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Tombo da Espanha foi grande, mas não significa decadência

Nada da bicampeã europeia, da campeã mundial. A Espanha esteve longe de ostentar a fama construída nos últimos cinco anos na decisão da Copa das Confederações. A Fúria de Vicente Del Bosque jogou abaixo do que pode? De certa forma, mas não foi só isso que possibilitou tamanha diferença no placar. A seleção brasileira jogou demais e soube anular os pontos fortes dos espanhóis. Suas armas foram ofensivas, sobretudo, foram apresentadas no Maracanã, mas foram inibidas.

Uma prova disso está no número de finalizações da Espanha. Talvez não tenha parecido, mas os ibéricos arriscaram mais chutes na partida do que os brasileiros. Foram 17 arremates, número próximo da média de 21 do time no torneio – que certa forma, é inflada pelos 120 minutos de confronto ante a Itália. Pesou mais a falta de pontaria da Roja, que acertou a meta de Júlio César apenas cinco vezes e acabou barrada por uma atuação estupenda do goleiro.

A maneira como o Brasil pressionou a saída de bola, no entanto, forçou a Espanha ser mais direta em suas subidas ao ataque. A Fúria tentou 521 passes na partida, a menor marca desde que Vicente Del Bosque assumiu o comando da equipe, em 2008. O número é 25% menor que a média anterior do time nas outras partidas da Copa das Confederações. Além disso, os espanhóis apostaram bem mais no jogo aéreo, com 24 cruzamentos, um aumento de 20% em relação aos outros jogos na competição.

Entre os mais apagados na final, Xavi, Sergio Busquets e Andrés Iniesta, muito bem marcados por Paulinho, Luiz Gustavo e Oscar. No Maracanã, o trio tentou 214 passes, enquanto a média no restante do torneio foi de 327 passes. Iniesta ainda teve boa atuação, principalmente pela capacidade nos dribles e pela vocação ofensiva. Já Xavi, muito abaixo fisicamente desde a temporada passada, foi anulado pelos volantes brasileiros.

Os mapas de calor do Brasil e da Espanha na final da Copa das Confederações
Os mapas de calor do Brasil e da Espanha na final da Copa das Confederações

Queda de desempenho evidente, de fato, foi notada no sistema defensivo da Espanha, exposto demais durante a partida. Impressionou a quantidade de vezes que os defensores ficaram no mano a mano com os atacantes brasileiros, quase sempre apelando para as faltas. Não à toa, três dos sete cartões recebidos pelos espanhóis na Copa das Confederações foram mostrados na final, assim como o número de faltas superou em 45% a média do time.

No fim das contas, o discurso de Sergio Ramos após a partida acaba corroborando a análise: “Só resta parabenizar o Brasil, que foi uma grande equipe. Quando se perde, são tiradas conclusões distintas. Talvez tenha se notado o desgaste físico, mas não existem desculpas. Eles se recuperaram melhor da semifinal e exibiram um futebol melhor. Agora, temos que conviver com a outra cara desse esporte. Nem sempre se pode ganhar. Para mim, serve como uma motivação extra. Esta equipe tem feito muitas coisas importantes”.

A derrota para o Brasil diminui a banca, mas não é por isso que a Espanha deixa de contar com uma das melhores seleções do mundo hoje. O desgaste existe, ainda que não tenha impedido atuações marcantes nos últimos tempos, como contra a Itália na final da Euro e contra o Uruguai na abertura da Copa das Confederações. A medida que o tempo passa, o estilo de jogo da Roja passa a ser mais dissecado e as formas de contê-lo ficam mais evidentes. E, neste ponto, os méritos são todos do Brasil.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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