Quem acompanha futebol internacional está acostumado a ver a briga pelo título na Turquia se restringir a três times: Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas, os três times considerados grandes do país, todos de Istambul. Nesta temporada, o que vemos é um futebol turco em grave crise financeira e, com isso, times que não costumam aparecer no topo da tabela estão ocupando essas posições. O líder é o Medipol Basaksehir, um time pouco conhecido, quase sem torcida, mas com uma ligação de peso: o presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Olhando de perto, o clube é um projeto político do presidente e do seu partido. Uma reportagem publicada pelo jornal El País mostra que Medipol Basaksehir e Erdogan estão ligados por muito mais do que preferência clubística do presidente.

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O Basaksehir é um clube da periferia de Istambul, fundado em 1990. Começou nas divisões amadoras, mas subiu na primeira temporada à terceira divisão. A história começa a se misturar com Erdogan em 1995. O então prefeito de Istambul tinha o projeto de tornar o bairro onde fica o clube, Basaksehir, um modelo do modo de vida conservador da população, aquela que é a sua grande apoiadora e o levou de prefeito a governador e de governador a presidente.

A ideia era que o bairro fosse um modelo do modo de viver dos mais tradicionais do Islã, sem a influência que consideram ruim de quem bebe álcool e não vestem as roupas tradicionais da religião. Ou seja: o bairro se tornou atraente para quem queria seguir de forma estrita os fundamentos e valores do Islã dentro da megalópole Istambul, que é uma cidade cosmopolita. Não por acaso, o bairro tem nomes de políticos, poetas e intelectuais de forte tradição islâmica. As mulheres, em sua grande maioria, se cobrem com o véu. Nos parques, é proibido passear com cachorros e andar de bicicleta.

Havia um projeto político e de poder ali também: levar desenvolvimento a um bairro de periferia, acelerando a urbanização e novos negócios em terrenos que estavam vazios. Com isso, aumentou uma relação que já era tradicional entre os políticos de tradição islã e construtores, algo que financiou o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), de Erdogan. O crescimento do bairro, planejado, foi alcançado: abriga atualmente 400 mil pessoas e o número deve aumentar, porque o local recebe muitos investimentos para construção de apartamentos.

Enquanto isso, o Basaksehir, então chamado de İstanbul Büyükşehir Belediyespor, jogada a terceira divisão. Ficou por lá até 1997, quando subiu para a segunda divisão. Foram mais 10 anos nessa divisão até que, em 2007, o clube alcançou a promoção à primeira divisão turca. Esta primeira passagem durou seis anos, até o clube ser rebaixado na temporada 2012/13. Na temporada seguinte, jogou a segundona, mas subiu imediatamente de volta à primeira divisão.

Em 2014, clube e Erdogan se entrelaçam de forma muito mais evidente. O clube era presidido desde 2006 por Göksel Gümusdag, vereador pelo AKP e casado com uma sobrinha da esposa de Erdogan. Foi Gümusdag que levou o time à primeira divisão, caiu, mas rapidamente voltou. Foi em 2014 que o clube foi privatizado e ali a ligação com o governo se intensificou: o clube foi comprado por € 2,5 milhões por empresas próximas ao governo e o clube foi rebatizado como Istambul Basaksehir. Não por acaso, ganhou o nome do bairro modelo, o bairro que é um projeto político – e econômico – de Erdogan e tem  as cores do seu partido, o AKP.

Foi construído um estádio para 17 mil pessoas e a inauguração, também não por coincidência, foi na reta final das eleições que levariam Erdogan a ser o presidente da Turquia, depois de três mandatos como primeiro ministro do país. O próprio presidente entrou em campo no jogo de inauguração do estádio, vestindo a camisa 12, e marcou três gols – leve em conta que é um jogo festivo e, bem, quem faria uma entrada dura em Erdogan, afinal? A camisa 12, vestida por Erdogan, foi aposentada pelo clube em homenagem ao presidente, um apaixonado por futebol que jogou em ligas amadoras na juventude.

