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O adeus a Antonio Carbajal, o primeiro a disputar cinco Copas e um dos goleiros mais lendários da história

Falecido aos 93 anos, o mexicano Carbajal teve uma história ímpar nos Mundiais, que se iniciou no Maracanã e se encerrou em Wembley

Antonio Carbajal tinha um apelido sugestivo: o “Cinco Copas”. E se outros sete jogadores puderam receber a mesma alcunha posteriormente, o pioneirismo permanecerá para sempre com o mexicano. Durante 32 anos, ele foi o único futebolista da história a ter disputado cinco Copas do Mundo. Carbajal também possui o recorde pouco honroso de ter sido o goleiro mais vazado dos Mundiais em todos os tempos, com 25 tentos sofridos. A marca, porém, não mancha o status da lenda. Em tempos nos quais o México era um mero saco de pancadas, os relatos dos jornais antigos indicam que, não fossem os milagres do arqueiro, a conta poderia ser maior. O veterano não alcançou a aclamação internacional sem motivos. Era um craque sob os paus, daqueles que nem gostavam de usar luvas. Foi ídolo e multicampeão no León, enquanto recusava propostas até do poderoso Real Madrid. Esteve presente em todas as Copas de 1950 a 1966, elogiado do primeiro até o último jogo. Teve a honra de estrear no Maracanã e se despedir em Wembley. Fez-se eterno.

Nesta terça-feira, às vésperas de completar 94 anos, Carbajal faleceu. Recebeu amplas homenagens não só no México, mas também em outros países. É um nome obrigatório nos livros sobre a história dos Mundiais e assim continuará por muito tempo. Seu legado é pioneiro. “O segredo para jogar cinco Copas era querer ser. Eu queria ser o melhor goleiro do México. Agradeço isso aos goleiros da minha época. Eles me pressionavam e eu tinha que responder com força. Não ia ficar parado, eu inventava meus treinamentos. Você chega até onde quer chegar. Eu me aposentei num jogo em que não me fizeram gol”, contou Carbajal, ao jornal El País, em 2018. “Enfrentar os melhores me animava, caramba! Era feliz com isso”. Foi feliz até os últimos dias, cheio de histórias.

Antonio Carbajal nasceu em 7 de junho de 1929, na Cidade do México. Filho de uma lavadeira e de um motorista de ônibus escolar, seu pai queria que ele enveredasse para o beisebol, mas a paixão do garoto era mesmo o futebol. Seria seu caminho para provar seu valor e responder aos colegas que cometiam bullying por ser bolsista, filho do motorista, no colégio de ricos. Os primórdios do arqueiro nos gramados aconteceram em clubes ligados à comunidade espanhola. Primeiro defendeu o Club Oviedo. Destacou-se tanto que disputou sua primeira competição com a seleção do México aos 19 anos: era reserva da equipe que participou dos Jogos Olímpicos de 1948. Só não teve a oportunidade de entrar em campo, com a eliminação logo na estreia contra a Coreia do Sul.

A visibilidade fez com que Carbajal recebesse uma oferta do Real Club España, um dos times mais vencedores do futebol mexicano entre as décadas de 1930 e 1940. Na época, o goleiro ainda precisava conciliar os treinos com o trabalho como vidraceiro. A contratação foi selada com o pagamento de 11 bolas de futebol ao Club Oviedo. Já a estreia, em dezembro de 1948, teria logo um frango do novato. “O capitão do España se aproximou de mim e disse: ‘Garoto, se você não se levantar dessa falha, nunca vai ser goleiro’. A partir de então, eu voava por todos os lados, embora não fosse um goleiro de espetáculo, era mais de colocação”, recontou à Fifa, em 2004. “Sempre gostei de trabalhar muito, talvez exageradamente. Eu me sentia muito bem quando trabalhava bastante, me dava segurança, confiança, queria terminar o treino exausto”. Os anos seguintes serviram para o jovem se firmar entre os melhores de sua posição no país. E os serviços no España abriram as portas para que La Tota, como era conhecido, disputasse sua primeira Copa do Mundo em 1950. Seria titular de El Tri, depois de se destacar num amistoso preparatório.

