O gol de falta marcado por Rubén José Suñé possui ares míticos aos torcedores do Boca Juniors há mais de quatro décadas. E a veneração não se dá apenas porque o chute indefensável sacramentou o título do Torneio Nacional em 1976, na única final da história do Campeonato Argentino decidida contra o River Plate. A lenda prevalecia, afinal, porque somente as testemunhas da época haviam assistido a tal gol. Por mais que o superclássico tenha sido transmitido ao vivo na televisão, sua fita de gravação simplesmente desaparecera. Foram quase 43 anos em que a beleza do arremate esteve limitada à oralidade. Até que, tal qual um milagre, as imagens do “gol fantasma” fossem reexibidas nesta quinta-feira pelo próprio Boca.

O sumiço do gol de Suñé provocou diversas teorias conspiratórias. Uma das mais difundidas é que, em tempos de ditadura, um censor torcedor do River Plate mandou cortar e queimar aquele pedaço do filme. Também há versões sobre incêndios nos arquivos das TV’s. Fato é que nunca se soube qual o paradeiro das imagens. Encontrar o vídeo do tento anotado no Cilindro de Avellaneda parecia uma busca pelo Santo Graal aos torcedores do Boca Juniors. Os raros registros visuais estavam restritos a fotografias, ainda que a história do lance permanecesse vivíssima – e não só por sua importância, como também pela anedota que o ronda.

O gol aconteceu aos 27 do segundo tempo, no jogo único da superfinal. Em uma falta a dez metros da grande área, Suñé se preparava à cobrança. Então, se valeu de uma recomendação dada pelo árbitro antes da partida, e aceita pelos capitães, de que não era necessário o apito para que a cobrança fosse autorizada. O dono da braçadeira xeneize fez as palavras valerem e, enquanto Ubaldo Fillol armava a barreira, soltou o pé num chute perfeito. Impotente, o goleiro da seleção só viu a bola entrando na gaveta. O lance causa controvérsia entre os torcedores do River, mas é fato que os jogadores do clube nem reclamaram da artimanha. O próprio Fillol admitiria a Suñé que não defenderia nem mesmo se estivesse bem posicionado.

Todavia, reconstruir o gol desde então dependia basicamente de um esforço da memória ou de um exercício da imaginação. Não existiam imagens originais que apresentassem exatamente como foi o lance. Os responsáveis pelo achado foram os membros da Subcomissão de História do Departamento de Cultura do Boca Juniors. A busca encabeçada pelo órgão se iniciou em 2012, tentando encontrar pistas de alguém que ainda possuísse o filme.

Infelizmente, o caminho para a descoberta envolveu a própria morte de Suñé, aos 72 anos. Dias depois da triste notícia, em junho, um morador da cidade de Entre Ríos procurou o museu do Boca dizendo que tinha a gravação do gol do capitão. Não era a primeira vez que alguém afirmava isso e, em todas as outras, o alarme foi falso. Mas, através do celular, o colecionador exibiu a fotografia de trechos do filme, em que claramente era possível identificar o lance em Avellaneda.

O trabalho estava distante de se completar, porém. O sujeito desejava vender as imagens. Foram cerca de dois meses de negociação, até que as mãos se apertassem em agosto, com os membros da Subcomissão pagando do próprio bolso. Além disso, havia um processo delicado de digitalização. O gol estava em um filme de oito milímetros e os funcionários do Departamento de Cultura precisaram encontrar um aparelho adequado. Como era uma fita complexa, acharam um projetor especial no interior. E justamente quando rodavam o filme, a máquina quebrou. Os xeneizes também precisaram buscar a peça adequada para o conserto, outra missão difícil.

Três meses depois do esforço, a conversão final do vídeo dependia de uma pessoa de confiança. Os funcionários do Boca Juniors temiam que o gol vazasse e pudesse chegar ao público antes que o clube realmente o divulgasse. Apenas seis membros da Subcomissão sabiam, de fato, sobre o tesouro encontrado. Quem fez o serviço de digitalização foi uma pessoa ligada à entidade. Até que, enfim, o trabalho se tornasse completo na última semana. Os dirigentes foram os primeiros a assistir, incluindo o presidente Daniel Angelici. Tinham o poder sobre quando apresentar a cena histórica, o que aconteceu nesta quinta-feira. Cinco meses depois, o gol foi exibido no museu do Boca e o clube também o apresentou nas redes sociais.

“Estamos todos muito satisfeitos. Eu fui ao estádio naquele dia, com 16 anos. Tínhamos muita gana de investigar e de conseguir outras coisas”, contou Sergio Brignardello, um dos integrantes da Subcomissão, em entrevista ao Olé. Segundo o funcionário, seu grupo estava disposto a visitar a TV Pública e ver todas as fitas, inclusive as que tinham descrições diferentes ou outras datas. Era comum que os canais da época gravassem outros conteúdos em cima dos originais, antes que os filmes fossem arquivados. Era uma possibilidade de descobrir o paradeiro do gol perdido. Ao menos, não precisarão de tamanho esforço.

A grande tristeza dessa história é que o próprio Suñé não pôde rever o lance antes de falecer. Segundo Brignardello, El Chapa indicava certa tristeza pelo sumiço da fita e colocava a culpa na ditadura – inclusive em um funcionário do alto escalão na organização do Mundial de 1978, que era torcedor do River Plate. Tal suspeita nunca se provará, mas foi possível reencontrar o tento por outro caminho. Através da pintura, a própria memória de Suñé se preserva. O capitão continuará vivo por mais tempo nas lembranças dos torcedores, graças às imagens de sua cobrança de falta na gaveta de Fillol. O golaço é real.