estará de volta ao banco de reservas em Paris, e foi utilizado durante quase toda a temporada. Contudo, quando o calo apertou contra o Milan, Jordi Roura apelou a um esquema variável, similar ao de Pep Guardiola, e proporcionou a melhor atuação dos blaugranes na temporada.
A principal vantagem da formação excepcional foi a pressão exercida nos rossoneri. A marcação voltou a apertar a saída de bola com intensidade maior no campo do adversário, enquanto os jogadores tinham maior liberdade para trocar de posição e abrir a marcação. Até Messi foi deslocado da função de falso 9 e rendeu bem mais que em Milão, livre para transitar em diagonal.
Apesar da melhora na qualidade de jogo, é difícil imaginar que a ocasião se repita no Parc des Princes. A aposta veio em um momento de desespero do Barcelona, dentro do Camp Nou. Embora não se imagine um time tão ofensivo, o PSG deve sair um pouco mais para o jogo dentro de casa. Talvez Vilanova não queira correr o risco de outro resultado adverso no jogo de ida.
De qualquer forma, é possível tirar alguns pontos positivos dos últimos jogos. Poupado no final de semana, David Villa deve ganhar nova oportunidade no ataque. Além de ser um jogador mais incisivo nas finalizações, também ajuda a potencializar os contra-ataques. A reaproximação com Andrés Iniesta fez muito bem a Xavi, em especial contra o Milan. Cristian Tello, muito bem contra o Celta, colocou-se como opção para aproveitar melhor o jogo pelas laterais, diante das fases ruins de Pedro e Alexis Sánchez.
E, independentemente do posicionamento de seus companheiros, a principal peça na estratégia deverá ser mesmo Messi. O desafio é evitar que o camisa 10 fique “enjaulado”, como aconteceu na ida contra o Milan e nos últimos confrontos com o Real Madrid. Se o restante do time souber aproveitar os espaços e não tiver medo de finalizar, o sobrecarregamento do craque deve ser menor. E todos já sabem o que Messi é capaz de fazer quando tem liberdade, ainda mais na Liga dos Campeões.