A comissão absurda recebida por Mino Raiola, de € 49 milhões na transferência de Paul Pogba da Juventus para o Manchester United (envolvendo pagamentos das três partes envolvidas), foi apenas um recorte de uma questão maior cada vez mais latente no futebol internacional. Em relatório divulgado nesta semana, a Fifa revelou que o pagamento de comissões a intermediários em 2019 subiu 19,3% em relação a 2018, chegando a US$ 653,9 milhões (mais de R$ 2,7 bilhões na cotação atual).

Das mais de 17 mil transferências em 2019, 3.557 envolveram pelo menos um intermediário. Mais de 80% dos pagamentos a intermediários foi feito por clubes de Itália, Inglaterra, Alemanha, Portugal, Espanha e França.

Embora os dados do relatório revelem que todas as cinco grandes ligas europeias estejam no olho do furacão, o caso de Portugal é excepcional: dos US$ 181,9 milhões gastos por clubes em transferências em 2019, US$ 78,1 milhões foram pagos a intermediários, valor que representa quase a metade do montante total.

O relatório usou dados do Fifa Transfer Matching System, plataforma em que as federações registram transferências de jogadores. Os números revelados pela entidade reforçam as recomendações que fez em outubro para tentar colocar uma limitação aos ganhos dos agentes.

A orientação da Fifa foi para que as comissões ficassem limitadas a: 10% para os intermediários representando o clube vendedor; 3% da remuneração do jogador para o seu agente; 3% da remuneração do jogador para o agente dos clubes envolvidos.

Além dos limites, a Fifa quer concentrar o pagamento de comissões a agentes. Eles seriam feitos por meio de uma câmera a ser criada pela entidade, que canalizaria as transações para manter maior controle sobre a movimentação.

Existe também um plano para limitar o número de empréstimo de jogadores com 22 anos ou mais, a fim de evitar a acumulação de atletas e garantir que os empréstimos “tenham algum propósito esportivo, e não comercial”.

Foi proposto um limite de oito empréstimos internacionais, tanto para jogadores entrando quanto saindo, a partir da temporada 2020/21. Este limite cairia para seis na temporada 2022/23, com um máximo de três empréstimos de entrada e outros três de saída.

Por fim, a Fifa quer reintroduzir um sistema de licenciamento obrigatório para agentes que incluiria uma exigência de desenvolvimento profissional contínuo.

Por enquanto, nada disso passe de mera recomendação. Ainda assim, especialmente após a divulgação dos dados desta semana, a pressão deverá ser maior para uma regulamentação mais rigorosa sobre o trabalho dos agentes. Com o tamanho do poder que angariaram ao longo dos anos, a resposta não seria menos intensa.