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O meu desconcertante prazer em ver Neymar jogar

Acredito que rejeitar Neymar de maneira incondicional seja mais simples para quem não veria jogos dele de qualquer maneira nos outros 3 anos e 11 meses

Tenho um primo, da mesma idade que eu, que foi jogador profissional de futebol. Você não o viu na Globo, posto que atuou por equipes pequenas, mas a categoria de base foi toda cumprida em alguns dos clubes de maiores torcidas do país. Gosto de falar de bola com ele, basicamente porque nossas trajetórias, embora tenham pontos em comum, como um dialeto varzeano dado pela mesma família que nos levava aos mesmos campos amadores, são marcadas por diferenças gritantes de ângulo. Um tem cacoetes de um olhar de boleiro, o outro, eu no caso, tem cacoetes do olhar jornalístico, crônico, literário.

Meu primo relatou que chorou como uma criança no gol de Neymar contra a Croácia, na última sexta-feira. Com o corpo coberto de tatuagens e acostumado a usar a camisa 10, Dedé seria exatamente como Neymar, se tivesse a chance de sê-lo. Enxerga no craque de 30 anos a redenção de seu estilo, torce pelo personagem e gostaria de protegê-lo desse turbilhão caótico no qual Ney está sempre envolvido, um pouco porque somos, jornalistas e público geral, assim mesmo, e um tanto porque ele próprio, o Ney, se viciou nesse cassino midiático narcisista. Para meu primo, o golaço-aço-aço na prorrogação foi uma catarse, um desabafo, daquilo que ele queria responder em nome do ídolo. Tenho os meus e sei exatamente como é.

Enquanto conversávamos sobre a inconsequência de um volante fresquinho em campo, como Fred, não pensar que os colegas estavam cansados (alguns mal conseguiam andar, como Danilo, e outros, como Militão, tiveram que pedir para sair de campo) e, sem mais nem menos, correr para “dar opção” de passe no campo de ataque, comecei a notar que meu primo tentava justificar sua idolatria de um jeito diferente. Como se pedisse compreensão, ou mesmo permissão, para falar de Neymar como um membro da família. Em dado momento, quando ele notou que não precisava mais disso, afirmou estar surpreso com o fato de eu bancar, defender, querer o bem do Neymar.

Passamos os últimos anos sem nos ver. Ficou, presumo, na cabeça dele uma espécie de certeza, um raciocínio lógico, de que faço parte de um exército anti-Neymar, organizado para uma guerrilha tal qual às vezes jogadores piram que lhes acontecem. Ora, meu primo é de esquerda, é jornalista, deve ter pensado Dedé, é zagueiro, não gosta muito de gracinhas, é politizado, com certeza ele quer o Neymar machucado, ou evaporado do mapa. Não sou, e lhe expliquei, primeiro, que parte dessa percepção é de autoria e interesse da própria máquina que sustenta os grandes ídolos. Depois, dei um testemunho sobre o Mundial, onde vi apoio futebolístico ao craque muito maior do que “festejos pela lesão”, essa premissa cuja resposta crítica foi tão maior que o fato em si.

Acima de tudo, falei, Dedé, eu assisti 600 jogos de futebol por ano. Entre os quais, sub-20 com estádios vazios, West Ham x Leicester, goleadas em campos esburacados de futebol feminino, a Chapecoense 11 da manhã com goleiro fingindo lesão toda hora, assisto teipes, velharias, minutos finais do Getafe. Quão estúpido seria eu se tivesse desprazer em, nesses 600 jogos, ter a ajuda do Neymar em, sei lá, 30 ou 40 deles? Acredito que rejeitar Neymar de maneira incondicional seja mais simples para quem não veria jogos dele de qualquer maneira nos outros 3 anos e 11 meses. Como não é o meu caso, convém abrir negociação com o staff espiritual do camisa 10 e ceder a algumas contradições em nome do encanto futebolístico que, sim, ele me causa.

Sim, eu cantei “ei, Neymar, vai ter que declarar” na Avenida Paulista enquanto esperava Lula, vitorioso nas urnas, falar para seus eleitores. É justa a bronca, é notícia, não uma invenção coletiva. Ensanguentado após cair em uma vala comemorando o gol de Neymar na prorrogação, também brinquei, “vai cobrar imposto do moleque por quê, porra?”. Aprendi a bancar Neymar com um pouco de ironia, com petelecos que depois se pede desculpas, e negando dar a ele aquilo que muitas vezes foi o desejo da empresa ao seu redor: há anos faço o exercício de avaliá-lo em campo com o mínimo de interferência do que acontece fora dele. Pode não ser a mais politizada das ações, mas faz um bem danado.

Neymar, quando tinha 17 e a gente falava, no Brasil, “o que será desse gênio daqui dez anos?”, virou, afinal, o que eu imaginava que seria. Provavelmente você discorda de mim. Neymar amadureceu seu futebol (o amadurecimento da pessoa, agora, não me interessa muito falar sobre). Continua habilidoso como pouquíssimos, mas é cerebral, criativo, virou um armador de jogadas que me dá ainda mais prazer de assistir do que aquele ponta de dribles inacreditáveis de anos antes. Eu sinto um prazer desconcertante de ver o Neymar jogar futebol, e, para falar só um pouco do personagem, no todo um narcisista, confuso, carente e pouco interessante tipo, avalio sua participação na Copa de 2022 como positiva. Sem estardalhaço, com iniciativa, algum sacrifício para tratar uma lesão que não virou show midiático, não sei, sinceramente, o que tão diferente poderíamos esperar de Neymar no Catar.

Messi, após o quarto vice com a seleção argentina, declarou, em 2016, que estava abandonando a seleção, farto de críticas e pressão – que, por ser o maior da geração, afirmo ser maior do que a pressão exercida contra Neymar. Naquele exato mês, Messi estava completando 29 anos. Neymar, hoje, tem 30. Se Messi não voltasse atrás, teria perdido, nos 6 anos seguintes, a sua redenção com a camisa e a bola de seu país, que pode atingir, domingo próximo, o seu ponto mais alto. Neymar não precisa destruir e abandonar o castelo agora. Aos 34 anos em 2026, vai, se nada muito estranho acontecer, continuar titular, referência técnica e um dos melhores do mundo em sua posição. Será jovem o suficiente para isso. Encerrar essa história no Catar seria um desperdício.

Quando olho para o Neymar, comportamento e cacoetes em campos, seus gestos e exageros, sua impertinência e fragilidade, seus equívocos emocionais que são parte do problema, mas também da solução de seu jogo, sua insolência e seus jogos paralelos e invisíveis travados dentro de um mesmo jogo, eu gosto dele. Um pouco porque ver craque é melhor que não ver, um pouco porque ele nos desafia a gostar não gostando, mas um tanto porque, no fundo, olho para ele em campo e vejo meu primo, como tantos parecidos a ele, cumprindo em suas pernas um destino que não se cumpriu.

Foto de Leandro Iamin

Leandro Iamin

Jornalista, 35, fundador da Central 3, e espera viver pra ver o São José na elite de novo.
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