Quando são citados pais e filhos que gastaram a bola dentro de campo, Djalma Dias e Djalminha são nomes praticamente certos. O meia não seguiu a posição do pai, um defensor dos bons, mas teve de quem herdar a qualidade técnica. Djalma Dias foi um dos zagueiros mais talentosos que o futebol brasileiro já viu, unindo elegância e imponência. Prova de sua maestria, o veterano foi campeão e ídolo na maioria absoluta dos clubes que defendeu, mesmo vestindo apenas camisas pesadas. Marcou época principalmente na Academia do Palmeiras, participando de grandes glórias com o clube. E, tal qual o filho, é desses craques injustiçados que nunca disputaram uma Copa do Mundo, ficando no quase em três Mundiais. Não é isso que diminui sua trajetória, que merece ser exaltada nesta quarta: se ainda estivesse vivo, Djalma completaria 80 anos.

Carioca, nascido em 21 de agosto de 1939 em família de classe média do bairro Cidade Nova, Djalma quase foi dentista por vontade dos pais, ou engenheiro por vontade própria. Optou pela bola. Levado por Oscar, ex-jogador do America, para o clube tijucano, entrou no time infanto-juvenil em 1956, subindo para os juvenis no ano seguinte, categoria na qual chegaria à Seleção Brasileira. Jogava de centromédio (atual volante) ou meia-armador.

No entanto, quando foi lançado no time de cima no início de 1958 pelo técnico húngaro Gyula Mandi, Djalma foi escalado como lateral. Dentro de pouco tempo e da grande rotatividade no comando do time rubro, já havia atuado em todas as posições da linha de defesa. Até ser fixado como zagueiro central por Jorge Vieira, conquistando de vez a titularidade na temporada de 1960, que acabaria entrando para a história do America.

PERSONAGEM DE UM TÍTULO HISTÓRICO

Usando toda a técnica já demonstrada quando atuava no meio-campo, Djalma Dias tornou-se um zagueiro elegante, classudo, que se recusava a recorrer a botinadas. Foi com esse estilo que liderou a defesa americana na conquista do título carioca, atuando em 21 das 22 partidas de uma campanha surpreendente, que levou um pouco badalado time rubro ao quebrar um jejum de 25 anos e se tornar o primeiro campeão do novo estado da Guanabara.

A equipe de Jorge Vieira só perdeu um jogo (1 a 0 para o Bangu, na quinta rodada), foi campeã batendo o Fluminense por 2 a 1 de virada no último jogo e terminou o torneio com a defesa menos vazada: apenas 15 gols sofridos em 22 partidas. Djalma Dias foi eleito o melhor zagueiro do campeonato e também a revelação do ano. Ganhou destaque até na revista italiana “Il Calcio e Il Ciclismo Ilustrato”, então uma das principais do país.

No ano seguinte, o America não repetiu a grande campanha no Carioca, mas fez bom papel na Taça Brasil, chegando às semifinais. Djalma ficou de fora da primeira fase, quando os rubros não tiveram trabalho para eliminar o Fonseca, de Niterói, campeão do antigo estado do Rio de Janeiro. Mas marcou presença quando o esquadrão rubro eliminou o Cruzeiro, campeão mineiro, e o Palmeiras, então detentor do torneio, antes de cair para o Santos de Pelé.

Djalma foi novamente eleito o melhor zagueiro central do futebol carioca em 1961 e começou a ser cotado para uma vaga na Seleção Brasileira que defenderia o título na Copa do Mundo do Chile, no ano seguinte. Incluído na lista de pré-convocados para o Mundial divulgada em março, o central americano faria sua estreia pelo Brasil no dia 12 de maio, entrando no lugar de Mauro durante a vitória por 3 a 1 sobre o País de Gales no Maracanã.

Porém, na relação final dos convocados, o zagueiro central de 22 anos seria preterido por Bellini e Mauro, ambos com 31 anos e veteranos de 1958. A tristeza com a ausência do Mundial seria logo amenizada com a conquista da International Soccer League, um torneio que reunia clubes da Europa e das Américas organizado por um milionário norte-americano chamado William “Bill” Cox e que já havia sido levantado pelo Bangu dois anos antes.

A competição, também conhecida simplesmente como Torneio de Nova York, foi disputada entre o meio de julho e o início de agosto de 1962 com 12 equipes divididas em dois grupos. O America venceu sua chave de forma invicta, superando Chivas, Palermo, Hajduk Split, Dundee FC e o Reutlingen, da Alemanha Ocidental. E fez a final contra os portugueses do Belenenses, vencendo as duas partidas no estádio da Randall’s Island por 2 a 1 e 1 a 0.

