O Flamengo confirmou a contratação de Domènec Torrent como seu novo treinador. O espanhol de 58 anos vinha em negociação com os rubro-negros durante os últimos dias e já era dado como nome certo no clube, especialmente após a ida de Carlos Carvalhal ao Braga. Antigo braço direito de Pep Guardiola em diferentes momentos da carreira, Torrent possui um currículo breve como comandante principal, mas acumula experiências em grandes clubes e traz uma ideia de jogo ofensivo. Sua filosofia tende a diferir um pouco da aplicada por Jorge Jesus, mas chega como um nome para satisfazer os flamenguistas – tanto pela grife quanto por aquilo que deve se propor. Precisará fazer valer a confiança em campo, com a base deixada pelo português.

Diante das opções no mercado, estava claro que o Flamengo buscaria um treinador estrangeiro – mais especificamente, europeu. As principais opções cogitadas pela diretoria estavam no continente e os rubro-negros merecem créditos pela maneira como conduziram o processo, sem afobação, entrevistando os alvos. Desde a saída de Jorge Jesus, estava claro que o Fla não encontraria um técnico com a bagagem do Mister e sua personalidade. Dentro das condições, teria que ver um nome que não completaria todas as virtudes do antecessor e que fugiria um pouco do óbvio. Mas, diante daquilo que se tinha em vista na Gávea, o espanhol satisfaz.

Torrent não esteve diante das câmeras, mas experimentou o melhor que há no futebol europeu. Tornou-se o auxiliar de Guardiola ainda no Barcelona B e acompanhou o compatriota em todo o sucesso na equipe principal dos blaugranas. Também esteve no Bayern de Munique e seguiu ao Manchester City, até 2018, antes de buscar seu voo solo no New York City FC. Sabe como se relacionar com um grupo cheio de estrelas, suscita respeito por seu histórico e possui uma base teórica inquestionável para ajeitar a equipe. Mas não era ele quem tomava as decisões principais e lidava com as pressões por todas as cobranças.

No Flamengo, essa exposição é muito maior do que tudo aquilo que Torrent já lidou pessoalmente ao longo de sua trajetória. Jorge Jesus equilibrou bem seus afazeres no campo com a imagem pública. Pegou um time pressionado pela falta de resultados e pelos fracassos na Libertadores, bem como resistiu a certas desconfianças iniciais. Preparado à missão, conduziu o Fla até que os resultados falassem por si e consolidassem sua postura. O desafio ao substituto é diferente. Terá a responsabilidade de pelo menos se aproximar do que aconteceu em 2019, com um título que corresponda às expectativas. E as coisas na Gávea costumam acontecer rápido, pelo bem e pelo mal, com toda a atenção da mídia e a dimensão da torcida.

Torrent pega uma base já formada e um elenco completo, sem muitas dúvidas o melhor do país. A gestão das rotações é um ponto fundamental, tanto pela questão da concorrência interna quanto pela maratona de jogos que o clube tende a enfrentar com o calendário gerado pela pandemia. Não vai dar para escalar sempre os titulares como fazia Jesus, mas também existem opções bem mais confiáveis agora para realizar as mudanças pontuais e lidar com o desgaste – sabendo que cobranças também virão com os deslizes.

Além disso, a própria maneira de jogar interessa bastante. O Flamengo de Jorge Jesus apresentava um futebol fluído, com muitas trocas de posições e os jogadores se aproveitando de sua capacidade física para criar superioridade numérica no setor da bola. O estilo agressivo e bastante vertical dos rubro-negros dependia disso. Torrent tende a manter uma proposta de ter iniciativa, mas rezando por outra cartilha. Ao lado de Guardiola, o assistente ajudava a moldar equipes em que os jogadores se interferiam menos nos espaços ocupados dentro de campo (dentro do chamado ‘Jogo de Posição’) e trabalhavam os passes com velocidade, mas sem assumir tantos riscos e deslocando as peças a um determinado setor como o Fla de Jesus. Em suma, há uma estrutura de organização mais clara neste conceito de Torrent, na mesma ideia de escapar da marcação e criar as linhas de passes nos espaços vazios.