A estreia de Carbajal em Copas do Mundo proporcionou logo uma ocasião histórica. O México era o primeiro adversário do Brasil em 1950, na estreia da Seleção dentro do Maracanã. A goleada por 4 a 0 correspondia às expectativas da torcida brasileira, mas Carbajal seria eximido de culpa pelos gols e até receberia elogios dos jornais por algumas intervenções. “Com 200 mil gritando ‘Brasil, Brasil’, eu fiquei encantado. O Brasil tinha um timaço, conseguimos segurá-los até que Ademir marcasse o primeiro gol. Era um figurão da época. Eram outros tempos, não tínhamos tarimba internacional”, relembrou o goleiro, anos depois, em entrevista ao diário Reforma.

Naquela Copa, Carbajal tomaria mais quatro gols da Iugoslávia e outros dois da Suíça. A fragilidade de El Tri não auxiliava a jovem promessa, ainda assim respaldada por aquilo que apresentou no Mundial. Estava claro como despontava um arqueiro de potencial. “Estava emocionado, mas tranquilo, ao encarar o Maracanã com 200 mil. Os nervos normais que te dão num campeonato e a responsabilidade de representar a seleção, mas com um desejo louco de jogar. Gostei de viajar a um país diferente, de ser cumprimentado pelo presidente da república, de ser distinguido, de ter orgulho por representar sua seleção fora do país. Gostei muito disso e disse ‘bom, vou seguir fazendo’. Assim veio a segunda, a terceira, a quarta e a quinta Copa”, afirmou, ao site da Fifa.

Quando Carbajal retornou ao México, precisou buscar um novo destino. O España era alvo de manifestações xenofóbicas dos torcedores mexicanos contra os imigrantes espanhóis. Por ordem da ditadura franquista, os clubes de origem espanhola encerraram suas atividades profissionais no Campeonato Mexicano. La Tota ouviu propostas de alguns times e escolheu rumar ao Oro, de Guadalajara. Porém, na hora de acertar a papelada, perguntou num hotel onde estavam os “homens do futebol” e, sem saber, se encontrou com dirigentes do León. Carbajal sequer percebeu que não estava assinando com o Oro. Apesar de toda a confusão, o goleiro aceitou o fato de que tinha se apalavrado com La Fiera e seguiu para Guanajuato. Não se arrependeria, com uma relação muito especial com os esmeraldas.

Carbajal se transformou num símbolo do León, com 16 anos de clube como atleta profissional. Aclimatou-se à cidade e abriu até mesmo sua própria vidraçaria. “Com o tempo, montei meu negócio e assim conseguia o que era necessário para viver bem. O futebol pagava pouco e o que sobrava era da vidraçaria. O que mais queria? Eu não me arrependo. Estava muito confortável na casa que vivia de início. León era uma cidade pequena e ia à missa aos domingos no centro, depois íamos caminhado ao estádio”, recordaria.

A escolha de Carbajal se provou acertada em pouco tempo. Ainda em 1950, num amistoso contra o River Plate, o goleiro realizou aquela que considerava a maior defesa de sua carreira: “O grande meia Labruna desferiu violento chute da entrada da área. Pulei de um canto ao outro e evitei a penetração da bola, que ia entrando no ângulo superior. Toda a plateia aplaudiu de pé. Vibrei de emoção”. Já em 1951/52, La Tota conquistou o Campeonato Mexicano com os esmeraldas. Naquele mesmo ano, a reputação do arqueiro na meta da seleção do México se ampliou um pouco mais. O Chile recebeu o Campeonato Panamericano, uma competição que reunia seleções tanto da Conmebol quanto da Concacaf. O desempenho de El Tri foi fraco, mas as atuações de Carbajal impressionaram. Foi eleito o melhor goleiro do torneio.

Carbajal recebeu propostas para se transferir ao futebol brasileiro naquela mesma época. Como contou à Revista do Esporte: “Recebi um honroso convite do America, do Rio, para vir integrar o seu plantel. Infelizmente àquela época, não pude aceitar a proposta porque meu pai estava muito enfermo e não poderia viajar comigo, nem queria que eu viajasse sem ele. Foi uma grande chance que não pude aproveitar”. O Jornal dos Sports também relatava que o Flamengo era outro interessado nos serviços de La Tota no período, enquanto o Correio da Manhã citava o Botafogo como possível destino.