Referência técnica da equipe e cobiçado por diversos clubes cariocas e paulistas, Djalma teve problemas para tentar renovar seu contrato ao voltar de Nova York e entrou em litígio com o America, que chegou a colocar seu passe à venda por um valor inviável. Ficou cerca de um mês fora do time, mas acabou aceitando um novo contrato-tampão apenas até o fim da temporada, recebendo o salário-teto do elenco.

NO PALMEIRAS, A CONSAGRAÇÃO 

Embora não pensasse em deixar Campos Sales, acabaria mudando de ares no início de 1963. Logo no dia 3 de janeiro, o Palmeiras pagaria 29 milhões de cruzeiros pelo jogador, um dos valores de transferências mais altos do futebol brasileiro na época. Sua estreia pelo Alviverde viria em 15 de fevereiro contra o São Paulo em jogo válido pelo Torneio Rio-São Paulo. Djalma entrou no intervalo no lugar de Valdemar Carabina na derrota por 2 a 1.

Em breve, Djalma teria no Parque Antártica a companhia do ponta-esquerda Nilo, contratado do America por indicação sua. Mas enquanto o atacante teria atuações menos frequentes em vista da grande competição pelas posições ofensivas no elenco, o zagueiro se firmaria como titular absoluto e seria um dos destaques do time comandado por Sylvio Pirillo que levantaria o título paulista com folga no fim daquela temporada.

O caneco veio na penúltima rodada com um 3 a 0 sobre o Noroeste no Pacaembu. Ao fim do torneio, com 30 rodadas em pontos corridos, o Alviverde somou 50 pontos contra 44 do São Paulo e 36 do Santos. Teve ainda o segundo melhor ataque (67 gols, dois a menos que o Santos) e a segunda melhor defesa (28 gols sofridos, dois a mais que o São Paulo). E Djalma seria eleito pela Revista do Esporte o melhor zagueiro central do futebol paulista no ano.

Se a temporada de 1964 se revelaria frustrante, com o Palmeiras ficando com o vice no Paulistão (atrás do Santos), o terceiro lugar no Rio-São Paulo (atrás de Santos e Botafogo, que dividiram o título) e caindo nas semifinais da Taça Brasil também diante do time da Vila Belmiro, o ano seguinte traria momentos marcantes para os torcedores alviverdes – e também para Djalma Dias, campeão do Torneio Rio-São Paulo e de volta à Seleção.

A competição interestadual foi extensa, disputada em dois turnos corridos (com dez clubes no primeiro e oito no segundo), com uma final estipulada entre os vencedores dos turnos. Mas o Palmeiras cumpriu campanha irretocável: venceu as duas etapas – somou 12 vitórias, três empates e apenas uma derrota (para o Flamengo no Pacaembu no returno) – e foi campeão direto, dispensando a necessidade de final.

Cada vez mais aclamado como um dos melhores, senão o melhor, da posição no país, Djalma acabaria voltando à Seleção em setembro daquele ano, ainda que num jogo em que seu Palmeiras representou o Brasil, um amistoso contra o Uruguai que inaugurou no Estádio do Mineirão, e que terminou em vitória do escrete “canarinho-alviverde” por 3 a 0. Mas no ano seguinte, a chamada enfim viria em decorrência de seu excelente momento.

Na preparação para a Copa do Mundo de 1966, ele teria lugar certo na enorme lista de 45 nomes chamados pela comissão técnica da CBD. Entraria em campo em três amistosos, todos no Brasil: a vitória de 1 a 0 sobre o País de Gales no Morumbi, a goleada de 4 a 0 sobre o Peru no Mineirão e a vitória de 2 a 1 sobre a Polônia no Maracanã. Cumprindo atuações impecáveis, era nome fortemente cotado para figurar na lista final de 22. 

E, sem falsa modéstia, sabia disso: “Por vários motivos. Primeiro, eu consegui suportar o choque que se sofre quando se é preterido. Segundo, estou jogando num dos grandes clubes de futebol do mundo, conseguindo me manter como titular. Terceiro, cumpri boa campanha no Campeonato Paulista do ano passado. E, quarto e último, acho que chegou a minha vez de provar o mingau depois de comer tanta farinha”, enumerou à Revista do Esporte.

UM CAMPEÃO EM LITÍGIO

Porém, Djalma acabou incluído na última lista de cortes antes do embarque para a Europa. Para a posição de zagueiro central (pelo lado direito do setor), foram levados Bellini e Brito.  Revoltado, acusou a CBD de convocar o veterano Bellini, então com 36 anos e já na descendente da carreira, por “saudosismo”. Na Inglaterra, seu nome – assim como o de seu primo, o lateral-direito Carlos Alberto Torres – seria uma das ausências mais sentidas daquele time.

