As Eliminatórias na América do Sul se despedem do atual formato, um dos melhores pontos corridos do mundo

Desde a Copa de 1998, quando adotou o formato de disputa atual, as Eliminatórias Sul-Americanas podem ser consideradas como o melhor torneio de pontos corridos do mundo. Há tradição, rivalidade, camisas pesadas, alçapões, craques e um funil que, embora possa qualificar metade dos participantes ao Mundial, ainda assim deixa muitos times competitivos de fora. No restante do planeta, não há Eliminatórias que se mantenham tão interessantes do início ao fim como na América do Sul. Uma fórmula bacana que, no entanto, está com seus dias contados com o aumento de vagas para 2026.

Estas Eliminatórias para a Copa de 2022 tendem a ser as últimas neste formato aberto de pontos corridos na Conmebol. Ou pelo menos a última em que apenas o G-4 continental se confirma diretamente no Mundial. Para a Copa seguinte, a região terá seis representantes no torneio, todos garantidos sem repescagem. É bem possível que se altere o formato das Eliminatórias a partir de então. Os pontos corridos tendem a perder a emoção que existe hoje na luta por vagas, sobretudo aos primeiros garantidos.

Que nem todas as seleções estejam no mesmo patamar na América do Sul, o nivelamento é por cima. Além do mais, o equilíbrio mantém chances de classificação à maioria até a reta final. Por competitividade e importância das partidas, as Eliminatórias costumam ser até mais emocionantes que a Copa América – especialmente quando a Conmebol parece empenhada em desvalorizar a Copa América, com tantas edições seguidas. Conseguir uma vaga no Mundial, dentro do qualificatório sul-americano, é mais difícil que chegar longe no torneio continental.

Com o atual formato, as Eliminatórias oferecem um grande número de confrontos diretos. Mesmo que uma seleção antecipe sua classificação ou se distancie das chances, é muito difícil um jogo que não interesse nada às duas partes envolvidas. E este drama costuma aumentar na reta final, quando o medo de se ausentar da Copa ou o sonho de voltar ao Mundial se potencializam. A rivalidade pega desde o início e cria capítulos memoráveis à medida que a classificação se aproxima.

Nenhuma seleção pode ser previamente descartada na América do Sul. Cada uma possui a sua arma. Podem não ser elencos recheados de estrelas, como Brasil ou Argentina, mas há um bom número de jogadores talentosos desfilando pelo continente e mesmo de treinadores que sabem armar times chatos de se enfrentar. Além disso, o ambiente é um desafio extra que não se vê em outras regiões do mundo. As viagens são relativamente longas e há elementos locais que pesam, como a própria altitude, que tanto interfere nos rumos da competição. Os mandantes contam com um alto índice de aproveitamento nas Eliminatórias da Conmebol.

É uma pena que, neste momento de pandemia, as Eliminatórias Sul-Americanas também percam seus alçapões. As torcidas não serão um elemento para fazer a diferença em estádios como o Centenário, o Defensores del Chaco ou o Metropolitano. Também será uma competição difícil de se assistir na TV, com os direitos limitados majoritariamente ao streaming por enquanto, sem todos os jogos disponíveis. É uma pena que a própria disputa acabe desvalorizada pela falta de negociação uniforme.

As Eliminatórias começam com dez candidatos à Copa de 2022. Brasil e Argentina são os naturais favoritos pela tradição e pelo peso dos nomes, mas atravessam momentos de transição que não os livra das dificuldades. Uruguai, Colômbia e Peru estiveram no último Mundial, juntando-se ao grupo que se sugere um passo à frente. Chile e Paraguai possuem uma tradição que nunca pode ser descartada, enquanto Equador e Bolívia são verdadeiros leões na altitude. Mesmo a Venezuela, única das nove equipes que nunca foi à Copa, dá sinais de seu crescimento nas últimas décadas e parece ser capaz de beliscar algo, até pelo papel feito na última Copa América.

No atual formato de pontos corridos, as Eliminatórias exigem mais regularidade. Margens a surpresas são menores que no modelo de grupos organizado até 1994. Há mais tempo à recuperação, assim como as seleções menores precisam manter uma alta rotação por dois anos. Mas não dá para negar que os desafios são vários, a qualquer equipe. Saber aproveitar o mando de campo e também se adaptar aos diferentes tipos de virtudes dos oponentes são duas chaves ao sucesso. Difícil imaginar a falta de interesse nas Eliminatórias, ainda mais numa edição que possivelmente servirá de despedida a este formato.

