Espanha

Os 50 anos de Caminero, o herói do Atleti que teve sua magia eternizada por Almodóvar

A briga desata bem diante da televisão. Incomodado pelos cortejos de Víctor Plaza à sua mulher, David ameaça. E quando é desafiado sobre o que poderia fazer, desfere um soco certeiro nas partes mais dolorosas de qualquer homem. A fúria do personagem de Javier Bardem só é aplacada quando o grito de gol toma o ambiente. Que golaço!

Cercado por Nadal, Caminero dá um passo em falso e faz o defensor barcelonista marcar o vazio. Fica com o caminho livre para avançar à borda da área e cruzar para Roberto estufar as redes. Aos 10 minutos de jogo, o Atleti abre o placar no Camp Nou e encaminha a reconquista do Campeonato Espanhol após 19 anos. Era abril de 1996. Um ano depois, o drible mágico ganha o mundo na tela dos cinemas, transformado em cena do filme Carne Trêmula, do cineasta espanhol Pedro Almodóvar.

Aqueles poucos segundos como parte da ‘Sétima Arte’, por tabela, também dizem muito sobre a carreira de José Luis Caminero. Se você se debruçar na missão de procurar vídeos no YouTube, terá pouco sucesso. Com sorte, se deparará com a tomada de Almodóvar. Afinal, o meio-campista não é exatamente o jogador que, duas décadas depois de seu auge, preenche os gigabytes da internet com vídeos de suas grandes jogadas. O que não quer dizer, porém, que o brilhantismo não existia. Muito pelo contrário. E quem acompanhou o melhor de Cami, sobretudo os torcedores do Atlético de Madrid, não precisam de muito esforço para que as imagens sejam reavivadas na memória.

Caminero era o que poderia se chamar de “todo-campista”. Não havia posição na intermediária do campo em que não se sentisse à vontade. E além disso. Em seus primórdios, nas categorias de base, era atacante. Depois, quando se afirmava no Valladolid, chegou a jogar no miolo da zaga. Era o líbero de Pacho Maturana, por sua estatura, com quase um metro e noventa, mas por outras virtudes. Pela altivez, pela liderança, pela qualidade no trato com a bola. Também jogava na meia-cancha em seus tempos vestindo violeta, principalmente quando levou o time de volta à primeira divisão de La Liga. Ainda assim, em 1991, o técnico Radomir Antic rechaçou o especulado reforço ao Real Madrid, afirmando que era “muito defensivo” para as necessidades merengues.

Não era. E tanto não era que Caminero atuou em diferentes partes do meio-campo quando estava no Atlético de Madrid. Foi escalado na faixa central e também aberto nas pontas, em especial a direita. Quando preciso, até se juntava mais próximo dos atacantes. Exibindo quase sempre a mesma maestria. O mesmo bom trato com a bola, acariciada em seus pés. Tinha uma grande virtude em seus passes, criando jogadas em um rompante. Colocando os companheiros várias e várias vezes na cara do gol. O drible era uma arma inegável, capaz de abrir clarões para suas passagens. E ainda tinha a sua competência na finalização. Dada a sua posição, a média de gols especialmente no Vicente Calderón era ótima.

O que não significa, também, que Caminero era feito apenas de predicados. Muitos questionavam a sua inconsistência. A falta de sequência que proporcionava uma noite brilhante, antes de outras tantas apagadas. A falta de esforço, de quem não se doava ao máximo. Isso minou a paciência de muitos torcedores colchoneros, que passaram a persegui-lo – também pela pecha de “mercenário”, rotulado justamente logo depois do doblete em 1996. Pior, o gênio do meio-campista o atrapalhava. Não eram incomuns as “camineradas”, em que um instante de fúria rendia o cartão vermelho. Estopins como aquele de David, mas sem outro Caminero para acalmá-lo.

Antes de se tornar um símbolo rojiblanco, Caminero iniciou sua trajetória vestindo o branco do Real Madrid. Crescido em Leganés, era cria das categorias de base merengues. Nunca teve espaço no clube, contudo. A partir do final da adolescência, atravessou uma boa sequência de jogos no Castilla, que militava na segunda divisão. Nada suficiente para levá-lo ao time principal, mas que ao menos atraiu o interesse do Valladolid, contratado às vésperas de completar 22 anos. Não atuaria num clube de ponta, mas teria a oportunidade de mostrar o seu futebol.

