Novela sobre Neymar na Copa enterra papo furado de que ninguém liga para a Seleção
Brasileirão vive disputa pela liderança entre os dois clubes mais vitoriosos da década, Libertadores entra na reta final da fase de grupos, mas só se fala em Neymar na Copa
Sempre desconfiei que fosse um imenso exagero regado a altas doses de clubismo e de despeito pelo tempo sem o Brasil ganhar uma Copa, mas a novela que se arrasta há meses e tem o capítulo final marcado para o dia 18 de maio sobre a presença ou não de Neymar na Copa do Mundo de 2026 enterrou de vez o papo furado de que “ninguém mais liga para a seleção”.
Neymar não se tornou o jogador mais importante de sua geração apenas pelo que fez no Santos, no Barcelona e no PSG. Há um forte fator de identificação nacional com o jogador que ganhou o status de “carregador” de uma seleção brasileira muitas vezes fraca, com jogadores em crise de confiança e treinadores lidando com carências em diversas posições.
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A seleção brasileira ainda é uma instituição geradora de debates acalorados e que desperta paixões mesmo na era do clubismo e de redes sociais segmentando em excesso as relações entre torcedores. Porque ela justamente consegue furar essa bolha mais fanática por clubes. A Copa do Mundo é um evento maior.
O contexto no qual a discussão sobre Neymar está inserida não é banal. Estamos em mês de Flamengo x Palmeiras no Brasileirão, os dois times lutando pela liderança, sendo eles os mais vencedores clubes da década por aqui. A Copa do Brasil vive os jogos de volta de um mata-mata, e a Libertadores terá nas próximas semanas as definições de classificados para as oitavas de final.
Falar que toda essa discussão sobre a convocação se refere somente a Neymar é contar a história do jeito errado. Se o futebol de seleções fosse algo “morto”, como alguns passam quatro anos tentando defender, nosso foco natural seria em acompanhar a saga do craque tentando tirar o Santos de uma situação difícil, talvez lutando para voltar ao futebol europeu, e não buscando uma vaga entre os 26 nomes da lista de Carlo Ancelotti.
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A seleção brasileira realmente se afastou do povo, passou anos fazendo amistosos caça-níqueis em lugares completamente distantes do Brasil, jogando contra adversários duvidosos, e sendo mais notícia por faturamento e patrocínios do que pelo nível de futebol apresentado.
Mas, para este colunista, o “crime” maior aos olhos de quem jura que não liga mais para a seleção não foi esse. Esse “crime” seria uma soma entre não ganhar a Copa do Mundo há 24 anos (e quem não ganha, neste país, sempre recebe esse ar de ‘não ligo mais, pergunte ao basquete e à F1) com o fato de atrapalhar clubes durante quase todo esse período nas datas Fifa.
Esse primeiro tópico não é inédito para o futebol, aconteceu entre 1970 e 1994, quando não havia redes sociais e nem o papel de influenciadores de clubes agitando e pautando o debate diariamente, precisando do clima sempre acirrado para manter o engajamento alto, algo que aquele clima antigo de “todo mundo torcendo junto” pela Seleção não conseguiria mais contemplar.
O segundo é controverso.
A CBF pode ser culpada, mas não a seleção brasileira em si. São departamentos diferentes que cuidam da seleção e de competições. O ecossistema do futebol brasileiro, com clubes inclusos, passou anos sem abrir mão de estaduais inchados, competições ocupando mais espaço no calendário, como a Copa do Brasil e os torneios da Conmebol, etc.
Não é a seleção brasileira quem desfalca clubes, mas o fato de termos jogos na data Fifa. Com a explosão de estrangeiros nos nossos times, agora somos desfalcados pelo Paraguai, Uruguai, Argentina, Bolívia, Venezuela, e até pela Holanda.
Outro ponto também que tenta “provar” que ninguém mais liga para a seleção é a audiência que não chega mais aos mesmos patamares de antigamente nos jogos transmitidos pela TV Globo. Falta, é claro, o contexto de que nem Jornal Nacional, nem BBB e sequer as novelas das nove passaram ilesas pelo processo de perda de pontos na média da TV aberta nos últimos anos diante de mais opções de lazer e do streaming.
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Um problema mais claro do futebol de seleções é a quantidade de jogos irrelevantes durante um ciclo de Copa do Mundo. Ou seja, não é o futebol de seleções o problema, mas o formato. Amistosos são chatos quando envolvem clubes também.
Muita gente ama aqueles jogos de pré-temporada dos europeus nos EUA e na Ásia todos os anos, mas aquilo não passa de exibições para internacionalizar marcas e faturar dinheiro, não é o futebol real.
Mesmo dentro do nicho que ama futebol, tem sido muito legal ver o engajamento quando são jogadas edições da Eurocopa e da Copa das Nações Africanas. Os torneios equivalentes na Ásia sofrem com o fuso horário, e a Copa Ouro, da Concacaf, não é exatamente um primor de futebol.
A Copa América se queimou com o excesso de edições. Foram três entre 2019 e 2024. Mas, quando o Brasil ia bem, como quando ganhou em 1997 e 1999 de maneira consecutiva, provavelmente menos gente reclamava, embora já fosse chato ser realizada de forma bienal.
Vivemos de fato uma era na qual as pessoas são mais fechadas em bolhas e convivem na internet apenas com quem pensa igual a elas. Mas qualquer bolha vem falando se Neymar deve ou não jogar a Copa do Mundo.
É o poder que a Copa tem de pautar o futebol.
Daqui a menos de um mês, milhões e milhões de reais vão circular nos jogos do Brasil em bebidas, comidas, festas, confraternizações, patrocínios, e milhões de brasileiros vão se ligar na TV Globo, SBT, CazéTV, sportv, N Sports e GE TV para ver o maior evento de um só esporte do planeta.
Um poder que a Copa do Mundo de Clubes, um torneio muito legal que esperamos que seja mantido fixo no calendário da Fifa a cada quatro anos, não terá jamais. Pois ignorar um campeonato que o rival joga enquanto seu time fica vendo pela TV é muito mais fácil do que um evento que ainda prende a atenção até de quem não torce por nenhum clube.
A parcela que, por sinal, é a maioria da população. No próximo domingo, várias dessas pessoas vão comentar no almoço se Neymar vai ou não para a Copa do Mundo.