Já em 1954, às vésperas de completar 25 anos, Carbajal desembarcou em sua segunda Copa do Mundo com bem mais moral. Era elogiado como um dos protagonistas do México, apesar das desconfianças sobre as possibilidades de El Tri. “Tem uma agilidade extraordinária, rápida visão e excelente senso de colocação. Carbajal é considerado o melhor goleiro mexicano dos últimos 20 anos de futebol organizado nesse país”, descrevia o Jornal dos Sports, às vésperas do Mundial. Mais uma vez, a seleção brasileira estaria no caminho dos mexicanos durante a fase de grupos. Carbajal, entretanto, foi desfalque na vitória do Brasil por 5 a 0. O goleiro contundiu a mão num treino e não se recuperou a tempo. Voltou apenas para a derrota por 3 a 2 para a França, que encerrou a campanha dos mexicanos na fase de grupos.

Não era só o Brasil que se interessava por Carbajal, aliás. O Real Madrid começava a montar seu esquadrão dos anos 1950 e procurou o arqueiro. Recebeu a negativa. “Quando Santiago Bernabéu estava na presidência, me mandou um táxi e falou comigo. Até passagem me deu. E eu não quis. O futebol mexicano tinha me dado a oportunidade de ir a uma Olimpíada e a duas Copas do Mundo. Queria dar futebol ao México e era isso. Não me arrependo de nada. Eles me julgaram como muito severo, como se fosse metido. Mas não me arrependo”, contaria o arqueiro, ao jornal El País.

Pelo León, Carbajal desfrutou de seu momento mais vitorioso naquele ciclo. La Fiera conquistou o Campeonato Mexicano novamente em 1955/56 e também comemorou a Copa México em 1957/58, depois de dois vices recentes no torneio. Enquanto isso, La Tota era nome onipresente na seleção. Foi chamado outra vez para o Campeonato Panamericano em 1956, mas uma nova contusão na mão atrapalhou sua presença. De qualquer maneira, chegou reconhecido como principal figura de El Tri para a Copa de 1958. Foi nomeado até capitão da seleção. Valia muito sua experiência, assim como o fato de não atuar num clube da Cidade do México ou de Guadalajara. Era visto como uma figura conciliadora às possíveis rivalidades regionais dentro dos vestiários. Apesar dos temores, prevalecia a harmonia.

Enfim, Carbajal escapou do Brasil na Copa do Mundo. Mas, de novo, o México participou da partida de abertura, contra uma fortíssima Suécia. Por ser o capitão de El Tri, La Tota teve a honra de cumprimentar o Rei Gustavo antes que a bola rolasse. Não que isso tenha diminuído o prejuízo, com a derrota por 3 a 0 para os escandinavos. O primeiro ponto conquistado pelo goleiro em Copas veio na partida seguinte, com o empate por 1 a 1 contra Gales, arrancado por Jaime Belmonte aos 44 do segundo tempo. Todavia, a goleada por 4 a 0 da Hungria na rodada final determinou a eliminação dos mexicanos. Os comentários elogiosos nos jornais, como sempre, diziam que Carbajal havia evitado uma situação pior. “Carbajal disse que seu estilo de jogo é à base da colocação. É conhecido pelo seu controle de bola e por manter-se sereno em todas as circunstâncias”, descrevia a Gazeta Esportiva.

Carbajal precisou de mais de uma década de seleção para conquistar sua primeira vitória contra uma adversária de fora da Concacaf. Não seria qualquer resultado, porém: em maio de 1959, o México derrotou a Inglaterra por 2 a 1, no Estádio Olímpico Universitário da Cidade do México. Os Three Lions tinham alguns jogadores lendários em sua escalação, incluindo Billy Wright e Jimmy Greaves. Raul Cárdenas e Salvador Reyes anotaram os gols da virada mexicana, enquanto Carbajal teve uma “atuação magnífica” sob as traves – segundo o relato do jornal Daily Telegraph na época.

O León permaneceu como um time importante do México, mas sem o mesmo grau de sucessos. Nada que tirasse a titularidade de Carbajal na seleção. A equipe conquistou com méritos a classificação para a Copa de 1962, especialmente após derrotar o Paraguai na repescagem intercontinental. E chegava com um time mais competitivo, embora o sorteio de novo oferecesse um grupo duríssimo. Pior, o adversário na estreia era o mesmo de sempre: o Brasil, desta vez com a base campeã do mundo quatro anos antes.

