A menos de um mês da final da Libertadores, programada para o dia 23 de novembro, ninguém pode garantir que ela acontecerá em Santiago. Mesmo assim, a Conmebol segue insistindo que a final será na capital chilena e a Ministra do Esporte, Cecilia Pérez, do país ressaltou nesta terça que a ideia se mantém em ter o evento em Santiago. Isso apesar do governo chileno ter cancelado a reunião da cúpula da APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) e a conferência do clima COP-25 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2019). Apesar de todos os riscos que estão envolvidos na realização da final, a Conmebol insiste em dizer que ela acontecerá e será na capital chilena. O governo do país parece precavido em relação a outros eventos, mas menos em relação à decisão do principal torneio de clubes do continente.

O Chile vive um momento de instabilidade. O governo chileno decretou Estado de Emergência desde o dia 19 de outubro depois que os protestos escalaram e ganharam mais força – e mais violência. Foi essa situação que levou o governo do presidente chileno Sebastián Piñera a cancelar tanto APEC quanto a COP-25. A final da Libertadores, porém, foi mantida. O Chile fez muita força, com a união da Federação Chilena de Futebol (ANFP) e o governo para que Santiago vencesse a disputa para ser a primeira cidade a receber esse novo modelo de final da competição continental.

Sebastián Moreno, presidente da ANFP, afirmou na última terça-feira, pela primeira vez, que a partida entre River Plate e Flamengo, não era certa que iria acontecer em Santiago. “Há uma realidade nacional mais importante que o futebol”, disse o dirigente. Foi convocada uma coletiva de imprensa para esta quarta-feira com a Ministra do Esporte, Cecilia Pérez, a expectativa era o anúncio do cancelamento do evento. Mas o que aconteceu foi o contrário.

“Recebi uma ligação do presidente da Conmebol [Alejandro Domínguez]. Ratifiquei a ele, em nome do presidente Piñera, nosso compromisso de realizar a Copa Libertadores. Diferente do que aconteceu com a APEC e a COP-25, que são coisas diferentes”, afirmou Pérez. A APEC seria realizada nos dias 16 e 17 de novembro, enquanto a COP-25 seria nos dias 2 a 13 de dezembro. A final da Libertadores está programada entre esses dois eventos, no dia 23 de novembro. A Conmebol agradeceu o compromisso do governo chileno em manter a realização do jogo.

“Desde a Conmebol, agradecemos o compromisso demonstrado pelo Governo do Chile para garantir a segurança para celebração da Final Única da Conmebol Libertadores 2019. A final é a celebração do futebol com e para o povo chileno. Seguimos avançando”, diz uma publicação da entidade no Twitter.

O clima de instabilidade política não é novidade no Chile quando falamos de uma competição esportiva. Antes da Copa América de 2015, realizada no país, havia muitos protestos na rua, especialmente de estudantes, pressionando o governo da então presidente Michele Bachellet. A Copa América era vista como uma oportunidade para salvar o governo, como falamos na época. No fim, o Chile foi campeão, seu primeiro título na história, e a situação acabou melhorando para o governo – não por causa do sucesso do futebol, diga-se, mas com um clima menos problemático com a festa proporcionada pela taça.

Há um grande temor que aconteça algo similar ao que se viu em 2018, quando por conta de incidentes nas cercanias do estádio Monumental de Núñez, o jogo acabou adiado e transferido para Madri, deixando milhares de torcedores na mão. Como o jogo será em final única, muitos torcedores compraram ingressos e reservaram hotéis meses antes da definição dos finalistas. Além disso, os dois clubes começaram a vender ingressos das suas contas para seus torcedores. Mesmo com toda a indefinição que cerca o evento.

Pérez afirmou que está trabalhando com o Ministério do Interior para viabilizar a realização da partida. “É uma das tantas festas que fazem bem ao país. Vamos trabalhar em conjunto com o Ministério do Interior. Há conversas permanentes com a Conmebol para levar a cabo esta final. Restam dias para realizá-la e temos que fazê-la com todos juntos”, disse a Ministra do Esporte.

Apesar da intenção de colaboração, nenhum representante da ANFP foi convidado a participar da coletiva de imprensa do Ministério do Esporte, junto com Cecilia Pérez, segundo informação do jornal chileno La Tercera. Os membros da Federação Chilena de Futebol ficaram sabendo dos acontecidos pela imprensa.

Manter a final marcada para o dia 23, diante de tão poucas garantias que ela será realizada, é uma irresponsabilidade. Com as pessoas que vão até lá, que se arriscarão em um país em ebulição social, e com os próprios chilenos, que parecem mais preocupados com os alarmantes problemas que os fazem ir às ruas. Muitas pessoas seguem comprando ingressos para uma final que, na verdade, ninguém sabe se acontecerá como previsto inicialmente.

Estádio Nacional do Chile, em Santiago (Getty Images)

Segundo reportagem do Globoesporte.com, assinada por Martín Fernández e Raphael Zarko, o Paraguai já se ofereceu para sediar a final da Libertadores. Assunção receberá a final da Sul-Americana, no próximo dia 9. É uma possibilidade cogitada pela Conmebol, embora o discurso oficial continue sendo que a final será realizada em Santiago. A esta altura, parece mais uma torcida. E não é essa torcida que deveria ter peso para a entidade. A prioridade para a Conmebol deveria ser a torcida que estará no estádio. Torcer para tudo dar certo não é se preocupar com o torcedor, que, este sim, é o fundamental.

Enquanto isso, Conmebol e mesmo o governo do Chile parecem desconsiderar os riscos envolvidos em manter a final marcada, a poucos dias da realização. O exemplo vem do passado nem tão distante: Brasil em 2013, que vivia a sua onda de protestos por todo país, a competição esportiva se tornou um palco de protestos. Isso pode acontecer novamente em Santiago. E com um potencial ainda mais explosivo, já que temos torcida de clubes, muito mais passionais que torcidas de seleção, em um torneio muito mais importante que a Copa das Confederações. Simplesmente o torneio mais importante do futebol sul-americano.