Passada mais uma frustração com a Seleção, manteve seu jogo em alto nível, ajudando o Palmeiras a levantar outro título paulista no fim daquele ano, mais uma vez de forma antecipada: o time perdeu para o Corinthians por 1 a 0 no dia 11 de dezembro, mas com a derrota do Santos para a Portuguesa pelo mesmo placar no dia seguinte, não poderia mais ser alcançado. Quatro dias depois, já com as faixas, bateu o São Paulo por 3 a 0.

A conquista, com 20 vitórias em 28 jogos e a defesa menos vazada da competição, credenciou o Alviverde ao título do primeiro Torneio Roberto Gomes Pedrosa, no primeiro semestre do ano seguinte. Djalma Dias seguiu como titular absoluto no começo da campanha, até a vitória sobre o Cruzeiro por 3 a 2 no Pacaembu, no começo de abril. Mas tudo mudou quando chegou a hora de conversar sobre a renovação de seu contrato.

Na época, as informações eram as de que Djalma havia pedido um valor acima do teto do clube tanto em salários quanto em luvas. Chegou-se a acusar o Santos de aliciar o jogador. O Palmeiras afastou o zagueiro do elenco e estipulou um preço impagável por seu passe, para inviabilizar sua saída. Anos mais tarde, Djalma afirmaria que o clube queria que ele abrisse mão dos 15% a que teria direito pela antiga lei do passe em caso de transferência.

As tratativas se estenderam sem solução. O Fluminense chegou a fazer proposta pelo empréstimo do zagueiro até o fim de 1968, mas nem mesmo o pedido do presidente da Federação Paulista, Mendonça Falcão, fez o Palmeiras aceitar ceder o jogador. O caso foi parar na Justiça, levando Djalma a ficar quase um ano sem atuar nem receber salários, tendo de vender um apartamento para sustentar a família, que incluía uma filha recém-nascida.

A EXPERIÊNCIA MINEIRA

A solução só veio em fevereiro de 1968, quando o clube paulista acabou negociando o jogador com o Atlético-MG. O desfecho teve ares de reviravolta, depois do Palmeiras ter recusado propostas de vários clubes paulistas e cariocas e também do Cruzeiro. E a contratação foi interpretada como um intuito do clube mineiro de se afirmar como força nacional e fazer frente ao rival, então já destacado no cenário futebolístico do país.

Em contrapartida, o jogador fez exigências altas: hospedagem no melhor hotel de Belo Horizonte e a contratação de uma empregada e um motorista para sua família. Foi o que bastou para entrar na mira da imprensa mineira. Em campo, após sofrer de início com a falta de ritmo em virtude da longa inatividade, Djalma voltou a jogar em alto nível. No entanto, era difícil para o Galo de então se equiparar ao forte time do Cruzeiro.

Mesmo com atuação impecável de Djalma Dias, a Raposa venceu o primeiro clássico do Mineiro e partiu para conquistar o título invicto, com o Atlético tendo de se contentar com o segundo lugar, quatro pontos atrás. Enquanto isso, na Seleção, o zagueiro via um velho filme se repetir, ao ser omitido de modo surpreendente da convocação feita por Aimoré Moreira (treinador do Palmeiras quando de sua briga com o clube) para uma excursão europeia.

Djalma até voltaria a vestir a camisa canarinho pouco tempo depois, quando uma seleção mineira representou o Brasil num amistoso contra a Argentina em agosto e, mais tarde, quando o Atlético trocou sua camisa alvinegra pela amarela para enfrentar a Iugoslávia, em dezembro. Mas o reconhecimento de seu futebol só viria mesmo em fevereiro do ano seguinte, com a chegada de João Saldanha ao comando da Seleção Brasileira.

A “FERA” DE SALDANHA VAI À VILA BELMIRO

Quando o novo treinador anunciou suas “feras”, logo na coletiva de apresentação, Djalma Dias estava entre os titulares. Ainda que fora de posição, na quarta zaga, tendo Brito ao seu lado como beque central, o que valia para o defensor era enfim ter uma chance séria de mostrar seu valor na Seleção. Nos dois primeiros jogos, o time de Saldanha derrotou duas vezes o Peru: 2 a 1 no recém-inaugurado Beira Rio e 3 a 2 no Maracanã.

