Por trás de todo preconceito está a ignorância. O desconhecimento de um grupo ou lugar diferentes tem sua lacuna preenchida por uma preconcepção pejorativa que isenta as pessoas de buscarem conhecimento sobre aquilo que não entendem. Daí, entre tantos motivos, está a importância de se ter pessoas representando grupos minoritários em posições de destaque. No microcosmo do futebol, isso está mais claro do que nunca depois que uma pesquisa conduzida pelo Immigration Policy Lab (Laboratório de Políticas de Imigração, em tradução livre) mostrou como o sucesso de Mohamed Salah coincidiu com um declínio em crimes de ódio e islamofobia em Liverpool.

Pesquisadores da Universidade Stanford e do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique exploraram o destaque de Salah para entender como a exposição a celebridades bem-sucedidas de grupos estigmatizados ajudava a reduzir o preconceito contra esse grupo.

Utilizando observações de 936 crimes de ódio por mês em Merseyside, além de 15 milhões de tuítes de fãs de futebol no Reino Unido e uma pesquisa com 8.060 torcedores do Liverpool, os cientistas descobriram que o condado viu uma queda de 18,9% em crimes de ódio, o que não foi observado para outros tipos de crime.

A pesquisa concluiu também que torcedores do Liverpool diminuíram pela metade suas taxas de tuítes antimuçulmanos (de 7,2% para 3,4% em  tuítes sobre muçulmanos, ou 53,2% menor), diferentemente de torcedores de outros clubes da elite do futebol inglês, alguns dos quais viram o número aumentar depois da chegada do atacante.

Os pesquisadores utilizaram uma variante do método de controle sintético (método estatístico usado para avaliar o efeito de uma intervenção em estudos comparativos) para gerar uma taxa contrafactual de crimes de ódio para o condado de Merseyside, primeiro levando em conta dados de crimes de ódios de 25 departamentos de polícia na Inglaterra entre 2015 e 2018. Assim eles chegaram ao número de 18,9%, em comparação com o que teria acontecido caso ele não tivesse sido contratado.

Mohamed Salah e a sua família na comemoração do título da Champions League (Foto: Getty Images)

Os autores do estudo, que você pode conferir aqui, afirmam que o declínio em crimes de ódio em Merseyside não pode ser atribuído a uma queda mais geral nos crimes, porque há um declínio relativo maior em crimes de ódio do que em qualquer outro tipo de crime.

Além disso, embora não possam precisar exatamente a proporção de islamofobia para os crimes de ódio observados no condado que é casa do Liverpool, dados do Ministério do Interior do Reino Unido mostram que 76% dos crimes de ódio perpetrados de janeiro de 2017 a janeiro de 2018 foram motivados por diferenças religiosas ou raciais, com 52% desses crimes sendo particularmente caracterizados como antimuçulmanos.

Por fim, os pesquisadores concluem, a partir dos números obtidos, que a exposição da população de Liverpool, uma cidade mais branca e menos etnicamente diversa que o restante da Inglaterra e do País de Gales, a Mohamed Salah provavelmente diminuiu a islamofobia ao familiarizar os torcedores com as práticas islâmicas do jogador, uma figura abertamente muçulmana e que tem sua religião como parte importante de sua identidade.

Entre os mais de oito mil torcedores dos Reds pesquisados e familiarizados com as práticas religiosas de Salah, 23% deles disseram que elas eram compatíveis com os valores britânicos, em comparação com a média nacional de 18%.

Mohamed Salah é facilmente uma das principais figuras de um Liverpool que enfim volta ao topo da Europa após amargar longos anos sem uma conquista importante. Tecnicamente, o egípcio capitaneou um time que experimentou uma melhora gradativa e consistente. Diferentemente do que as vozes que tentam calar o diálogo sugerem, ainda bem que futebol se mistura, sim, com outras facetas da sociedade.

Salah e sua comemoração típica (Foto: Getty Images)