Erdogan no jogo de inauguração do estádio do Basaksehir (Foto: reprodução)

O Basaksehir passou a ter uma política de altos gastos em contratações, a ponto de ter no elenco atualmente alguns nomes muito conhecidos do público que assiste futebol europeu, sendo o principal deles uma estrela local: Arda Turan, contratado junto ao Barcelona. Recentemente, contratou ainda Robinho, que já estava na Turquia defendendo o Sivasspor, e Demba Ba, ex-Newcastle, que estava na China. Tem também Gäel Clichy, ex-Arsenal e Manchester City, Emmanuel Adebayor, ex-Arsenal, Manchester City e Tottenham, Eljero Elia, holandês que já defendeu a seleção holandesa, e Gokhan Inler, ex-Napoli. Ainda tem no elenco os brasileiros Marcio Mossoró, ex-Braga, e Júnior Caiçara, ex-Schalke 04. Por fim, o capitão do time é outro nome conhecido: Emre Belözoglu, de 38 anos, que passou por grandes clubes, Galatasaray e Internazionale.

O investimento ao longo dos últimos quatro anos tem rendido: o clube passou a ocupar os primeiros lugares da tabela, terminando as últimas quatro temporadas entre os quatro primeiros colocados, além de ter sido finalista da Copa da Turquia duas vezes. Os resultados começaram a aparecer à medida que a folha de pagamento cresceu. Atualmente, o clube gasta cerca de € 40 milhões por temporada em salários, algo que poucos clubes na Turquia têm capacidade de fazer. Em uma temporada que os grandes clubes sofrem com problemas financeiros, o Basaksehir vai sobrando.

O clube tem investido em categorias de base e recrutamento de jogadores. Conseguiu um lucro altíssimo com Cengiz Ünder, que contratou por € 500 mil e vendeu por € 15 milhões para a Roma. Além disso, é um clube que não tem torcida, nem sócios, funciona como empresa. Faz um planejamento a longo prazo que os clubes grandes raramente conseguem fazer – também por incompetência, já que má gestão é um dos problemas do futebol turco.

Um clube privado, que funciona como empresa, com ligações muito íntimas com Erdogan, não desperta muita simpatia dos torcedores de futebol na Turquia, especialmente dos grandes times de Istambul, conhecidos pela paixão dos seus seguidores. O clube é visto como artificial e um projeto político de Erdogan, o que é reforçado pelo estádio vazio do atual líder do Campeonato Turco: apenas 2.464 torcedores, em média, frequentam o estádio de 17 mil lugares. Algumas das poucas centenas de torcedores que se fazem presidentes nos estádios é a torcida organizada 1453. O nome é uma referência ao ano de conquista de Constantinopla pelos otomanos. Esse é um fato muito valorizado pelos nacionalistas e islamistas turcos.

Arda Turan, do Medipol Basaksehir (Foto: reprodução)

A falta de público irrita o presidente da Turquia. Erdogan exigiu, em reunião do partido, que as arquibancadas do time precisam estar cheias. O assunto futebol é constante em reuniões dos membros do partido, e não por acaso. As empresas que patrocinam o clube, com algumas delas públicas, como Turkish Airlines, o banco Ziraat, e outras empresas que possuem contratos com o governo Erdogan. Entre essas empresas, o consórcio que construiu o terceiro aeroporto em Istambul e a construtora Makro, responsável por obras no bairro de Basaksehir. É essa a empresa, aliás, que ajuda a bancar o salário de € 4 milhões de Arda Turan, a grande estrela do time.

Além da ligação do presidente do clube, casado com uma sobrinha da esposa de Erdogan, há outros pontos de contato entre Basaksehir e o presidente. Um dos diretores do clube é Mehmet Ersoy, empresário e atual ministro da Cultura e Turismo. Outro é Fahrenttin Koca, ministro da saúde, fundador do consórcio de saúde privada Medipol, que se tornou a principal patrocinadora do clube e, mais do que isso, passou a ser o nome do time. Há outros políticos envolvidos na gestão do clube, estes vereadores de Istambul, como o diretor da empresa municipal de obras e o diretor da empresa municipal de turismo.

Empresários dos ramos de construção, mineração e turismo estão no conselho do clube, muitos deles com negócios entre si. Um dos exemplos é Kagan Sahin, vereador pelo AKP, que tem empresas familiares que ganharam mais de 30 licitações públicas municipais. Muitas das licitações foram feitas pela Bel-Tur, empresa do município de Istambul, que tem como diretor Ahmet Ketenci, mais um diretor do Basaksehir, que também tem ligação familiar com Erdogan: é cunhado de um dos filhos do presidente turco.

O Basaksehir, um projeto político que carrega traços culturais, econômicos e até religiosos, se aproxima de conquistar o título do Campeonato Turco. Um título que certamente será imensamente comemorado por Erdogan, um político, no mínimo, bastante controverso quando falamos de política internacional.

Erdogan em inauguração do estádio do Basaksehir (Foto: reprodução0