Tim Vickery: A Copa do Mundo mudou. Como a obsessão pelo título transformou a Seleção em um fardo
Vítima do próprio sucesso, talvez o Brasil precise repensar a sua abordagem na Copa
Tem uma outra cultura futebolística capaz de vaiar um jogador como Alisson — especialmente depois de um gol onde não tem a menor culpa, como aconteceu no Maracanã no jogo contra o Panamá? Não dá para imaginar qualquer outro lugar onde uma coisa assim ia acontecer. Como podemos explicar?
Tem muito a ver, obviamente, com um público no mesmo tempo mal acostumado e carregando anos de frustração. A imaginação e expectativas na Seleção são engessadas num mundo de 1958-70, narrado por Nelson Rodrigues — vitória em estilo em consequência de uma superioridade natural sempre que o craque local entra num estado de graça.
Torcida brasileira, entre o sucesso e o fracasso da Seleção
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F06%2Fpele-1958-scaled.jpg)
Quando esse cenário não se repete, como tem sido o caso nas últimas duas décadas — parece que tem alguma coisa errada com natureza, e a única explicação é que os jogadores não estão comprometidos, estão pensando mais em grana que glória e portanto merecendo as vaias.
E também, por causa da importância da Copa do Mundo, o evento atrai um engajamento fanático de muitas pessoas que normalmente não ligam muito para o futebol. Mal assistem a um jogo de Alisson, não tem noçao de como ele é respeitado no mundo inteiro por excelência em alto nivel temporada atras de temporada.
O debate fica pobre — e acho que a imprensa local deveria fazer melhor neste quesito — porque fica excessivamente limitada aos atletas que jogam no Brasil, justamente porque esses são conhecidos por esse público.
A verdade, doa a quem doer, e que no futebol profissional o talento vai seguindo o dinheiro. Portanto, a grande maioria dos melhores está fora, e se o público não os conhece bem, pior para o público. É um debate acalorado que rola desde os dias de Carmen Miranda, mas ainda precisa frisar — ninguém fica menos brasileiro por morar em outro país.
E aquele talento hoje em dia está aparecendo em mais lugares. Não tem a menor comparação com o mundo da Copa do Mundo de 1970. Viu a estreia da Costa de Marfim, com Yan Diomandé criando grandes problemas para uma das melhores defesas na Copa? Ou o desempenho extraordinário do jovem Bouaddi, o rei do meio campo para Marrocos contra o Brasil?
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
O futebol de seleções mudou e a Copa do Mundo também
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F06%2FICONSPORT_368206_0011-scaled.jpg)
Hoje em dia, o desafio de ganhar a Copa do Mundo fica muito mais difícil que antes.
Nisso, a seleção brasileira é até uma vítima do próprio sucesso. Os triunfos do passado foram tão empolgantes que acabaram inspirando gente no mundo inteiro — que agora tem os seus próprios sonhos da vitória.
Pode ser que chegou a hora de o Brasil repensar a sua abordagem para a Copa do Mundo. A Seleção sempre vai estar entre os grandes candidatos. Pode ganhar este ano. Está na briga, apesar dos problemas e deficiências. Mas a velha mentalidade — sucesso é ganhar a taça, fracasso é qualquer outro resultado — coloca um estresse excessivo que faz mais difícil curtir um evento tão maravilhoso.
Porque a graça da Copa do Mundo fica em duas coisas. Primeiro a diversidade — de África do Sul até Uzbequistão, é fantástico ver a humanidade juntos falando a língua universal da bola. Segundo é a viagem. O Mundial te leva numa viagem de emoções, esperança, euforia, desespero. Se o foco é somente no título, não se pode curtir o suficiente a viagem, e aí não está aproveitando o suficiente a Copa.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F06%2FTorcedoras-acompanham-estreia-do-Brasil-na-Copa-do-Mundo-2026-scaled.jpg)