Megan Rapinoe coroou o seu ano especial com mais um troféu, agora individual. Campeã do mundo com os Estados Unidos, a jogadora levou para casa nesta segunda-feira (23) o prêmio de melhor jogadora do planeta na festa de gala do The Best, da Fifa. E aproveitou a plataforma para fazer um chamado para tornar o futebol um esporte mais igual.

Em seu potente discurso (que você pode ler na íntegra no fim desta publicação), Rapinoe parabenizou Kalidou Koulibaly, do Napoli, e Raheem Sterling, do Manchester City por seu posicionamento na luta contra o racismo no futebol. Ambos foram vítimas de ataques racistas na temporada passada, na Serie A e na Premier League, respectivamente.

A norte-americana foi um dos nomes mais proeminentes do ano no esporte, em um momento em que o futebol feminino alcançou seu ápice em termos de cobertura, atenção e desempenho, com a Copa do Mundo na França. E Rapinoe avisa: “Estamos apenas começando”.

A parte mais contundente de seu discurso veio em seu chamado para que outros jogadores, assim como Sterling, Koulibaly e ela própria, usem o espaço que o esporte lhes dá para promover mudanças importantes na sociedade.

“Peço a todos aqui (…) que emprestem a sua plataforma para outras pessoas. Ergam as outras pessoas. Compartilhem o seu sucesso. Temos uma oportunidade única no futebol, diferente de qualquer outro esporte do mundo, de usar este belo jogo para realmente mudar o mundo para melhor.”

A atuação de Rapinoe no Mundial deste ano, além de contribuir para o título dos Estados Unidos, lhe rendeu os prêmios de melhor jogadora e artilheira da Copa. No ano em que venceu tudo, a jogadora quer fazer ainda mais além das quatro linhas.

“Estou um pouco sem palavras, se é que dá para acreditar. Isso raramente acontece comigo. Antes de mais nada, quero agradecer à minha família. Minha irmã gêmea está aqui comigo hoje. Todos os meus amigos e familiares lá de Redding, em casa. Minha adorável namorada que não pôde estar aqui. Muito obrigada a todos por todo o apoio que me deram durante todos estes anos e especialmente ao longo deste último ano.

Todas as treinadoras que tive durante toda a minha vida, mas particularmente este ano e os últimos dois anos. Nossa equipe técnica, com Jill Ellis e o resto deles, nos colocou em uma posição tremenda para sermos tão bem sucedidas quanto temos sido. Todas as minhas companheiras de equipe que aturam todas as minhas merdas o tempo todo e me deixam ser um pouco selvagem às vezes, mas me deixam em paz quando eu preciso de paz, obrigada a todas elas atualmente e a todas com quem joguei no passado.

Como dizia o Gianni (Infantino), este foi um ano incrível para o futebol feminino. Para aqueles de vocês que estão percebendo isso apenas agora, tudo bem, vocês estão um pouco atrasados para a festa, mas vamos perdoá-los. Estamos apenas começando. Foi realmente incrível. A Federação Francesa de Futebol e a FIFA realizaram uma Copa do Mundo absolutamente fantástica. Fazer parte dela é simplesmente indescritível. O público que tivemos e o entusiasmo, a qualidade em campo, foram incríveis.

Eu disse ao Gianni que ele roubou um pouco do meu discurso, falando sobre todos os problemas, ele tirou uma pequena página da minha cartilha. Mas eu ia dizer algumas das histórias que mais me inspiraram neste ano: Raheem Sterling e (Kalidou) Koulibaly, seus desempenhos incríveis no campo, mas a maneira como eles enfrentaram o racismo nojento que eles têm que enfrentar, não só neste ano, mas provavelmente por toda a vida deles.

A jovem iraniana que acabou se incendiando porque não conseguiu ir ao jogo. O único jogador da MLS abertamente gay, o sr. (Collin) Martin, e as incontáveis outras jogadoras LGBTQ que lutam tão duro todos os dias para, primeiro, apenas praticarem o esporte que amam, mas, segundo, também para combater a homofobia desenfreada que temos. Essas são todas as histórias que me inspiram tanto, mas que também me deixam um pouco triste e um pouco decepcionada.

Sinto que, se realmente quisermos ter uma mudança significativa, o que acho que é mais inspirador seria se todos, mais do que Raheem Sterling, Koulibaly, ficassem tão indignados com o racismo como eles. Se todos os outros fossem assim. Se todos estivessem tão indignados com a homofobia quanto os jogadores LGBTQ. Se todo mundo estivesse tão indignado com a igualdade de remuneração ou a falta dela ou a falta de investimento no esporte feminino além das mulheres, isso seria a coisa mais inspiradora para mim. Sinto que esse é o meu pedido a todos. Temos uma oportunidade incrível de sermos jogadores profissionais de futebol. Temos tanto sucesso, financeiro e outros, que temos plataformas incríveis.

Peço a todos aqui – porque acho que todos neste salão provavelmente têm uma coroa que carregam – para que emprestem a sua plataforma para outras pessoas. Ergam as outras pessoas. Compartilhem o seu sucesso. Temos uma oportunidade única no futebol, diferente de qualquer outro esporte do mundo, de usar este belo jogo para realmente mudar o mundo para melhor.

Então, essa é a minha cobrança a todos. Espero que vocês levem isso a sério e façam alguma coisa. Façam qualquer coisa. Temos um poder incrível neste salão. Muito obrigado. É uma grande honra.”