Na frieza dos números, o Sevilla volta à liderança do Campeonato Espanhol após um curto intervalo. Por conta do saldo de gols, os andaluzes assumiram a ponta na primeira rodada da atual temporada, ao golearem o Rayo Vallecano, antes de recuperarem a primazia neste final de semana. No entanto, a primeira colocação desta vez possui um valor simbólico muito maior. Primeiro, por reconhecer o excelente momento vivido pelo time de Pablo Machín. Sensação à frente do Girona, o treinador chegou ao Nervión há poucos meses e, além de deixar para trás a instabilidade que atrapalhou a campanha anterior, consegue deixar suas marcas em um time intenso. A vitória sobre o Real Madrid já serviu de cartaz aos rojiblancos, que agora se aproveitam das interrogações sobre os gigantes para alcançarem o topo. A visita ao Camp Nou, na volta da Data Fifa, será o verdadeiro termômetro. Além do mais, a ocasião confere uma superioridade que os sevillistas não experimentavam há mais de uma década.

Desde a temporada 2006/07 que o Sevilla não assumia a liderança de La Liga isoladamente – ou, em outros termos, em uma rodada que não fosse a primeira. Naquela ocasião, os andaluzes fizeram uma campanha histórica. Treinados por Juande Ramos, ficaram em primeiro nas três primeiras jornadas. Caíram na sequência, mas sempre se intrometendo na luta pela primeira colocação. Foram ponteiros ainda na nona rodada, no intervalo entre a 16ª e a 18ª, assim como na 25ª, quando tomaram o topo justamente depois de derrotarem o Barcelona. Ao final da campanha, os rojiblancos não mantiveram o ritmo e terminaram em terceiro, cinco pontos atrás do campeão Real Madrid e do vice Barça – que perdeu o troféu nos critérios de desempate. De qualquer maneira, representou a melhor campanha do clube no Espanhol em 37 anos. E a torcida não terminaria a temporada de mãos abanando, com uma “tríplice coroa” entre a Supercopa Europeia, a Copa do Rei e a Copa da Uefa, faturando nesta o bicampeonato.

A quem nota o Sevilla atualmente, é importante lembrar que o clube vinha em período de transformação. Os andaluzes chegaram a ser rebaixados duas vezes na virada do século, em tempos de coadjuvantismo em relação ao rival Betis. A reconstrução começa a partir de 2001, com o retorno à elite. No ano seguinte, o advogado José María del Nido assume a presidência e inicia um projeto de fortalecimento econômico. Confiou na manutenção do técnico Joaquín Caparrós e trouxe diretor esportivo Monchi, o grande responsável pelas boas contratações feitas pelos rojiblancos desde então. A partir de 2003/04, os sevillistas voltaram a aparecer entre os seis primeiros na tabela e frequentaram a Copa da Uefa. Já em 2005, chegou Juande Ramos, referendado principalmente por sua passagem pelo Rayo Vallecano na virada do século, trabalhando depois em Betis e Málaga.

Aquela temporada 2005/06 marcava um salto nas ambições do Sevilla. Até então, o clube havia montado um time competitivo pautando-se principalmente na ascensão de jogadores da base e em apostas concentradas entre jovens brasileiros – como Dani Alves, Adriano, Renato e Júlio Baptista. O momento, entretanto, permitia aos andaluzes buscarem mais. A equipe participaria da Copa da Uefa pelo segundo ano consecutivo. Além disso, as vendas de Sergio Ramos e Júlio Baptista ao Real Madrid deixaram €47 milhões em caixa, uma fortuna na época. Monchi investiu metade disso e ainda assim trouxe vários jogadores de peso. Foi quando ingressaram ao elenco Luis Fabiano, Frédéric Kanouté, Enzo Maresca, Ivica Dragutinovic, Julien Escudé, Andrés Palop e Javier Saviola.

