O torcedor brasileiro no início dos anos 2000 tinha um medo genuíno. Tal como em um livro de terror, ler que o Boca Juniors seria o próximo adversário arrepiava as espinhas. A condução da história o levava a se deixar levar por aquele sentimento de vazio, e quando se percebia, um monstro gigantesco de azul e amarelo surgia imponente, quase como o Cthulhu, a aterrorizante entidade dos livros de HP Lovecraft. O autor dessa história era tão criativo quanto o escritor norte-americano, mas com uma diferença: sua magia se fazia real. Era Carlos Bianchi quem ditava os rumos do destino no futebol sul-americano do início do século. Essa é a lembrança mais fresca que nós, brasileiros, temos do técnico argentino. Mas no dia em que o “mago” completa 70 anos, lembramos não apenas de seu reinado como técnico, mas também seu faro goleador que atravessou o Atlântico.

Nascido em 1949, em Buenos Aires, Carlos Bianchi é daqueles homens que você acredita que sempre foram carecas. Sem cabelo, quase todos nós nascemos, mas a imagem de Bianchi sempre foi muito marcada pela calvície aparente e as madeixas encaracoladas na parte de trás. Quando estreou pelo profissional do Vélez Sarsfield em 1967 aos 18 anos, ainda havia algo para pentear. É possível teorizar sobre a condição de Bianchi. Talvez fosse uma promessa. Quanto mais gols marcasse, mais cabelos perderia. Porque o que se viu dali em diante foi a construção de um dos maiores goleadores da história do futebol mundial.

No ano seguinte à sua estreia, Bianchi, que era chamado de Carlitos, ainda não era o matador que viria a ser, mas esteve no elenco que conquistou o primeiro título argentino da história do Vélez, e marcou 7 gols. Quem liderava o ataque em El Fortín era Omar Wehbe, autor de 16 gols naquele campeonato. Aos poucos foi ganhando mais chances e ao lado de Wehbe os gols se multiplicaram, principalmente para Bianchi. Em 1970 foi o artilheiro do Torneo Nacional, e no ano seguinte do Metropolitano. Ainda em 70, após o mundial do México, foi convocado para a seleção argentina pela primeira vez, mas na albiceleste acabou tendo carreira curta, principalmente após sua ida ao futebol francês, em 1973, depois de ter marcado mais de uma centena de gols pelo Vélez.

Na França, foi contratado pelo Stade Reims para substituir um outro argentino, tão goleador quanto Bianchi, e também pouco conhecido do grande público: Delio Onnis, até hoje o maior artilheiro da história da Ligue 1. Onnis havia sido negociado com o Monaco, e criou-se uma disputa entre os dois pelas artilharias no futebol francês. Logo na primeira temporada em solo europeu, Carlos Bianchi foi o artilheiro, com 30 gols. Na temporada seguinte, uma lesão o tirou de mais da metade do campeonato, mas ainda assim teve média de quase 1 gol por jogo. Em 76 e 77, foi novamente o artilheiro máximo do país, com 34 e 28 gols, respectivamente. Mas coletivamente, o Reims conseguiu no máximo um 5º lugar, em 75/76.

Em 77 se mudou para o Paris Saint-Germain, fundado há menos de uma década. Foram duas temporadas na capital francesa e mais duas artilharias para a conta, com 37 e 27 gols, mas o clube sequer conseguiu ficar na metade de cima da classificação. O que sobrou de gols a Bianchi faltou em títulos, até mesmo individuais. Por vezes ficou perto de ganhar a Chuteira de Ouro, mas foi sempre superado por alguns poucos gols. É bem verdade, que se fosse no formato atual, em que gols de determinadas ligas valem mais, o argentino teria faturado algumas chuteira para sua estante. Em 1979/80, Bianchi foi contratado pelo atual campeão, o Strasbourg, que disputou a Liga dos Campeões. Na única vez que pôde participar do torneio, Bianchi marcou um hat-trick contra o Start da Noruega, algo que só Alfredo Di Stéfano, entre os argentinos, já havia realizado.