A melhor atuação de Carbajal em suas cinco Copas do Mundo aconteceu naquela estreia de 1962, em Viña del Mar. La Tota parecia intransponível e continha o assédio constante do Brasil. Terminou o primeiro tempo sem ser vazado. Apenas na segunda etapa é que a Seleção construiu o triunfo por 2 a 0, com gols de Zagallo e Pelé. O Jornal dos Sports estampava em sua capa no dia seguinte: “Carbajal foi o maior entre os 22”. Já em suas páginas internas, o periódico dava cinco estrelas pela atuação: “Carbajal foi a grande figura da partida. Muito empenhado no primeiro tempo e mais ainda no segundo, exibiu elasticidade, arrojo, colocação e reflexos impressionantes. Não foi o culpado dos dois gols que deixou passar e evitou a goleada que o Brasil poderia ter disparado na fase final”.

Pelé era um velho conhecido de amistosos entre Santos e León. Alguém que merecia a reverência de Carbajal: “Pelé sempre foi o mais difícil para mim. Uma vez ele chegou na minha cara, eu o esperava já e me movia para saltar, mas ele me fintou ao fingir que ia chutar e marcou o gol. Saiu gritando ‘show, show, show’ enquanto voltava para seu campo. Quando terminou a partida, agradeci a Pelé. Não é qualquer um que enfrenta Pelé, o melhor jogador que conheci. Além de ser um excelente jogador, é uma excelente pessoa. Tive a oportunidade de falar com ele em várias ocasiões e era muito agradável”.

Na segunda rodada da Copa de 1962, Carbajal voltou a brilhar contra a Espanha, mesmo com outra derrota. A Fúria precisou suar bastante para anotar seu 1 a 0, com um gol de Joaquín Peiró aos 45 do segundo tempo. La Tota, que naquela Copa ficou marcado pelas orações ajoelhado junto à trave, se prostraria no chão e socaria a grama às lágrimas. A volta por cima não tardou, com a tão esperada vitória na despedida do Mundial do Chile. Os mexicanos foram capazes de ganhar da Tchecoslováquia, que viria a ser vice-campeã, por 3 a 1. Era um dia especial a Carbajal, justo em seu aniversário de 33 anos. O goleiro recebeu flores do capitão adversário, o craque Josef Masopust, enquanto ouviu dos companheiros que seu presente era o triunfo. Aconteceu: Isidoro Díaz, Alfredo del Águila e Héctor Hernández determinaram a virada, enquanto o capitão fechava o gol. O resultado não evitou a eliminação de El Tri, mas valeu uma despedida com honras.

Carbajal se saiu tão bem que terminou eleito o melhor goleiro da fase de grupos da Copa de 1962. O veterano atribuía a melhora da seleção mexicana ao intercâmbio com o futebol brasileiro: “Os brasileiros devem ter notado que não somos mais aquela equipe fácil de ser vencida. E isso devemos justamente aos jogadores e técnicos brasileiros que se encontram no México. Eles nos ensinaram muito. Não há dúvidas de que o futebol mexicano foi o que mais progrediu nestes últimos anos”. O sucesso rendeu novas propostas para Carbajal deixar o México, incluindo de clubes de Espanha, Itália e Argentina. Preferia seguir no León.

A esta altura, Carbajal também colhia os louros de sua fama internacional, inclusive com convocação para a seleção de estrelas formada pela Fifa em 1963. E se suas aparições pela seleção mexicana eram mais esporádicas, o veterano cumpriria o objetivo de disputar sua quinta Copa do Mundo em 1966. Era o novo recorde isolado da competição, com La Tota desempatando a disputa com os brasileiros Castilho e Nilton Santos. Além do mais, o veterano tinha o diferencial de sempre disputar ao menos uma partida em cada Mundial. Não seria diferente na Inglaterra.