A primeira temporada de Juande Ramos já foi inesquecível. Montando um time forte na defesa, direto em suas ações, com bom apoio pelos lados e centroavantes de presença física, o treinador levou o Sevilla ao seu primeiro título continental, faturando a Copa da Uefa 2005/06. Deixou pelo caminho Lokomotiv Moscou, Lille, Zenit e Schalke 04, antes de atropelar o Middlesbrough por 4 a 0 na decisão, realizada em Eindhoven. Já no Campeonato Espanhol, os sevillistas foram ganhando fôlego. Começaram mal a campanha, com apenas três vitórias nas primeiras dez rodadas. A recuperação veio a partir de outubro, vencendo o Valencia e o clássico contra o Betis. A partir de então, aos poucos a equipe galgou degraus, primeiro se firmando na zona de classificação à Copa da Uefa. Mas nada comparado ao que aconteceu nas cinco rodadas finais.

Mesmo conciliando a maratona na frente continental, o Sevilla emendou cinco vitórias consecutivas na Liga a partir do fim de abril. Derrotou Real Sociedad, Getafe e Málaga, até viver uma semana de sonhos depois de 10 de maio. Naquela data, asseguraram a Copa da Uefa. Três dias depois, receberam o Barcelona no Ramón Sánchez-Pizjuán e, contra um time misto dos já  campeões, venceram o compromisso por 3 a 2. Por fim, a torcida veria outro grande jogo em 16 de maio. No Nervión lotado, os sevillistas recebiam o Real Madrid. Os merengues estavam repletos de estrelas e provaram sua força em 26 minutos, abrindo vantagem de dois gols, em dois tentos de Beckham. Despertaram a fúria dos anfitriões. Entre os 28 e os 45 do segundo tempo, o Sevilla anotou quatro gols. Javier Saviola marcou dois, enquanto Luis Fabiano e Jesús Navas contribuíram com gol e assistência. Na volta do intervalo, Zinedine Zidane (em seu último jogo pelo clube) ainda descontou, mas nada que frustrasse o grande triunfo por 4 a 3. Uma pena que, por conta do confronto direto, o Osasuna abocanhou a quarta vaga na Champions. Ser relegado outra vez à Copa da Uefa, ao menos, não seria tão ruim assim, como se provou meses depois.

O Sevilla entrou para a temporada 2006/07 ainda mais forte. Manteve a sua base e ainda trouxe bons reforços. O mais renomado deles era Javier Chevantón. Ganhavam ainda Andreas Hinkel, Christian Poulsen (este, se tornaria o mais importante ao clube) e Duda. Por tudo o que o time fizera nos meses anteriores e por seus sinais de crescimento, não seria exagero apontá-lo como candidato forte a se classificar à Liga dos Campeões. Fariam mais, e isso ficou claro desde o primeiro compromisso da temporada. O Barcelona era o adversário na Supercopa Europeia e estava completo, com trinca de atacantes composta por Messi, Eto’o e Ronaldinho. Terminaram pulverizados pelos rojiblancos. Renato e Kanouté abriram vantagem no primeiro tempo. Já nos instantes finais, após pênalti sofrido por Puerta, Maresca fechou a inapelável vitória por 3 a 0 em Mônaco. Resultado imenso, que ressaltava a qualidade do grupo.

Aquele elenco do Sevilla era muito bem servido em todos os setores. No gol, Andrés Palop se firmava como uma das grandes lendas do Nervión. Dani Alves voava baixo na lateral direita, exibindo todo o seu potencial. O capitão Javi Navarro era a referência no miolo de zaga, quase sempre acompanhado por Julien Escudé, em grande momento. Já na lateral esquerda, geralmente um pouco mais de contenção com a presença de Ivica Dragutinovic ou David Castedo. As formações variavam entre o 4-4-2 e o 4-3-1-2, mas a certeza do lado direito do meio-campo era Jesús Navas, muito incisivo e de parceria incondicional com Dani Alves. Na esquerda, o uso costumeiro de Adriano, outro com grande capacidade no apoio, ou a preferência pelo coringa Antonio Puerta, prata-da-casa que logo conquistou o seu espaço. Na faixa central, havia a proteção de Christian Poulsen e a onipresença de Renato (que atuava mais adiantado), além das opções pelo veterano Josep Lluis Martí ou por Enzo Maresca.