Depois de uma Ligue 1 discreta, com apenas 11 gols, Bianchi decidiu voltar à Argentina, para novamente defender as cores do Vélez Sarsfield, conquistando novas artilharias, mas sem levantar troféus de campeão. Depois de cinco anos em Liniers, fez sua temporada de despedida no Stade Reims. Foram quase 20 anos de carreira, totalizando 385 gols, apenas em campeonatos nacionais, 206 na Argentina e 179 na França. “Eu tinha um faro, sabia onde a bola ia cair. Ser goleador era minha vida”.

Não houve nem tempo de o gramado sentir saudades dos gols de Bianchi. Mal pendurou as chuteiras e o argentino já iniciou a carreira de treinador, no Reims mesmo. Não conseguiu tirar o time da segunda divisão, mas ali já demonstrou seu poder para o mata-mata, chegando por duas vezes às semifinais da Copa da França. Ainda passou pelo Nice e pelo PSG sem sucesso. Até receber um chamado para voltar às origens. No Vélez a partir de 1993, Bianchi teve as chaves do clube para fazer o que bem entendesse. Ciente das limitações da equipe, buscou nas categorias de base a maior parte da espinha dorsal que dominaria o futebol argentino no início dos anos 90. Mesclado com veteranos como José Basualdo e Luis Chilavert, Bianchi levou ao Vélez a um título que não via justamente desde quando o então treinador começava sua carreira como artilheiro. Com apenas três pontos a mais que o Independiente, El Fortín podia comemorar novamente como o troféu do Clausura de 93.

Daí em diante, o Virrey, como passou a ser chamado, engatou uma sequência de títulos, primeiramente levando a Libertadores de 1994, nascendo aí a fama de carrasco de brasileiros. Na fase de grupos passou como líder em um grupo com Palmeiras e Cruzeiro – além do Boca Juniors, e na final impediu o tricampeonato do São Paulo de Telê Santana. No fim do ano derrotou o histórico Milan de Fabio Capello por 2 a 0 no Mundial de Clubes e foi bicampeão argentino nos anos seguintes. Em 95 conquistou o Apertura e em 96 o Clausura, deixando o clube a quatro jogos do fim. Era hora de voltar à Europa. Carlos Bianchi assumiu a Roma para tentar colocar o clube de volta entre os melhores do país. Mas a passagem foi um verdadeiro fiasco e marcada pela tentativa de se desfazer de um garoto da base romanista: um tal de Francesco Totti.

Depois disso, o mago ficou um tempo sem trabalhar até receber o convite de assumir o Boca Juniors, em 1998. A situação era parecida com a que ele encontrou o Vélez. Mas a diferença era a tradição e a torcida xeneize. Foi então que Bianchi ressignificou seu próprio nome para todo o sempre na história do futebol. Quebrou um longo jejum de título importantes do Boca Juniors conquistando quatro títulos argentinos em três anos. Em 2000, ainda levou a primeira Libertadores, vencendo o Palmeiras na final. No ano seguinte, eliminou Vasco e novamente o Palmeiras até conquistar o bicampeonato sobre o Cruz Azul do México e se tornou no Senhor Libertadores em 2003, trucidando o Santos em pleno Morumbi – tendo uma breve saída em 2002, e voltando nos braços do povo. Neste período ainda ganhou dois outros mundiais, contra Real Madrid (2000) e Milan (2003). Ainda levou outro Apertura, em 2003.

Após deixar o Boca Juniors pela segunda vez, em 2004 depois de ter perdido a Libertadores para o Once Caldas, Bianchi treinou o Atlético de Madrid por apenas 26 jogos até ser demitido. E sem precisar anunciar se aposentou do cargo de treinador. Ainda voltaria para mais uma passagem pelo Boca Juniors entre 2013 e 2014, sem muito sucesso, mas que em nada afetou sua imagem junto à torcida e a todo o futebol sul-americano.