A Espanha não terá de mudar agora. Ela já faz isso há tempos
Descobriram como bater o futebol espanhol e seu toque de bola. Primeiro, o Bayern de Munique elimina o Barcelona com 7 a 0 na soma do placar dos dois jogos da Liga dos Campeões. Depois, o Brasil faz 3 a 0 de forma contundente sobre a Espanha na Copa das Confederações. E já podemos dizer: “agora os espanhóis precisarão fazer ajustes no seu time para tentar o bi mundial em 2014”. Tudo bem, tem um toque de verdade, mas não é nada que já não seja feito há anos.
A filosofia de jogo da seleção espanhola é a do tiki-taka, muita compactação, marcação pressão e posse de bola massacrante como forma de impor seu jogo sobre o adversário. Ficou algo tão marcante da Espanha que parece que a estrutura do time é sempre igual, só mudando um ou outro jogador de acordo com fases ou condições físicas. Mas não é assim.
Desde a eliminação da Copa de 2006, quando Luis Aragonés decidiu implementar o esquema de troca de passes, a Espanha teve vários ajustes táticos. Veja abaixo.
Eliminatórias para a Eurocopa-2008
Na Copa de 2006, a Espanha tinha uma base talentosa, mas pagou pela inexperiência contra a França. Ainda assim, teve momentos em que mostrou que era possível usar toques de bolas rápidos como marca desse grupo (basta ver o terceiro gol contra a Ucrânia na estreia).
Após o Mundial, os espanhóis perderam as duas primeiras partidas nas Eliminatórias (Irlanda do Norte e Suécia) e Aragonés decidiu reforçar de vez a ideia do tiki-taka. Aquela estratégia valorizava a geração de meias (encaixava Fàbregas, Xavi, Iniesta e David Silva ao mesmo tempo) e tirava a dependência de uma dupla de ataque (algo importante para o momento, em que Raúl era sacado da equipe a contragosto da imprensa de Madri).
Como o meio-campo era leve demais, só com meias ofensivos, Aragonés decidiu plantar um volante de muita marcação: Marcos Senna. Com esse 4-1-4-1 a Espanha tinha muito volume de jogo pela superioridade numérica no meio-campo, apesar de ter poucas opções pelas pontas.
Com essa formação, os espanhóis se recuperaram nas eliminatórias, conseguindo a classificação com 9 vitórias e 1 empate nos dez jogos finais.
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Eurocopa 2008
Apesar do sucesso do 4-1-4-1, Luis Aragonés mudou o time na Eurocopa para aproveitar os bons momentos de David Villa e Fernando Torres. Houve alguma polêmica, pois Fàbregas perdeu posição nesse 4-1-3-2, mas a alteração ajudou a corrigir um problema das Eliminatórias: o time vencia, mas sentia falta de poder de fogo.
O time tocava bem a bola. Xavi confirmou sua condição de craque do time, Iniesta ganhou força pela facilidade de se adaptar a diferentes setores do meio-campo e Marcos Senna foi fundamental para segurar a onda de um time tão leve.
Apesar da concentração no toque de bola, essa Espanha era razoavelmente vertical e sabia aproveitar os dois artilheiros móveis para partir em contra-ataques rápidos. Villa cresceu muito e foi uma das figuras-chave da equipe, sobretudo nas duas partidas contra a Rússia (na primeira fase e nas semifinais).
Villa ficou suspenso para a final, e o 4-1-4-1 das Eliminatórias foi retomado na decisão contra a Alemanha.
Copa do Mundo 2010
Após a Eurocopa, houve um fato novo no futebol espanhol: o surgimento do Barcelona de Guardiola. Ele levou o estilo de compactação, marcação pressão e toque de bola a um novo nível, e a seleção espanhola (já com Vicente del Bosque no comando) acompanhou a tendência.
Busquets apareceu como volante eficiente na marcação e na saída de bola. Com Xabi Alonso, era possível fazer uma dupla de volantes que se movimentasse e tocasse mais a bola, sem a necessidade de um protetor de zaga puro como Marcos Senna. Além disso, o time voltou a ter opções de ataque pelas pontas, algo que não era tão forte na equipe da Eurocopa 2008.
O toque de bola se tornou menos vertical que na Euro, mas a Espanha passou a ter mais domínio territorial que nunca. Até porque a troca de passes no meio-campo passou a envolver mais gente. Daí veio a fama de time chato que só ganha por 1 a 0, sustentada por muita gente no Brasil (e fora também).
Eurocopa 2012
A fase dos atacantes não era tão boa quanto nos anos anteriores. Torres se tornou mais um segundo atacante do que um artilheiro e Villa estava contundido. Assim, Del Bosque decidiu explorar um esquema sem um atacante fixo, algo que o Barcelona vinha experimentando também.
Fàbregas ficou como esse falso homem de referência. O esquema deu muita mobilidade tática, pois o “centroavante” voltava, atraindo seu marcador e abrindo espaços para quem viesse de trás. Com o surgimento de Jordi Alba, a Espanha também ganhou uma opção interessante de ataque pela esquerda.
O problema é que, com a falta de um finalizador nato, o time muitas vezes ficou prolixo, com todo mundo tocando a bola sem uma ideia clara de quem deveria conclui-la.
Copa das Confederações 2013
Vicente del Bosque tentou Soldado e Torres como centroavantes, justamente para sanar a falta de objetividade que acometia a Espanha em algumas partidas (inclusive após a Euro, em jogos das Eliminatórias para a Copa de 2014). Com a contusão de Busquets, Iniesta ficou mais ao lado de Xavi, mas o poder de cobertura e marcação do meio-campo caiu.
A Espanha teve bons momentos, sobretudo no primeiro tempo contra o Uruguai, mas mostrou falhas contra Itália e Brasil. Com Busquets como único volante, a saída de bola ficava prejudicada quando o adversário pressionava a saída de bola. Além disso, se Xavi e Iniesta não tinham espaço, não havia Xabi Alonso para tentar armar o jogo um pouco mais de trás. E a aposta do centroavante não convenceu.
São esses problemas que Del Bosque precisa acertar para a Copa do Mundo. E é bem provável que ele tente algo. Pode não dar certo, como algumas mudanças não deram. Mas nada indica que o técnico ficará parado com o time de hoje. Afinal, não ficou nem quando a Espanha vencia tudo. Por que o faria após uma derrota contundente?