Abaixo, pegamos as convocações para estas duas primeiras rodadas e apontamos um jogador de cada seleção que, fora das últimas Eliminatórias, poderá deixar sua marca nas atuais. Confira:

Lautaro Martínez (Argentina)

A Argentina empreendeu o maior processo de renovação desde a Copa de 2018. Pudera, depois do fracasso que foi a campanha no Mundial da Rússia. Lionel Scaloni deveria ser apenas um tampão, mas obteve bons resultados e seguiu no cargo. Alguns de seus homens de confiança, aliás, até parecem veteranos da Albiceleste. Lautaro Martínez estourou no Racing depois das Eliminatórias e não chegou a ser levado pro Jorge Sampaoli à Copa. Dois anos depois, é uma das referências ofensivas do time e amplia seu moral pelo desempenho com a Inter. Lucas Ocampos é outro que vem em crescente no Sevilla e deve ser importante neste primeiro momento.

Boris Cespedes (Bolívia)

César Farías assumiu a direção da Bolívia após a Copa América, mas não teve tranquilidade para trabalhar, em meio ao clima político no país que também afetou o futebol e também a pandemia. O elenco chamado para as Eliminatórias tem 34 jogadores e será aproveitado mais para a observação. Ainda assim, há quem possa se destacar no meio de tanta gente. Apenas três jogadores não atuam por clubes bolivianos, entre eles Boris Cespedes. Nascido em Santa Cruz de la Sierra, o jovem cresceu na Suíça e atuou pelas seleções de base do país europeu. É titular no Servette, que fez boa campanha no último Campeonato Suíço e, aos 25 anos, tem boa chance de ajudar La Verde em sua progressão, especialmente pelas chegadas ao ataque.

Bruno Guimarães (Brasil)

Tite não é dos treinadores mais ousados em suas convocações, muito pelo contrário, mas algumas posições respiram novos ares durante o atual ciclo. Alguns jogadores poderiam ser citados nesta lista, ausentes na edição passada das Eliminatórias – como Renan Lodi, Everton Cebolinha ou Richarlison. Mas vale destacar Bruno Guimarães, especialmente por ocupar uma posição fundamental da Seleção, onde falta um nome de confiança. Arthur foi quem mais jogou nos últimos meses, mas entrou em declínio e sequer foi chamado desta vez. Pela maneira como demonstra maturidade e se sai bem no Lyon, Bruno inspira muito mais segurança para jogar ao lado de Casemiro e comandar a transição na saída de bola.

Gabriel Arias (Chile)

Reinaldo Rueda foi outro treinador que precisou lidar com a convulsão social em seu país desde o fim de 2019. A seleção chilena passa por uma renovação, com poucos rostos da geração bicampeã da Copa América. A maior parte dos jogadores atua no próprio país ou no México. E uma figura que ganha importância neste momento é Gabriel Arias. Aos 33 anos, o goleiro está longe de ser um novato. Ainda assim, o titular do Racing ganhou a posição depois das Eliminatórias para a Copa de 2018, substituindo Claudio Bravo, em meio aos problemas de relacionamento do antigo capitão. Titular na campanha até as semifinais da Copa América, o arqueiro poderá provar seu valor no qualificatório.

Alfredo Morelos (Colômbia)

Carlos Queiróz chegou à Colômbia e, embora tenha uma filosofia de jogo distinta a José Pekerman, mantém a base da seleção que disputou a Copa de 2018. O que não significa, porém, que os Cafeteros deixaram de ganhar bons valores. Entre os mais jovens do grupo está Alfredo Morelos. O artilheiro do Rangers tem uma concorrência tremenda no ataque, mas participou de amistosos em 2019 e foi titular. Pode se combinar com Luis Muriel, Duván Zapata e Radamel Falcao García, mantendo o bom nível na linha de frente. Jhon Córdoba, recém-vendido ao Hertha Berlim, é outro novato por ali. Também vale mencionar Steven Alzate, titular do Brighton e com boas aparições neste início de Premier League.

