Copa do Mundo 2026

Os bastidores revelados do ‘experimento Krul’ e a classificação histórica dos Países Baixos na Copa de 2014

Goleiro protagonizou uma das substituições mais marcantes da história dos Mundiais sob o aval de Louis Van Gaal

Às vésperas do início da fase de mata-mata da Copa do Mundo, diversos contextos e cenários são abordados a partir da pressão das grandes seleções em, principalmente, não perderem. Assim, as decisões por penalidades são amplamente lembradas e em uma dessas ocasiões ficou marcada por uma decisão inusitada: trocar o goleiro apenas para os pênaltis.

Isso ocorreu em 2014, na Copa sediada pelo Brasil, na fase de quartas de final, em um duelo entre Países Baixos e Costa Rica. Após um empate em 0 a 0 durante os 90 minutos e a prorrogação, o duelo se encaminhava para uma decisão nos pênaltis, situação a qual os costarriquenhos já haviam vivenciado naquele mesmo Mundial, nas oitavas, contra a Grécia.

Havia uma amostragem mais clara do que os possíveis cobradores da Costa Rica poderiam fazer na decisão. Louis Van Gaal surpreendeu o adversário e promoveu uma das substituições mais marcantes da história do futebol. O titular Jasper Cillensen deu lugar a Tim Krul no fim da prorrogação e o desfecho foi icônico: muita provocação, duas penalidades defendidas e vaga nas semifinais garantida.

Apesar da história marcante, os bastidores desta tomada de decisão, no mínimo incomum, nunca ganharam o destaque que deveria e os detalhes trazem contornos ainda mais impressionantes.

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A perspectiva de Krul nos Países Baixos

Há cerca de um ano, Tim Krul, já aposentado, concedeu uma entrevista exclusiva para o “The Ben Foster Podcast”, programa do ex-goleiro da seleção inglesa, e abordou de forma profunda a situação que o evidenciou para o mundo. Cronologicamente, Krul contou desde a origem desta decisão, que teria ocorrido antes mesmo da partida contra a Costa Rica.

— O treinador de goleiros me chamou pouco antes do jogo, antes de irmos para o estádio, e disse: você está fazendo um grande trabalhado e vem lutando pela titularidade. Eu imaginei que aquilo era mais um incentivo, do tipo de ‘você está indo bem, continue assim’. Mas, ele me disse logo em seguida que se o jogo fosse para os pênaltis, eles iriam considerar me utilizar caso existisse uma substituição disponível. E eu pensei: ‘bom estamos jogando contra a Costa Rica, não vamos aos pênaltis’ — começou por dizer o ex-goleiro.

Tim Krul revelou que Cillensen não recebeu qualquer aviso prévio de Van Gaal e a toda a situação gerou uma surpresa generalizada nos companheiros, que não entendiam os movimentos de aquecimento do goleiro sem o titular apontar qualquer tipo de lesão. Ao ser substituído por Krul, Cillensen demonstrou não entender a mudança e reagiu chutando garrafas de água no banco de reservas e gesticulando em direção a Louis Van Gaal.

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Cillensen é recebido por reservas dos Países Baixos após substituição. Foto: IMAGO / Pro Shots

— No aquecimento tradicional durante o jogo, os goleiros reservas não costumam correr, mas o preparador de goleiros pediu para que eu aquecesse devidamente. Os meus companheiros não entenderam e perguntaram se tinha algo acontecendo comigo. E então eu disse que falaria depois. Foi então que o treinador me chamou e eu tirei o colete. Eu tive que entrar em ação antes do apito final. Assim que eu entrei, na corrida até o gol, minhas pernas já tremiam e ainda faltavam alguns minutos — disse.

Questionado quanto ao estudo dos possíveis cobradores da Costa Rica, Krul revelou a rotina de análise até o momento decisivo e falou sobre o conflito entre as referência de cada jogador e o instinto do goleiro.

— Quando o preparador de goleiros me chamou antes de irmos ao campo, peguei nosso computador e começamos a estudar. Na noite anterior já havia feito o dever de casa como goleiros sempre fazem. Mas revisei isso antes de irmos para o estádio porque eles tiveram uma disputa por pênalti na fase anterior […] Eu estava furioso comigo, porque esperei demais na primeira cobrança. Eu tinha uma ideia pra onde tinha que pular, mas tive o instinto de esperar até o último momento. Então comecei a me culpar. Foi então que deixei tudo de lado pensei: ‘vou seguir o que sinto que devo fazer’ — contou o ex-goleiro.

O momento em que Krul substitui Cillensen sob os olhos de Van Gaal. Foto: IMAGO/Pro Shots
O momento em que Krul substitui Cillensen sob os olhos de Van Gaal. Foto: IMAGO/Pro Shots

Na primeira cobrança, acertou o canto e ficou a centímetros da defesa no seu canto esquerdo, bem rasteira. Na segunda, quando Bryan Ruiz, principal jogador da Costa Rica, colocou a bola na cal, Krul se aproximou e apareceu falando em tom de provocação. Ruíz tentou o mesmo canto do seu companheiro de time, mas dessa vez o goleiro foi com tudo e pegou a cobrança. A confiança aumentou.