O jovem Ignacio Calderón, goleiro do Chivas Guadalajara, disputou as duas primeiras partidas da Copa – contra França e Inglaterra. O último compromisso de El Tri seria diante do Uruguai e, dono da camisa 1, Carbajal voltava à titularidade para sua despedida em Mundiais. A partida aconteceu em Wembley, diante de mais de 60 mil pessoas. O veterano, enfim, terminou um jogo do torneio sem ser vazado. Conseguiu segurar o empate por 0 a 0, por mais que o resultado terminasse por classificar os uruguaios. Era o fim de uma história fantástica, naquele que também foi o último ano de sua carreira profissional. O veterano disputou 458 partidas no total, 364 pelo León e 48 pela seleção.

Curiosamente, aquele duelo contra o Uruguai foi o único em que Carbajal jogou de luvas. As mãos calejadas gostavam do contato direto com a bola, mesmo que tenha ficado alguns anos sem tratar corretamente uma fratura no dedo anelar. A experiência com a “novidade” nas mãos nem durou muito. Como contou décadas depois ao jornal El País: “Uma vez alguém me disse que ‘gato com luvas não pega rato’. Não me recordo se Nacho Calderón me emprestou. ‘Olha, coloque, homem, vai fechar o gol com isso’. Eu agradeci. Estava chovendo e foi um ato de companheirismo. A primeira bola que veio quicou primeiro em mim e faço um malabarismo para agarrar. Chuto longe e devolvo as luvas. ‘Aí está essa porcaria, não servem para nada’. Jamais usei luvas. E agora, veja, parecem luvas de beisebol”. Sem luvas, o último chute que Carbajal defendeu foi de Pedro Rocha. Ao apito final contra o Uruguai, teve a honra de dar uma volta olímpica em Wembley e se despedir em grande estilo.

Carbajal continuou no futebol depois de pendurar as chuteiras. A lenda virou treinador do León a partir de 1969. Teria também seus sucessos, com o bicampeonato da Copa México e da Supercopa do México. Permaneceu no cargo até a temporada 1972/73. Naquele mesmo período, La Tota ainda voltou à seleção. Era o treinador de goleiros na Copa de 1970. Não pôde atuar diante de seus compatriotas, mas auxiliou o time que chegou até as quartas de final, enfim. O treinador era Raúl Cárdenas, com quem Carbajal havia compartilhado o elenco de El Tri em três Mundiais. Além disso, Ignacio Calderón se manteve como seu pupilo sob as traves e herdou a camisa 1.

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, Carbajal treinou vários clubes médios do México. Também voltou ao León e de lá se impulsionou para ser assistente da seleção, de 1979 a 1981. Já outro trabalho notável aconteceu à frente do Monarcas Morelia, equipe que assumiu para livrar do rebaixamento. O ex-arqueiro não apenas cumpriu a missão, como marcou época nos anos seguintes, inclusive com participações consecutivas nas fases finais do Campeonato Mexicano – um feito e tanto para um time modesto na época. Seriam 11 anos de casamata, até deixar o cargo em 1995. Só então, aos 66 anos, Carbajal passaria a desfrutar a aposentadoria. Ainda assim, o veterano realizou alguns trabalhos voluntários no futebol. Por muitos anos, treinou uma equipe de adolescentes viciados em drogas numa entidade assistencial e tentava apresentar um caminho. Seguia à frente do projeto mesmo com seus oitenta e tantos anos.

A solidariedade estava no sangue de Carbajal. Um episódio marcante aconteceu em 1985, quando o México foi devastado por um terremoto às vésperas de realizar mais uma Copa do Mundo. La Tota resolveu leiloar suas chuteiras preferidas dos tempos de jogador, a “camisa da sorte” que usava por baixo do uniforme em todas as partidas e outras relíquias que reuniu ao longo da carreira. O apoio aos compatriotas era mais importante. E ninguém duvidava do peso do ato daquele que permanece como o maior mundialista mexicano de todos.

Carbajal também sempre esteve presente em homenagens e eventos com lendas do futebol. O ex-goleiro foi eleito pela IFFHS como o melhor de sua posição no Século XX dentro da Concacaf. As condecorações da federação mexicana e também da Fifa eram costumeiras. As suas cinco Copas seriam depois igualadas por outros sete jogadores, três deles seus compatriotas: Lothar Matthäus, Gianluigi Buffon, Rafa Márquez, Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Andrés Guardado e Guillermo Ochoa. O pioneirismo de La Tota, ainda assim, garante um lugar muito especial à memória do veterano. É assim que continuará lembrado.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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