A defesa também está se mexendo

Kaká voltando a jogar bem. Benzema e Higuaín simultaneamente em boa fase. Cristiano Ronaldo, Özil e Di María ainda em boas condições. Coentrão como opção pela esquerda. De repente, José Mourinho ficou com sete jogadores para as quatro posições entre setor de armação e ataque. Uma superpopulação que tem ajudado o clube a manter a incrível marca de quatro gols feitos em cada um dos últimos quatro jogos. Mas uma mudança importante tem ocorrido na defesa. Uma mudança ofuscada pela disputa dos jogadores ofensivos.
O clube vinha trabalhando, desde o ano passado, com a dupla de zaga Ricardo Carvalho-Pepe. Se fosse necessário mudar a formação (por ausência de um deles ou para Pepe ficar como volante), a opção imediata era colocar Albiol na defesa. Só em caso de necessidade ainda maior, o técnico português deslocava Sergio Ramos para o meio da defesa, deixando Arbeloa na lateral direita. Bem, essa necessidade maior aconteceu no final de setembro, quando Ricardo Carvalho e Albiol se contundiram.
Nos últimos jogos, a dupla de zaga do Real Madrid foi Pepe-Sergio Ramos. E os resultados foram animadores. Nem tanto pelo desempenho geral, mais porque abre uma nova possibilidade na montagem defensiva do time.
Sergio Ramos começou como lateral no Sevilla, mas se destacou como zagueiro. Foi no miolo de área que chamou a atenção do Real Madrid, que pagou € 27 milhões pela promessa de 19 anos. O andaluz se destacava pela velocidade e voluntariedade, mas faltava experiência para saber o momento certo de ir em cada jogada. Assim, variava atuações excelentes com muitos pênaltis e cartões desnecessários. Voltou para a lateral, onde os riscos de sua impulsividade (espaços deixado quando apóia e faltas) são menos sérios. Ganhou a posição, se tornou titular da Espanha, foi campeão europeu e mundial como lateral.
Agora, o defensor já tem 25 anos. Não comete mais tantas faltas bobas e dosa melhor seus avanços ao ataque. O retorno à zaga não soa como má ideia, nem que seja como opção tática. Em comparação com Pepe, Ramos tem mais velocidade, melhor saída de bola e comete menos faltas. Na força física, o português ganha, assim como no jogo aéreo. Mas, dependendo das circunstâncias, o espanhol pode ser mais útil.
Uma dessas circunstâncias pode ser nos duelos contra o Barcelona. Na temporada passada, o Real Madrid não conseguiu jogar e anular o rival ao mesmo tempo. Teve sucesso quando colocou Pepe de volante, reforçando o caráter defensivo do meio-campo e reduzindo os espaços para os catalães imporem o jogo de rápidos toques de bola. Só que perdeu a saída de bola e acabou sofrendo pela incapacidade de criar suas próprias jogadas.
Em alguns dos jogos contra o Barça, Sergio Ramos ficou na zaga, ao lado de Albiol. Não ajudou muito, pois faltava entrosamento e, convenhamos, Albiol está tecnicamente um nível abaixo dos colegas. Mas como seria uma defesa com Ramos e Carvalho, com Pepe ficando de opção ou de volante fixo?
Essa formação foi utilizada em uma partida da temporada passada: justamente na final da Copa do Rei, quando o Real Madrid venceu o Barcelona por 1 a 0 na prorrogação. Um jogo não transforma nada em verdade absoluta, mas pode indicar um caminho. E, enquanto o Real Madrid está se descabelando no ataque, pode estar criando uma boa alternativa na defesa.