Pervis Estupiñán (Equador)

O Equador prometia uma revolução ao contratar Jordi Cruyff, mas não foi possível manter o treinador após a pandemia e Gustavo Alfaro estreia nas Eliminatórias. A convocação incluiu 30 jogadores e há bons valores surgidos recentemente no futebol local, como o próprio Alan Franco, destaque do Atlético Mineiro no Brasileirão. Mas, neste momento, o jogador equatoriano com maior reputação no exterior é Pervis Estupiñán. O lateral de 22 anos vem de uma excelente temporada com o Osasuna e foi contratado a peso de ouro pelo Villarreal, após rodar por equipes médias da Espanha. Bom no apoio, pode ser uma peça importante a La Tri.

Mathías Villasanti (Paraguai)

O Paraguai se caracterizou ao longo das últimas décadas pelo forte sistema defensivo, ainda que os resultados tenham minguado nos últimos anos. Eduardo Berizzo, que comandou a Albirroja durante a Copa América, permanece no cargo. O técnico tem trabalhado para abrir espaço a novas peças na equipe, sem se apegar tanto aos medalhões. E quem pode ascender é Mathías Villasanti. O meio-campista de 23 anos foi essencial na conquista do último Campeonato Paraguaio com o Cerro Porteño, usando inclusive a braçadeira de capitão. Não esteve na Copa América, mas foi usado nos últimos amistosos e até apareceu como titular. Com boa chegada à frente, pode ser muito útil aos guaranis.

Aldair Rodríguez (Peru)

Ricardo Gareca é o segundo treinador mais longevo do futebol de seleções na América do Sul e mantém sua consideração à geração que levou o Peru de volta ao Mundial após 36 anos. São raros os convocados desta lista que não disputaram as Eliminatórias, mesmo entre os mais jovens. Uma das adições recentes que busca seu espaço é Aldair Rodríguez, atacante de 26 anos. Foi um dos destaques no Binacional campeão peruano em 2019 e até anotou um gol na vitória sobre o São Paulo na Libertadores. Neste mês de setembro, transferiu-se ao América de Cali, mas ainda não estreou. A convocação inédita à seleção principal premia o bom momento, ainda mais diante da ausência de Paolo Guerrero.

Darwin Núñez (Uruguai)

Por anos, o Uruguai se valeu de uma defesa fortíssima e das individualidades no ataque para prevalecer na América do Sul. Atualmente, com o envelhecimento dos principais astros, o meio-campo se torna o setor mais forte. E alguns desses jogadores se fazem presentes desde o ciclo à última Copa, como Rodrigo Bentancur, Federico Valverde e Lucas Torreira. Mas não que falte talento em outros cantos. E o ataque também ganha suas promessas. Maxi Gómez é até veterano na Celeste, mas jogará as Eliminatórias pela primeira vez. Ainda assim, as expectativas se concentram sobre Darwin Núñez. O centroavante de 21 anos marcou gol em sua estreia na equipe de Óscar Tabárez e, após trocar o Almería pelo Benfica, chama mais atenção. Pode ser o parceiro de Luis Suárez, especialmente diante da ausência de Edinson Cavani.

Savarino comemora seu gol contra o Vasco (Pedro Vilela/Getty Images/OneFootball)

Jefferson Savarino (Venezuela)

A Venezuela parecia entrar nas Eliminatórias com chances de classificação, especialmente pela maneira como vinha crescendo sob as ordens de Rafael Dudamel. O treinador deixou o cargo para a efêmera passagem pelo Atlético Mineiro, o presidente da federação faleceu na pandemia e a mudança é total na Vinotinto, agora sob as ordens do português José Peseiro. Ao menos, há uma espinha dorsal de jovens jogadores formada por Wuilker Faríñez, Yangel Herrera e Yeferson Soteldo – Salomón Rondón será um desfalque importante neste início de campanha. E quem pode despontar é Jefferson Savarino, um dos destaques do Galo no Brasileirão. O ponta chegou a ser reserva nas Eliminatórias passadas, mas só virou frequente no time depois disso, inclusive jogando a Copa América. Seu problema é mesmo a concorrência, ainda mais com o bom momento de Darwin Machís no Granada.