Na terceira cobrança, recebeu uma encarada de Giancarlo González e Krul respondeu com nova provocação. O arqueiro até acerta o canto, mas o chute dessa vez foi no alto. Na quarta, Christian Bolaños bateu no ângulo, invertendo o lado cobrado por seus antecessores. Krul estava lá, até esticou bem os braços, mas não conseguiu pegar. Na última, Krul voltou a desafiar, balançou o travessão e pegou mais uma. Novamente no seu canto esquerdo, rasteiro. Festa em campo e de todos os jogadores, incluindo o próprio Cillessen.

— Na manhã seguinte fomos chamados para o quarto de Van Gaal no hotel e eu não tinha percebido que, quando Cillensen saiu, ele chutou todas as garrafas de água com fúria. Então, Van Gaal disse a ele: ‘se você me desrespeitar assim mais uma vez, nunca mais vai jogar comigo’ — revelou Krul.

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A versão da comissão técnica e o diagnóstico do goleiro ‘titular’ dos pênaltis

Em 2020, Frans Hoek, treinador de goleiros da comissão técnica de Louis Van Gaal na Copa do Mundo de 2014, concedeu uma entrevista para o “The Athletic” e abordou exclusivamente este episódio, tratando de bastidores ainda mais técnicos do que os revelados por Tim Krul. Logo de cara, Hoek revelou que o rendimentos dos três goleiros convocados em disputas pênaltis não era das melhores.

— Quando nos juntamos à seleção, os três goleiros estavam mais ou menos no mesmo nível em defesas de pênaltis. E esse nível era baixo. Então decidimos fazer as coisas de um jeito diferente e, quando você faz isso, tem que acreditar, praticar e depois mostrar — .

Foi então que Hoek passou a observar mais do que o aspecto técnico dos seus três goleiros. Em sua tese sobre penalidades e experiência como ex-goleiro, o então integrante da comissão técnica neerlandesa entendeu que o mental seria tão importante quanto, não só a ponto de pressionar o cobrador, mas também de tranquilizar a si próprio e ganhar confiança.

A partir disso, o relato foi de que o melhor aproveitamento nas cobranças de pênaltis entre os três goleiros era de Michel Vorm, considerado o terceiro da hierarquia da posição. Porém, para Hoek, Krul era o mais equilibrado quanto à técnica, temperamento e imponência para este tipo de situação. O próprio Tim Krul falou sobre o jogo mental com o cobrador e a influência para a tomada da decisão final.

Tim Krul pegou dois pênaltis em Países Baixos x Costa Rica, na Copa de 2014. Foto: IMAGO/Pro Shots
Tim Krul pegou dois pênaltis em Países Baixos x Costa Rica, na Copa de 2014. Foto: IMAGO/Pro Shots

— Obviamente que os melhores do mundo podem mudar o lado na hora da cobrança, como Cristiano Ronaldo ou Harry Kane. Normalmente eles mexem com o goleiro. Mas os que estão nervosos, principalmente os defensores ou meio-campistas, eu conseguia identificar só pelo olhar. Então, naquela ocasião, eu senti que já estava vencendo aquela batalha — revelou o ex-goleiro da seleção.

Para além das duas defesas salvadoras, Krul ficou realmente marcado pela sua capacidade em provocar e trazer desconforto ao cobrador. Mesmo com o sucesso contra a Costa Rica, ele não teve a oportunidade de repetir a estratégia no duelo seguinte, contra a Argentina.

Na semifinal, em São Paulo, após mais um empate sem gols, Jasper Cillensen foi o encarregado da decisão por pênaltis, mas esta não foi propriamente uma decisão pensada por Louis Van Gaal, como revelou Krul.

— Ele (Van Gaal) estava disposto a fazer isso de novo na semifinal, contra a Argentina, mas infelizmente usamos todas as substituições antes e aquela Copa do Mundo só tinha três substituições ainda. Acho que foi porque Van Persie se lesionou faltando 30 minutos pro fim. Então, eu pensei: ‘Messi, semifinal… foi de partir o coração’ — lembrou.

Ron Vlaar abriu a disputa de pênaltis, com uma cobrança fraca que resultou na defesa de Sergio Romero. Na vez da Argentina, Lionel Messi deslocou Cillessen com facilidade. Depois, Ezequiel Garay mandou um foguete no meio do gol, sem chances de defesa.

Na terceira chance, Cillessen chegou perto. Sergio Aguero bateu cruzado, no canto direito do goleiro. O então camisa 1 do Ajax acertou o lado e esticou o braço, mas não conseguiu a defesa. Na cobrança seguinte — a última –, já que Romero havia defendido a cobrança de Wesley Sneijder, restava a Maxi Rodríguez colocar a Argentina na final. O meia chutou forte no meio, Cillessen tocou na bola, mas a potência da cobrança foi impossível de defender. Os argentinos carimbavam vaga na decisão enquanto os neerlandeses, com Cillessen e Krul, voltavam para casa.

Foto de Gabriel Mota

Gabriel MotaRedator de esportes

Nascido e criado em Petrópolis, mas 'naturalizado' carioca, é jornalista pela ESPM-Rio. Já passou por 365Scores, Lance! e Footure. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2026.

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