O diferencial do Sevilla, todavia, estava no comando de seu ataque. Luis Fabiano e Frédéric Kanouté pareciam se entender por telepatia em certos momentos. Dois centroavantes de força física, que se combinavam bem e ajudavam a aproveitar as outras virtudes da equipe. Enquanto a potência sobrava no brasileiro, o malinês aliava uma técnica refinada e incomum ao seu tamanho. Com a saída de Saviola, Javier Chevantón se tornou uma alternativa bem utilizada por Juande Ramos. Além disso, na janela de transferências de janeiro, Monchi buscaria um jovem Aleksandr Kerzhakov. Kanouté anotou 27 gols naquela temporada, com mais 14 para Luis Fabiano. Méritos também a Dani Alves, desde então o grande garçom e válvula de escape fundamental para o funcionamento da engrenagem.

O ritmo forte do Sevilla no primeiro turno determinou sua boa campanha no Espanhol. A equipe venceu 12 de seus primeiros 16 jogos, com um empate no período. Alguns resultados são notáveis, a começar pelo Dérbi da Andaluzia na terceira rodada, disputado no Nervión. Kanouté balançou as redes duas vezes, mas o destaque foi mesmo Renato, que decretou a virada por 3 a 2 aos 41 do segundo tempo. O brasileiro driblou dois verdiblancos dentro da área, antes de soltar a pancada no ângulo, fazendo as arquibancadas tremerem. Em novembro, os andaluzes maltrataram o Valencia de Cañizares, David Silva, David Villa e Morientes, anotando 3 a 0 no marcador. Já em dezembro, novo triunfo sobre o Real Madrid em casa, desta vez por 2 a 1. Beckham abriu o placar com um golaço de falta. O empate saiu logo na sequência, em lance muito brigado. Luis Fabiano estalou o travessão de Iker Casillas e, no rebote, Kanouté marcou. Já no segundo tempo, Chevantón saiu do banco para emendar um voleio maravilhoso, que confirmava a liderança de sua equipe.

A virada do ano não foi boa ao Sevilla. Entre janeiro e fevereiro, o time venceu apenas duas partidas por La Liga, acumulando empates, embora um dos triunfos tenha acontecido diante do Atlético de Madrid. A sequência ruim permitiu que o Barcelona assumisse a primeira colocação, mas a retomada aconteceu justamente no confronto direto, disputado no Nervión. O pesadelo parecia se concretizar com um gol de cabeça de Ronaldinho. Já aos 29, Aitor Ocio foi expulso ao cometer um pênalti, deixando os anfitriões com um a menos. O fracasso anunciado foi negado pelas pernas de Palop, que defendeu a cobrança de R10. Sem se acuar, os rojiblancos empataram dez minutos depois, em passe de Dani Alves para Kerzhakov girar e bater no canto. E mesmo com 10, os andaluzes buscaram a virada no início da segunda etapa. Falta na entrada da área que Dani Alves bateu no canto de Victor Valdés e contou com a colaboração do goleiro. As expulsões de Ludovic Giuly e Gianluca Zambrotta, pouco depois, mudaram o cenário. Pela superioridade dos sevillistas, até ficou barato o placar de 2 a 1.

O Sevilla, todavia, não soube capitalizar o momento. O tropeço para o Gimnàstic custou a liderança logo na semana seguinte. E quando dava sinais de recuperação, o time perdeu o jogo decisivo no Estádio Santiago Bernabéu. Em franca ascensão durante o segundo turno, o Real Madrid contou com o brilho de Ruud van Nistelrooy para construir a virada por 3 a 2 e tomar a vice-liderança no início de maio. Embalaria para ficar com a taça, enquanto os rojiblancos sentiam a exigência de diferentes competições ao mesmo tempo. A terceira colocação, de qualquer maneira, já valeu bastante. Recolocou o clube na Liga dos Campeões 50 anos depois de sua primeira (e, até então, única) participação no torneio continental.