Dias depois de participar da segunda vitória sobre os peruanos, em meados de abril de 1969, Djalma deixaria o Atlético, enfim realizando um sonho antigo do Santos de tê-lo em seu elenco. Acertada numa negociação que só se concretizou em altas horas da noite, transferência teve desfecho espetacular, com o zagueiro viajando para assinar com o clube paulista durante a madrugada num jatinho fretado.

Djalma Dias entrou no time do Santos – que em seu setor contava com nomes como Ramos Delgado e Joel Camargo – já com o returno do Paulistão em andamento. A equipe vivia fase oscilante, mas arrancou e conseguiu com certa facilidade uma vaga no quadrangular final, tendo a melhor campanha da primeira fase. Na etapa decisiva, o Peixe venceu Corinthians (3 a 1), Palmeiras (3 a 0) e confirmou o título num 0 a 0 com o São Paulo.

A força daquela equipe era inquestionável: em junho, a Seleção com oito jogadores do Santos como titulares – entre eles Djalma Dias – havia derrotado por 2 a 1 a Inglaterra campeã do mundo em amistoso no Maracanã. E três dias depois da conquista estadual, levantara também a o título da Recopa Mundial, ao bater a Inter de Milão por 1 a 0 no San Siro. Enquanto isso, João Saldanha contava com o defensor alvinegro para as Eliminatórias da Copa de 70.

Formando dupla de zaga com seu companheiro de clube Joel Camargo, Djalma Dias foi titular em todos os jogos, nos quais o Brasil passeou: fora de casa, bateu a Colômbia em Bogotá (2 a 0), a Venezuela em Caracas (5 a 0) e o Paraguai em Assunção (3 a 0). Na volta, no Maracanã, fez 6 a 2 nos colombianos, 6 a 0 nos venezuelanos e 1 a 0 nos paraguaios, carimbando o passaporte para o Mundial mexicano. Mas até lá, muita coisa mudaria.

Djalma perderia espaço no time, mesmo antes de Saldanha deixar o comando, em março de 1970. Quando Zagallo assumiu o posto, deixou claro que Brito era o novo titular. O zagueiro santista estava, assim, fora dos planos. Pela terceira vez, esteve tão perto e tão longe de jogar um Mundial pelo Brasil. Mas a frustração não o impediria de se despedir do escrete canarinho com o invejável – e único – retrospecto de 16 vitórias em 16 partidas oficiais disputadas.

Fora da Seleção, ele lideraria um time santista com muitos jovens nos lugares dos titulares convocados na conquista da Taça Cidade de São Paulo, torneio disputado em dois turnos entre as cinco maiores forças do futebol paulista em março e abril de 1970. Seria seu último bom momento no clube. A exemplo de outros jogadores, Djalma se desentendeu com o vice-presidente do clube, Osman Ribeiro de Moura, e deixou o Santos.

Em meados de 1971, voltaria ao futebol carioca, emprestado ao Botafogo para cobrir as ausências de Sebastião Leônidas (seu antigo companheiro de America, que pendurara as chuteiras) e do jovem Osmar Guarnelli (chamado pela Seleção pré-olímpica). Sua experiência se mostraria ainda mais importante quando Brito virou desfalque ao pegar um longo gancho por agredir o árbitro José Aldo Pereira no jogo contra o Vasco pelo Brasileirão.

Suas atuações pelo Alvinegro não chegaram a ser brilhantes como em outros momentos. Já com 32 anos, perdia nitidamente a velocidade. Mas mesmo assim ainda ajudou o Botafogo a chegar ao triangular final do Brasileiro, que acabou conquistado pelo Atlético-MG. Em meados de 1972, após o fim de seu segundo empréstimo ao clube de General Severiano, voltou ao Santos e ganhou passe livre, mas preferiu encerrar a carreira, aos 33 anos.

Após deixar o futebol profissional, teve atividades variadas. Chegou a ser dono de uma oficina mecânica e de uma pequena editora de livros. Mas nunca deixou a bola de lado, jogando suas peladas em equipes de veteranos. Nos anos 80, seria nome certo na Seleção Brasileira de másters comandada por Luciano do Valle, mostrando toda a velha classe e ainda uma ótima forma física, sem nada a dever em relação ao tempo de jogador.

Enquanto isso, seu filho Djalma Feitosa Dias, o Djalminha dava seus primeiros passos na carreira nas categorias de base do Flamengo. Em 1990, o garoto brilharia na conquista da Copa São Paulo de juniores. Mas o pai não teria tempo de assistir ao desenrolar de sua carreira, que também teve passagem marcante pelo Palmeiras: no fim de abril daquele mesmo ano, o ex-zagueiro não resistiria a um AVC repentino, falecendo no dia 1º de maio, aos 50 anos.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.