Torrent pode exigir outras aptidões de seus atletas, dependendo da posição. Mas, claro, há outros pontos de congruência com Jorge Jesus – como a movimentação exigida dos atacantes ou a pressão para recuperar a posse no campo de ataque. Será essencial a maneira como o espanhol imprimirá a sua marca, mas sem necessariamente desmontar o que se construiu com Jesus. Além disso, seu trabalho como treinador principal possui uma grande variação entre sistemas táticos para se adaptar às ocasiões. Seu esquema principal no New York City era o 4-3-3, mas ele não se prendia a isso e muitas vezes atuava com três homens atrás.

“Penso que minha principal característica, igual a Pep, é sair para ganhar em todos os jogos. Meus times jogam da mesma maneira fora e em casa. Temos 99% das mesmas ideias. O estilo é muito parecido: sempre jogando de trás, com dois toques, transições rápidas. Eu já acreditava nisso antes de me juntar a Pep. Antes de ser assistente, treinei equipes por 15 anos e minha ideia se reforçou ainda mais porque aprendi muito. Agora, para mim, é quase impossível treinar um time e pensar que você pode jogar melhor do que quando é protagonista, sabendo o que fazer”, afirmou o próprio Torrent, em entrevista ao site The Athletic, no início de junho.

Torrent treinou equipes das divisões de acesso da Espanha, incluindo o Girona, antes de chegar ao Barça B como assistente. Depois, deixou o Manchester City para assumir outro clube dos xeiques, o New York City FC. Permaneceu por pouco mais de uma temporada à frente dos celestes, com 56% de aproveitamento dos pontos. Teve uma média alta de gols, 104 anotados em 60 jogos, apesar dos 76 sofridos. Mas é preciso ponderar também que assumiu uma equipe relativamente recente, que não figurava entre as potências da MLS – apesar de alguns jogadores mais renomados. Exibiu um futebol imponente e de pressão, que emplacou principalmente em seu ano completo.

Em 2018, Torrent assumiu o New York no meio da MLS, ao substituir Patrick Vieira. Teve bons resultados nos dois primeiros meses e terminou a Conferência Leste em terceiro, mas caiu para o Atlanta United nas semifinais regionais dos playoffs. Já em 2019, o espanhol manteve a ascensão e sobrou no Leste, com a inédita primeira colocação aos celestes e a classificação à Concachampions. O problema veio nos mata-matas: em jogo único, os favoritos caíram logo de cara contra o Toronto FC. Ao final do ano, clube e treinador prefiram seguir caminhos separados. Em declaração dada meses depois, o espanhol revelou que preferiu sair porque sentiu que não poderia mudar algumas coisas internas, com problemas em determinados departamentos. Mas o trabalho como um todo foi positivo, sem rusgas.

“Existiam muitas dúvidas quando cheguei a Nova York, porque David Villa havia saído. Portanto, não foi fácil, mas acho que conseguimos formar um time muito bom e conseguimos pela primeira vez ganhar a Conferência Leste. O que funcionou, acima de tudo, foi a maneira de jogar. Para mim, foi o mais importante. Não íamos apenas para vencer, mas para criar um estilo de jogo e empolgar a torcida. Acho que fizemos isso. Jogamos com sistemas táticos diferentes, mas o estilo sempre foi o mesmo. Seja com três ou quatro atrás, sempre aproveitamos os lados do campo, jogando rápido, com dois ou três toques no máximo, passando a bola e atacando com velocidade. Essa foi minha ideia em Nova York e isso que farei como técnico no futuro”, comentou Torrent, ao site The Athletic.

A passagem pela MLS não deve servir de rótulo a Torrent, mas foi um bom indício. Todavia, é uma realidade totalmente distinta em relação àquela que encontrará no Flamengo, tanto pelo entorno do clube quanto pelo potencial do elenco. E cabe lembrar como os jogadores serão importantes neste momento de transição dos rubro-negros. Eles também devem compartilhar responsabilidades e aparecer mais em público, quando a tarimba do espanhol não é a mesma de Jorge Jesus. Quem já tem feito isso é Rafinha, velho conhecido do ex-assistente de Guardiola. Ambos trabalharam no Bayern e Torrent até mesmo auxiliou o brasileiro, já que foi ele quem sugeriu o deslocamento de Philipp Lahm à cabeça de área dos bávaros.

