Fedato. Jairo. Tóbi. Lela. Rafael Cammarota (mesmo com a passagem pelo arquirrival Atlético-PR). Pachequinho. Alex. Ídolos sobram na história do Coritiba Foot-Ball Club. Mas havia um deles que tinha lugar ainda mais especial na constelação coxa-branca – não só pelo que jogou em campo, mas por ter superado um enorme drama pessoal para seguir a sua história de amor ao time do Alto da Glória. E nesta quinta, Dirceu Krüger, destaque entre destaques na história do Coxa, respeitado pelos paranaenses, deixa a torcida alviverde chorando com sua morte, aos 74 anos, vítima de um problema intestinal.

Mesmo com um nome evocando a ascendência alemã, Krüger nasceu mesmo foi num bairro conhecido pela colônia polonesa em Curitiba: a Barreirinha. Foi lá que começou a jogar – primeiro, no Combate Barreirinha, conhecido time amador curitibano, e depois no União Ahú. Já chamando atenção pela velocidade com que pegava a bola no meio-campo e criava as jogadas de ataque, o jovem loiro foi enfim ser um profissional, contratado em 1963 pelo Britânia (clube que se fundiria com Palestra Itália e Ferroviário, em 1971, para formar o Colorado – que, por sua vez, se fundiria com o Pinheiros para originar o atual Paraná Clube).

Mas foi após três anos de Britânia que Dirceu Krüger encontrou seu amor eterno futebolístico. E também foi encontrado pela torcida que o adotou: em 1966, já nome conhecido no futebol paranaense, Dirceu foi trazido pelo Coritiba, estreando numa partida contra o Grêmio – e já marcando gol. Seria ele o símbolo do começo de uma grande fase da história do Coxa, partindo do bicampeonato paranaense em 1968 e 1969. Tendo justamente Krüger como destaque. Cada vez mais veloz na criação de jogadas, não raro chegando para finalizá-las, o jovem fez por merecer o apelido com o qual será sempre conhecido na antologia do futebol do estado das araucárias: “Flecha Loira”.

Naquele fim de década de 1960, Krüger se destinava a simbolizar uma era na história do Coritiba. Conseguiu ser isso. Mas de maneira muito mais dolorosa do que se podia supor.

Símbolo, de uma nova maneira

Sábado, 11 de abril de 1970, primeira fase do Campeonato Paranaense. O Coritiba enfrentava o Água Verde. Krüger tinha todos os motivos para ter uma ótima atuação: além de se destacar na campanha coxa-branca, ainda completava 25 anos de idade justamente naquele dia. Mas todos os motivos de eventual celebração se acabaram logo aos nove minutos do primeiro tempo daquela partida.

Após um cruzamento para a área, a “Flecha Loira” se chocou com o goleiro Leopoldo, do Água Verde. No choque acidental, o joelho de Leopoldo atingiu a barriga de Krüger em cheio. Na hora, o atacante caiu no gramado, se contorcendo de dor. Lubian, massagista do Coritiba, foi fazer os primeiros socorros até que o médico entrasse, visse que a situação era mais dramática e pedisse aos jogadores que o ajudassem a carregar o atacante até o vestiário. Só restou ao técnico do Coritiba, Filpo Núñez, pedir que o reserva Joaquim se aquecesse para entrar. Depois, um funcionário do estádio Belfort Duarte (o atual Couto Pereira) pediu ainda que uma ambulância levasse Krüger até o hospital.

Tudo isso aconteceu. E só então, com Krüger já internado no Hospital Cajuru, se soube o que aquele choque acidental com Leopoldo lhe causara. “Ruptura traumática no mesentério, nas alças intestinais e no cólon, com hemorragias internas”, era o que dizia o boletim médico assinado pelos médicos Nunes Nassif, Idanil Carpin e Luis Roberto Vialle. Claro, o atacante foi imediatamente para a mesa de cirurgia, numa operação de três horas. Nos primeiros dias, seu estado de saúde seguia gravíssimo. A situação era dramática a ponto de um padre ter lhe concedido a extrema-unção, geralmente dada a pacientes terminais.

