Vimos uma mudança recente nos direitos de transmissão da Libertadores, com a rescisão de contrato da Globo e o SBT como emissora que transmitirá o torneio até 2022. Só que ainda faltava um pacote a ser definido. A Globo pagava pelos direitos de TV aberta e um dos pacotes de TV fechada, que era transmitido pelo SporTV. Era justamente este que estava ainda sem dono. Segundo a Máquina do Esporte, a Confederação Sul-Americana de Futebol decidiu criar um canal próprio para a transmissão das partidas e que será em modelo Pay Per View (PPV).

O canal será produzido em parceria com a Band, através do seu canal Bandsports. Quem é assinante do canal, porém, não terá acesso. O canal terá identidade da Conmebol e será inicialmente oferecido pelas operadoras Claro e Sky (as duas maiores do país). Para ter esses canais, será preciso fazer uma assinatura à la carte, assim como já é feito com o Premiere, por exemplo.

O canal irá transmitir apenas os jogos que eram do SporTV, além dos jogos da Sul-Americana. O DAZN, tal qual a Globo, mudou a estratégia e rompeu o contrato que tinha com a Conmebol para a transmissão da Sul-Americana, e os jogos estavam sem transmissão. As partidas serão absorvidas pelo novo canal, negociado por Conmebol, FCDiez Media e IMG, as duas últimas contratadas pela primeira para negociação de direitos de transmissão. A IMG é responsável por negociar diversos direitos de transmissão, como, por exemplo, do Campeonato Italiano – que foi vendido à Band e ao Bandsports, inclusive. E, não por acaso, será o Bandsports o canal responsável pela operação do canal da Conmebol, ainda segundo a Máquina do Esporte.

É importante ressaltar que o novo canal não irá transmitir todos os jogos da Libertadores, apenas os que faziam parte do pacote do SporTV. O canal esportivo do grupo Globo tinha direito à segunda opção dos jogos de terça e quarta-feira. O pacote de primeiras opções pertence ao Fox Sports, do grupo Disney.

O preço foi divulgado nesta segunda-feira: R$ 40 por mês. Uma ideia estúpida, considerando a comparação com outros serviços similares e até a situação econômica do país. Parece difícil vender a ideia de assinar um canal PPV sem que tenha todos os jogos do torneio, ou ao menos seus principais. Uma decisão que parece tomada por quem não conhece o mercado brasileiro – e, sinceramente, talvez nem conheça o sul-americano também.

As transmissões começam já nesta terça-feira, 15, com os jogos a seguir:

Terça-feira, 15 de setembro:

19h15 – Jorge Wilstermann (BOL) x Athletico-PR (BRA)

21h30 – Binacional (PER) x LDU (EQU)

21h30 – Santos (BRA) x Olímpia (PAR)

Quarta-feira, 16 de setembro

19h15 – Mérida (VEN) x Alianza Lima (PER)

21h30 – Universidad Católica (CHI) x Grêmio (BRA)

21h30 – Independiente Medellín (COL) x Caracas (VEN)

Quinta-feira, 17 de setembro

17h – Racing (ARG) x Nacional (URU)

Preço para o torcedor só aumenta

A diversidade de canais transmitindo a Libertadores poderia ser benéfica, mas o que se vê é que quem pagará essa conta é o torcedor. Para quem quiser assistir a todos os jogos do torneio, será preciso ser assinante do Fox Sports e agora também deste novo canal próprio da Conmebol. Ao menos ainda será possível ver jogos em TV aberta com o SBT.

Assistir futebol no Brasil está cada vez mais caro. Porque, afinal, de contas, já há o Premiere como um PPV que é bastante caro para o principal torneio do país (R$ 79,90 nas operadoras ou R$ 59,90 exclusivamente pela internet). Ter os canais esportivos, SporTV, Fox Sports, ESPN e Bandsports exige a assinatura de algum serviço de TV por assinatura ou de serviços à la carte como o Globoplay (a partir de R$ 22,90 + R$ 49,90 para ter os canais, como o SporTV, ao vivo), o UOL Esporte Clube (R$ 49,90 para ter os canais ESPN, Fox Sports e o EI Plus) ou o Guigo TV (R$ 19,90 pelo pacote básico com diversos canais nacionais e internacionais e R$ 9,90 para incluir canais ESPN e o EI Plus). O Bandsports ainda é oferecido só pelas operadoras de TV por assinatura. Isso sem falar no DAZN (R$ 19,90), que ainda possui um jogo por rodada do Campeonato Inglês e a Série C como principais atrativos.

A ideia de uma diversidade de canais transmitindo futebol é positiva, mas a prática é que ficou pior para o torcedor. Por um lado, veremos a opção de Campeonato Italiano na TV aberta, na Band, e a manutenção da Libertadores, com o SBT. É possível que a RedeTV ainda transmita a Sul-Americana, uma negociação ainda em andamento. O Brasileirão e Copa do Brasil também continuam na TV aberta, com a Globo. Mas para ver todos os jogos, ou ao menos os jogos do seu time, será preciso assinar vários desses serviços citados no parágrafo acima.

Para quem gosta de futebol internacional então, aí a coisa complica mais. Para acompanhar o Inglês e o Espanhol, é preciso assinar os canais ESPN e Fox Sports; para o Italiano, Bandsports; para a Champions League, a TNT ou o EI Plus. Está cada vez menos acessível ver futebol na TV.

Todo esse cenário deve aumentar a pressão nas operadoras, para oferecerem os serviços completos, nos canais, que cobram cada vez mais, e também aumentar a pirataria, especialmente com os serviços de IPTV que prometem todos os canais citados a um preço ínfimo em comparação com as atuais assinaturas de TV.

É bem provável que vejamos campanhas antipirataria em breve, enquanto a tão esperada pluralidade de canais tem significado mais gastos para o torcedor. Está na hora de discutir isso também, porque o futebol está se tornando mais e mais difícil de ser acompanhado por quem gosta do esporte.

As consequências a longo prazo podem ser bastante graves. A última pesquisa de torcidas da Datafolha, divulgada em setembro de 2019, já mostra algo que clubes e federações precisam ficar atentos: a maior torcida do Brasil é a dos sem time, com 22%, maior que Flamengo (20% e Corinthians (14%). Se for feita uma pesquisa que pergunte sobre o interesse por futebol, ou analisasse isso de alguma forma, os números seriam ainda mais assustadores. Muitos até torcem para algum time, mas ligam pouco para o esporte e, portanto, não são consumidores.

A dificuldade para ver o futebol pode agravar esse quadro, o dos interessados por futebol. O esporte é um nicho, que é potencializado pela exibição em canais abertos, mas parece que a tendência pode ser uma redução disso. Ter o Premiere já era caro e, com tudo isso, talvez seja preciso escolher o que pagar para assistir. Nesse cenário, dá para dizer que o apaixonado por futebol precisa gastar cada vez mais.

Isso cria dois problemas: primeiro, quem pode pagar por isso, o oque por si já é um recorde importante; segundo, entre os que podem pagar, quem está disposto a pagar por isso? Eis duas questões que todos os envolvidos na gestão do futebol precisarão analisar para não sofrer mais. Porque como estão as coisas, é provável que os direitos de transmissão diminuam de valor, assim como patrocínios e ações de marketing relativas a futebol. Ou, ao menos, se tornará muito mais restrita a nichos – o que também tem um impacto em valores, normalmente para baixo.

O que sabemos é que para todos que gostamos de futebol, está cada vez mais caro acompanhar os principais campeonatos deste esporte que amamos. Pior ainda, a tendência parece ser mais restrição e mais gastos a curto prazo.