Copa do Mundo

‘Só falo alemão’: Irmão de Khedira esnobou Tunísia há oito anos, mas defenderá país na Copa

Rani Khedira quase jogou no Mundial de 2022 após estar presente na pré-lista da Alemanha

Os jogadores filhos da diáspora de países africanos na Europa trouxeram ao futebol diversas histórias de reconexão com as raízes de suas famílias no contexto das seleções. O caso do meio-campista Rani Khedira com a seleção da Tunísia, porém, não ocorreu de forma tão natural como outras trajetórias.

O atleta, irmão de Sami Khedira, campeão do mundo pela Alemanha em 2014, nasceu em Stuttgart, filho de mãe alemã e pai tunisiano. Nas categorias de base, defendeu a seleção alemã em 13 partidas nas categorias sub-15, sub-16, sub-17 e sub-19.

Para o selecionado principal da Alemanha, nunca foi chamado, mesmo se destacando e ganhando coro para isso. Em 2018, a Tunísia viu uma oportunidade e tentou recrutá-lo para a Copa do Mundo da Rússia. Rani recusou, mas agora, oito anos depois, aceitou o convite, jogou pelo país e tem tudo para defender a nação de seu pai no Mundial de 2026.

Por que Khedira recusou Tunísia em 2018

À época no Augsburg, Rani Khedira se mostrou orgulhoso de ter sido convocado pelo técnico Nabil Maâloul para defender as Águias de Cartago, mas justificou a diferença cultural. “Eu nasci e cresci na Alemanha, falo apenas alemão“.

O problema da comunicação, segundo o jogador, atrapalharia seu estilo de jogo, que exige orientações no meio-campo. Ele ainda justificou que poderia tirar o lugar de alguém que merecesse mais.

— O tempo é muito curto, é difícil demais. Eu não conseguiria ajudar a equipe e entregar meu melhor desempenho. […] Foi um longo processo com as pessoas que me cercam. Meu pai é um tunisiano orgulhoso, carrego ambos os países no meu coração e desejo o melhor para eles, mas, no fim das contas, foi a decisão certa — justificou, em fevereiro de 2018.

Naquela edição, a primeira disputa pelo país africano desde 2006, a seleção caiu na fase de grupos após ter perdido para Inglaterra (2 a 1) e Bélgica (5 a 2), sendo simbólica a vitória sobre o Panamá, 2 a 1, apenas o segundo resultado positivo da Tunísia nas histórias das Copas — o outro havia sido só em 1978, o primeiro na história de uma seleção africana no Mundial.

No último torneio, disputado no Catar, o selecionado tunisiano fez bonito: deu à França a única derrota na campanha do vice-campeonato, 1 a 0, na rodada final dos grupos. O time até poderia ter disputado uma oitavas de final inédita se Austrália e Dinamarca tivessem empatado, mas a seleção da Oceania venceu e avançou.

Rani Khedira nem foi cotado em 2022. Seu momento era tão bom que o apelo era para que fosse convocado pela Alemanha.

Rani Khedira em partida do Union Berlin na Bundesliga
Rani Khedira em partida do Union Berlin na Bundesliga (Foto: IMAGO / Contrast)

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Meia quase jogou a Copa do Mundo de 2022

Destaque no Union Berlin, grande sensação da Bundesliga entre 2021 e 2023, o volante estava prestigiado no futebol alemão na preparação para a Copa do Catar. Ele chegou a fazer parte do grupo com 55 nomes que eram monitorados pelo técnico da seleção da Alemanha naquele momento, Hansi Flick.

Havia certa “pressão” na mídia local para que ele fosse convocado, com análises que destacavam que suas características como primeiro volante marcador eram distintas dos nomes disponíveis. Até Lothar Matthäus, campeão do mundo pela Nationalelf em 1990, fez coro: “Ele seria o reserva ideal, um líder agressivo. Gosto muito dele no Union Berlin“, indicou antes do Mundial.

Flick, no entanto, não deu a oportunidade a Khedira. A Alemanha foi eliminada na fase de grupos pela segunda Copa seguida. A única derrota, para o Japão, poderia ter sido evitada se o volante do Union Berlin estivesse lá, pelo menos segundo Oliver Ruhnert, então CEO do Union, em 2023.

O executivo não poupou críticas ao técnico da época pela ausência do jogador, que, para ele, ajudaria a seleção alemã a não tomar a virada. “A comissão técnica de Flick diz que as decisões são tomadas com base no desempenho. Eu digo: não são“, disse ao jornal “Süddeutsche Zeitung” em julho de 2023.

— Para mim, é incompreensível que um jogador como Rani Khedira continue sem ser convocado. Durante mais de dois anos, ele mostrou atuações fortes tanto no cenário nacional quanto internacional. Minha tese é: um jogador assim teria conseguido segurar a vantagem de 1 a 0 contra o Japão na Copa do Mundo — completou.

O Union Berlin perdeu protagonismo nas últimas temporadas, brigando na parte de baixo da tabela, enquanto Khedira, mais envelhecido, não teve o mesmo destaque, apesar de continuar como pilar da equipe. Em março de 2026, então, a Tunísia o aborda de novo e a resposta é positiva.

Khedira em ação pelo Union Berlin
Khedira em ação pelo Union Berlin (Foto: IMAGO / Revierfoto)

Rani Khedira foi titular na última Data Fifa e deve estar no Mundial

A Tunísia só teve a confirmação da Fifa para a convocação de Rani apenas 24 dias antes dos amistosos de março de 2026. No começo deste ano, o técnico da seleção tunisiana, Sabri Lamouchi, recém-contratado para o cargo, foi até Berlim para conversar com o meio-campista e sondar sua situação.

Não vou implorar para ninguém jogar pela Tunísia, e vamos buscar jogadores que tragam valor à seleção — disse o treinador francês em fevereiro ao ser questionado sobre a convocação do jogador que nasceu na Alemanha.

Dessa vez, Khedira não teve receio de aceitar. E ele logo ganhou espaço: foi titular nos dois jogos: vitória por 1 a 0 sobre o Haiti e empate em 0 a 0 com o Canadá.

O volante deve ser um dos principais jogadores da seleção norte africana na Copa do Mundo de 2026. As Águias de Cartago deram má sorte e caíram em um dos grupos mais difíceis da competição, ao lado de Países Baixos, Japão e Suécia. Ao mesmo tempo, há muito equilíbrio e muitos pontos podem ser deixados pelo caminho, o que abriria caminho para uma classificação como melhor terceiro.

Apesar do ciclo conturbado, com muitos técnicos, a Tunísia tem se firmado como um time chato de enfrentar por sua capacidade defensiva — a própria seleção brasileira sofreu com isso, com empate em 1 a 1 no ano passado. Khedira e seus novos colegas têm a chance de fazer história e, pela primeira vez, fazer o país avançar ao mata-mata.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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