Caminero passou quatro temporadas no José Zorrilla. Fez sua estreia sob as ordens do lendário Josip Skoblar e não demorou a se firmar entre os titulares. O Valladolid era um time para a metade inferior da tabela e isso ficou bem claro desde os primeiros meses do meio-campista, em 1988. De qualquer maneira, os blanquivioletas tinham seus brilharecos, como na vitória sobre o Atlético de Madrid, justamente no primeiro jogo do garoto entre os titulares.

A qualidade de Caminero em reger o time não impediu que o Valladolid se lançasse no abismo. A temporada de rebaixamento foi a que enterrou o projeto ‘colombiano’ do clube, confiando em Pacho Maturana no comando técnico, além de buscar Leonel Álvarez, Carlos Valderrama e René Higuita para o seu elenco. O trio da seleção cafetera não agradou e acabou perseguido, enquanto os resultados foram de mal a pior, resultando no rebaixamento em 1992. Eram anos difíceis ao clube também fora de campo, fazendo loucuras que não deveria, por todo o rombo em suas finanças. A derrocada, independentemente disso, não durou tanto. O acesso aconteceu logo na primeira tentativa. Caminero, entre os protagonistas, não ficaria mais tanto tempo entre os violetas. Já estava claro que o rapaz de 24 anos teria ambições maiores.

E teve, de maneira meteórica. Caminero chegou ao Atlético de Madrid em 1993. Já mostrou suas qualidades e se meteu entre os titulares. O espaço nos rojiblancos, aliás, era pretexto para o meio-campista dar um passo além em trajetória profissional. Afinal, foram os serviços prestados ainda na segundona, com o Valladolid, que impulsionaram sua primeira convocação pela seleção espanhola, em setembro de 1993, após ter disputado apenas uma partida pelo Atleti. Participou de um amistoso contra o Chile, antes de, no final do mês, ser titular contra a Albânia pelas Eliminatórias da Copa de 1994. Marcou um gol e deu o passe para outro na goleada por 5 a 1. No compromisso seguinte pelo qualificatório, já vestindo a 10, abriu o placar na vitória sobre a Irlanda com um chutaço. Não precisaria de mais para convencer Javier Clemente.

Mesmo assim, fazia muito pelo Atlético de Madrid. Foi um dos melhores do time já na primeira temporada. Jogando mais avançado, carregava o piano. Em meio à bagunça, com diversas mudanças de técnicos, os colchoneros não foram bem naquela temporada, terminando num modesto 12° lugar. Independentemente disso, Caminero conquistou a confiança da torcida, especialmente por aquilo que fez contra os dois gigantes. Em outubro de 1993, o Dream Team do Barcelona abriu três gols de vantagem em pleno Calderón. Três de Romário, em somente 34 minutos. O Atleti não se entregou. E buscou a virada por 4 a 3 no segundo tempo. Caminero, um dos heróis daquele dia, anotou o tento derradeiro. Já em janeiro, faria dois gols diante do Real Madrid no Bernabéu, em confronto pelas oitavas de final da Copa do Rei. Entretanto, a derrota no Calderón eliminou os rojiblancos.

Com sete gols e ótimas atuações pelo Atlético, Caminero seria convocado para a seleção rumo à Copa de 1994. Mais do que isso, apesar de somar apenas quatro partidas internacionais antes da estreia nos Estados Unidos, ganharia o posto de titular na Fúria a partir da segunda rodada, contra a Alemanha. Viveu sua grande atuação no jogo que selou a classificação às oitavas de final, com dois gols diante da Bolívia. Também marcaria nas quartas, buscando o empate contra a Itália. Todavia, a fase incontrolável de Roberto Baggio pesaria para dar o gol da vitória. A seleção espanhola voltava para casa. De maneira praticamente unânime, o camisa 15 era considerado o melhor do time na competição.