Pois a alma copeira do Sevilla valeu mais naquela temporada de 2007/08. Na Copa do Rei, o time marcaria a história principalmente pela classificação sobre o Betis nas quartas de final. Dentro do Benito Villamarín, Kanouté abriu o placar no segundo tempo e ia dando a classificação aos rojiblancos. Durante a comemoração, um copo de cerveja atingiu em cheio a cabeça de Juande Ramos, que precisou ser atendido pelos médicos. O clássico foi suspenso, os sevillistas confirmaram a vaga na retomada do duelo um mês depois e passaram pelo Deportivo de La Coruña nas semifinais, antes de baterem o surpreendente Getafe na decisão. Kanouté, sempre ele, anotou o tento que garantiu a vitória por 1 a 0 e a taça que o clube não faturava desde a longínqua temporada de 1947/48.

Já na Copa da Uefa, nova glória. O Sevilla nadou de braçada no Grupo C, contra Braga, Grasshoppers, AZ e Slovan Liberec. Conquistou duas vitórias sobre o Steaua Bucareste, antes do épico contra o Shakhtar Donetsk nas oitavas. Depois do empate por 2 a 2 na Andaluzia, com Enzo Maresca evitando a derrota no fim, os rojiblancos só se safaram da eliminação na Ucrânia porque repetiram o 2 a 2 aos 49 do segundo tempo, graças a uma cabeçada agonizante de Andrés Palop, já desesperado na área adversária. Seria a eternização do goleiro. O placar agregado forçou a prorrogação, na qual Chevantón assegurou a classificação.

O adversário nas quartas de final era o Tottenham, de Robbie Keane e Dimitar Berbatov no ataque. A virada por 2 a 1 no Nervión valeu a classificação, antes do empate por 2 a 2 em White Hart Lane, no qual os visitantes chegaram abrir vantagem de dois gols em oito minutos. As semifinais guardaram a revanche contra o Osasuna e, apesar do tento solitário de Roberto Soldado na ida, Renato e Luis Fabiano deram o troco na Andaluzia, garantindo mais uma final. Desta vez, o confronto doméstico contra o Espanyol aconteceu no Hampden Park, em Glasgow. Adriano deixou o Sevilla em vantagem aos 18 minutos, com assistência de Palop, que havia iniciado o contra-ataque graças a um lançamento com as mãos. Dez minutos depois, Albert Riera igualou em um chute desviado. O empate prevaleceu até a prorrogação, quando Navas cruzou para Kanouté recolocar os sevillistas em vantagem. Contudo, a cinco minutos do fim, Jônatas acertou uma bomba de fora da área e levou a definição aos pênaltis. Na marca da cal, por fim, não haveria outro herói possível. Palop defendeu três cobranças e, mesmo que Dani Alves tenha isolado a sua, o bicampeonato era dos rojiblancos.

Para a temporada seguinte, o Sevilla até manteve o seu elenco, mas precisou lidar com diferentes dificuldades. A maior delas foi a morte súbita de Puerta, que sofreu um ataque cardíaco dentro da área durante o duelo com o Getafe, na primeira rodada do Campeonato Espanhol. O impacto da tragédia era óbvio e o time demorou a engrenar na competição, na parte inferior da tabela durante as primeiras rodadas. Ao final de outubro, Juande Ramos rescindiu seu contrato para dirigir o Tottenham. Manolo Jiménez assumiu e conseguiu recuperar o ânimo dos andaluzes. Com um segundo turno bem mais consistente, a equipe terminou em quinto, além de ter chegado às oitavas de final da Liga dos Campeões, com direito a uma vitória sobre o Arsenal. Depois, em 2008/09, os sevillistas voltariam a repetir o terceiro posto em La Liga, mesmo vendendo vários jogadores importantes, mas sem ocupar a liderança nenhuma vez ao longo da campanha e bem mais distantes do Barcelona de Pep Guardiola.

Sobre o atual sucesso, vale lembrar que a primeira colocação precoce não é garantia alguma. Ao longo deste século, até mesmo Getafe e Levante chegaram a ser líderes do Campeonato Espanhol na oitava rodada, sem manter a toada. E o próprio Sevilla tinha uma campanha similar à atual em 2017/18, com 16 pontos conquistados em seus oito primeiros compromissos, embora ocupasse apenas a quinta colocação, sem a colaboração dos grandes. Passou a oscilar pouco depois e atravessaria várias mudanças. Desta vez, o simbolismo é o que prevalece. E a lembrança de 2006/07, ao menos, serve de inspiração para uma nova grande história. Jesús Navas é o elo.