“Foram três anos em que trabalhamos juntos no Bayern, depois ele foi para o City com o Pep. É aquela história, ele é da escola do Cruyff, né? É um cara que sabe tudo e mais um pouco de bola. No Bayern, os treinamentos quem dava era ele, o Guardiola ficava só corrigindo. É um cara que dispensa comentários, eu conheço bem e posso falar com propriedade porque é um cara com quem trabalhei. Ele fez muita gente no Bayern crescer”, declarou Rafinha, ao Resenha ESPN.

Ao lado de Guardiola, Torrent participava ativamente das análises prévias dos adversários e da preparação da equipe. Durante os treinamentos, tinha responsabilidade especial com as jogadas de bola parada e ao detalhar individualmente os conceitos do técnico principal que os atletas não captavam tão bem. Ajudava também com os dados obtidos durante a partida, de olho no iPad, e os repassava a Guardiola com suas opiniões. E possuía sua capacidade de observar jogadores, trabalhando concomitantemente como scout no Barça B. Já no trato cotidiano, teria uma postura mais ponderada, diferente da intensidade de Guardiola – como descrito no livro Pep Confidencial, de Martí Perarnau.

“Como jogador, trabalhar com Pep permite duas coisas: melhorar em campo e ganhar títulos. Você vai melhorar, mas isso não é grátis. Você tem que ser intenso, concentrado, focado, preparado. Essa é a chave para os melhores times, e outra coisa que vejo da mesma maneira que Pep. Sou muito exigente, como ele. Fico em cima dos jogadores. Quero que eles atinjam 100% a cada treino e, às vezes, alguns não gostam desse nível de intensidade. Não é físico, mas psicológico – dar 100% durante todo o tempo”, comentou Torrent, ao The Athletic.

“Há jogadores que se satisfazem em três anos. Querem relaxar, ganhar dinheiro em um clube com menos demandas. Mas acho que os melhores, os verdadeiros campeões, nunca se cansam de ganhar e aprender. Para mim, a melhor maneira de evitar esses problemas é mudar dois ou três jogadores todos os anos, é a maneira mais fácil para um técnico. A chave para mim é que, se você vê um jogador que não está feliz, precisa tirá-lo, não importa quem seja. Como técnico, você percebe quando o jogador se cansa da mensagem. E se fica cada vez mais difícil de transmitir a mensagem ou se soa repetitiva, é quando você considera terminar o trabalho”, complementou o espanhol.

O fato de esboçar o português logo em sua primeira entrevista e de ter trabalhado com diversos jogadores brasileiros (além de outros craques de diferentes cantos) pesa a Torrent. É ver como seus novos comandados compram a ideia e atendem suas demandas, sem perder o fio da meada. Não há uma fórmula matemática para vencer no futebol e base teórica ou experiência não são garantias de sucesso. De qualquer maneira, por tudo aquilo que tinha em vista, o Flamengo parece ter feito uma boa escolha. Boa escolha que só poderá se confirmar mesmo em campo.

Torrent, ao menos, já vinha declarando sua autoconfiança desde antes do contrato com o Flamengo – como falou ao The Athletic em junho: “Neste momento, quero ser treinador porque me saí bem no New York e acho que posso me sair bem para onde vá. Isso se deve à minha experiência, porque quase sempre as coisas saíram bem quando fui treinador e aprendi muito com o melhor do mundo. Há técnicos que assistem aos treinos de Pep por uma semana e parecem que passaram 20 anos com ele. Eu estive com ele por 11 anos. Tenho muito orgulho, sou muito agradecido e aprendi muito. Se há um problema tático, acho que vou resolver rapidamente, porque trabalhamos em muitas coisas táticas diferentes com Pep. É por isso que estou convencido que posso me sair bem e estou animado para voltar à beira do campo”.

Se o ânimo contagiará também a torcida do Flamengo, a resposta virá a partir do início do Campeonato Brasileiro na próxima semana. O tempo de trabalho é bastante curto entre o primeiro contato de Torrent com o elenco e o início da competição, o que garante pouca margem de manobra a mudanças drásticas. Jorge Jesus foi fantástico exatamente porque conseguiu isso, ajudado um pouco mais pela pausa da Copa América, mas também precisando adaptar peças e assumir campanhas já iniciadas. Domènec Torrent começa a escrever uma nova história, e o que os flamenguistas mais querem é que o gabarito do espanhol sirva para novas alegrias – sem perder o funcionamento do time e a gana dos jogadores.