A fome de bola cresceu no retorno ao Calderón. Caminero fez uma temporada ainda melhor em seu segundo ano no clube, contribuindo com nove gols, apesar da nova campanha fraca do Atleti, terminando no 14° lugar, a um ponto dos playoffs de rebaixamento. Novamente, os técnicos chegavam e saíam do banco de reservas a um ritmo alucinante. A situação só se acalmaria em 1995, quando o presidente Jesús Gil anunciou a contratação de Radomir Antic – o mesmo técnico que havia fechado as portas para o garoto diante de seu especulado retorno ao Real Madrid. Sob as ordens do iugoslavo, Cami conquistou o histórico doblete, campeão espanhol e da Copa do Rei. Foi eleito o melhor jogador do país naquela temporada.

O Atleti de Radomir Antic era um time com mais força coletiva do que individual, apesar dos nomes célebres. Simeone, Penev, Kiko, Pantic, Geli, Molina e outros compunham a espinha dorsal. E contavam com Caminero para dar um toque diferente ao meio-campo. Para ditar o ritmo de jogo e criar jogadas aos companheiros. Para servir as assistências. Para chegar ao ataque e também marcar seus gols. Foram mais nove naquela campanha. Mas nada que se compare ao drible em Nadal no Camp Nou. Dez dias antes, os blaugranas já haviam sido derrotados pelos rojiblancos na final da Copa do Rei. Naquele momento, os catalães eram os principais perseguidores em La Liga, logo abaixo na tabela. Acabaram desmoralizados diante de sua torcida, com a derrota por 3 a 1, aberta graças à magia de Cami. O lance mais simbólico daquela conquista.

Ao final da temporada, Caminero voltou a defender a Espanha em uma competição internacional. De novo, foi um dos principais jogadores da Fúria na Euro 1996. Anotou um dos gols do time, no empate com a França durante a fase de grupos. Mas a campanha terminaria cedo, nas quartas de final, diante da Inglaterra. Longe dali, começava a derrocada do meio-campista, justo depois do auge. Seu nome aparecia constantemente nas páginas dos jornais espanhóis. Tinha a transferência sondada para um dos gigantes do país, com o diz-que-me-diz alimentado inclusive por dirigentes do Atleti. Isso causou a ira dos colchoneros, sem ser apaziguada nem mesmo com a permanência do ídolo.

Em números, Caminero voltou da Eurocopa para fazer sua melhor temporada no Vicente Calderón, autor de 14 gols em La Liga. O problema é que o time já não rendia como na temporada passada. E a culpa recaía sobre os ombros do meio-campista, oscilante demais. Algo que foi minando a paciência dos torcedores, desatando em vaias ao menor deslize. Em quinto no Espanhol, a equipe caiu nas quartas de final da Champions, diante do Ajax.

Já a última temporada de Caminero no Atleti aconteceu em 1997-98. O título fresco na memória não era impeditivo para as críticas constantes. Além disso, as lesões se tornaram costumeiras, minando seus minutos dentro de campo. Com o passar dos meses e a campanha ainda mais fraca dos colchoneros, figurantes no meio da tabela, estava claro que o meio-campista não permaneceria. Arrigo Sacchi, apontado como novo técnico antes mesmo do final da temporada, não contaria com o veterano. E se o seu desejo de se aposentar com os rojiblancos não seria atendido, Cami então tinha um pedido: queria retornar ao Valladolid. Aos 30 anos, abriu mão de parte do salário para viver uma vida mais modesta com os pucelanos. Satisfeito.

Longe da seleção e dos holofotes, Caminero teve um final de carreira digno com os blanquivioletas. Em boa parte do tempo, foi o dono do time do Valladolid, mais uma vez exibindo sua multiplicidade. Passou mais seis temporadas no clube, quase sempre fazendo campanhas modestas no Espanhol. Aposentou-se em 2004, aos 36 anos, depois que o clube amargou novo rebaixamento. O momento de seguir novos rumos, mas não de se afastar do futebol.

A memória do torcedor furioso com o ídolo possui um grande remédio: o tempo. Caminero voltaria ao Atlético de Madrid. Em 2011, se tornou diretor esportivo do clube. E se Diego Simeone, seu antigo companheiro no meio-campo, é a cara da ascensão do clube nesta década, o espanhol também deu larga contribuição nos bastidores. Segue como dirigente ainda hoje, remanejado nesta temporada como coordenador da equipe principal. Ao completar 50 anos, a imagem que fica é a do velho herói do doblete. Daquele drible em Nadal. Do lance que virou até cena de filme para Almodóvar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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