Mas se a principal qualidade do atacante em campo era a velocidade, fora de campo Krüger mostrou uma tremenda força. Saiu do coma. Foi se recuperando aos poucos. Já se pensava que poderia ser ourives, a profissão que vinha seguindo antes que a carreira no futebol embalasse. Mas a “Flecha Loira”, internada no quarto 414 do Hospital Cajuru, ainda sonhava em poder acertar os alvos adversários.

A alta recebida no final de 1970 já era algo impressionante, diante do que o choque causara em Krüger. Mas a história só continuaria quando, um dia, ele quis ir ao Belfort Duarte/Couto Pereira. Seus companheiros treinavam. Uma bola ficou perto do loiro, ele a chutou forte para o gol e prometeu: “Eu vou voltar. Eu juro”. Juramento cumprido quando o técnico Mauro Ramos de Oliveira incluiu inesperadamente Krüger na lista de relacionados para uma excursão do Coritiba à Europa. Ele foi. E em 25 de novembro de 1970, sete meses e 14 dias após o choque que quase acabou com sua vida, Dirceu Krüger voltou a balançar as redes pelo clube em que fazia história, num amistoso contra o Pitesti, da Romênia.

A partir dali, Krüger nem precisava ser o destaque, como antes da internação, para ser tratado como o grande bibelô da torcida coxa-branca. Titular ou não, ele efetivamente fez parte de um grande momento da história do Glorioso, como prometia: jogou no pentacampeonato paranaense ganho entre 1971 e 1975, além do título do Torneio do Povo (competição amistosa entre os clubes brasileiros de maior torcida em seus estados), em 1973. Mais do que os títulos, a superação do momento dificílimo transformara a relação entre Krüger e os adeptos em eterna. Era o principal prêmio de que ele podia se orgulhar em 1975, quando decidiu encerrar a carreira, após 252 jogos e 58 gols vestindo verde e branco.

O melhor é que a história não parou por aí. Fora de campo, o Coritiba continuou aproveitando o simbolismo da história de Krüger. Trabalhando nas categorias de base, o loiro da Barreirinha pôde ensinar a vários novatos o valor que era ser um jogador do Coritiba Foot-Ball Club – o mais importante deles chegou ao Coxa em 1990, aos 13 anos, vindo do Colombo, na região metropolitana curitibana, para se juntar a Krüger na idolatria dos coxas: Alex. Mas não era só isso. Sempre que o Coritiba precisasse, Krüger estava lá para a comissão técnica. Como auxiliar: assim ele esteve ao lado do técnico Ênio Andrade, no título brasileiro de 1985. E como técnico, papel que exerceu vez por outra no time, entre 1985 e 1999).

Claro que uma relação tão consolidada recebia seus prêmios. Uns, institucionais, como a vaga no Conselho Deliberativo do Coritiba ou mesmo ter seu nome dado ao estádio destinado aos jogos dos times de base. Outros, mais valiosos, por serem frutos do amor da torcida. Como a estátua na frente do Couto Pereira, inaugurada em 2016 após mobilização dos coxas-brancas para custearem a obra, que rendeu uma frase de Krüger, consciente e grato ao mesmo tempo quando falou ao jornal “Tribuna do Paraná”, no dia da inauguração da estátua, em 24 de fevereiro de 2016: “Não posso dizer que fiquei surpreso, mas fiquei emocionado. Desde que cheguei hoje cedo fui cumprimentado pelos diretores, funcionários e atletas. Só lembro de outras duas homenagens tão grandes assim, quando inauguraram o Espaço Dirceu Krüger (alojamento das categorias de base) e quando dei uma volta olímpica na qual fui aplaudido até pela torcida do Atlético”. Aplaudido e respeitado: afinal, coube à “Flecha Loira” entregar justamente aos rubro-negros a taça que levava seu nome, dada ao campeão do segundo turno do Campeonato Paranaense neste ano.

Os 53 anos de dedicação ininterrupta ao Coritiba tiveram um fim nesta quinta, após complicações oriundas de uma cirurgia intestinal por que passara em 13 de abril, 49 anos e dois dias após aquele choque na partida entre Coritiba e Água Verde. Mas mesmo que chore, durante o velório no espaço Belfort Duarte (dentro do Couto Pereira), mesmo que lamente ver o Coritiba num momento duro de sua existência (ainda na Série B), o torcedor coxa-branca terá suas lágrimas carregadas de orgulho, por poder demonstrar o tamanho do amor e da gratidão que sentiu por Dirceu Krüger.