Há 50 anos, a cerimônia de premiação dos 200 metros nos Jogos Olímpicos extrapolava o mero senso esportivo. Os americanos Tommie Smith e John Carlos deixavam de ser atletas, vencedores do ouro e do bronze, respectivamente. Eles se transformavam em símbolos da luta pela igualdade racial. De punhos cerrados e com luvas pretas, ambos faziam em plena Olimpíada a saudação ligada ao movimento Black Power. Além disso, também estavam descalços, enquanto usavam em suas roupas símbolos em prol dos direitos humanos – algo abraçado pelo australiano Peter Norman, segundo colocado na prova e que os apoiou diretamente na ação. A imagem gerou as vaias na Cidade do México e uma série de críticas aos três esportistas. O reconhecimento, ao menos, não demoraria a acontecer. Atualmente, o gesto é lembrado como um dos protestos mais emblemáticos já realizados no esporte mundial. Vai além de conotações políticas, se concentrando na maneira como representou a busca por direitos.

O futebol não se manteve alheio à atitude de Tommie Smith e John Carlos, afinal. O punho cerrado e erguido se reproduziu em diferentes estádios, sobretudo no Brasil. Em tempos de repressão no país, Reinaldo usava o sinal para se contrapor ao regime militar. Repetiu diversas vezes o ato, sobretudo depois de seus muitos gols pelo Atlético Mineiro na virada da década de 1970. “Eu simplesmente usava minha tribuna como pessoa pública para chamar atenção. Usava meu gesto como propaganda da necessidade de democracia. Dava uma entrevista ou outra, mas nunca fui uma pessoa engajada, de participar dos movimentos. Minha atividade era jogar bola”, contou Reinaldo, à Trivela em 2014. O veterano acredita que perdeu a titularidade da Seleção durante a Copa de 1978 por causa do símbolo, repetindo Smith e Carlos na comemoração de seu gol no jogo de estreia.

Praticamente na mesma época, Sócrates passou a erguer o seu punho cerrado. Seu gesto entrava principalmente no contexto de redemocratização do Brasil e das Diretas Já. Quando foi contratado pela Fiorentina, o meio-campista chegou a ser questionado pelo presidente Ranieri Pontello sobre a postura. Respondeu da seguinte maneira, segundo sua biografia: “Para mim, isso é o símbolo da minha vida. Não sei exatamente como começou, mas isso me lembra o movimento Black Power dos Jogos Olímpicos em 1968. Tem a ver com um monte de coisas. É um símbolo de comunicação com o público, seja qual for esse comunicação”.

E mesmo 50 anos depois, a imagem de Tommie Smith e John Carlos continua celebrada no futebol. Em suas redes sociais, Romelu Lukaku se lembrou do protesto e exaltou os americanos. Além de postar sua foto com os punhos cerrados, divulgou uma campanha da Puma, que doará US$1 a cada imagem compartilhada. O dinheiro será revertido para a American Civil Liberties Union, organização criada em 1920 nos Estados Unidos para lutar pela igualdade de direitos. Sergio Agüero e Mario Balotelli, também patrocinados pela companhia alemã, se integraram ao ato. Realidade distinta daquela ocorrida na Cidade do México, mas que acaba fomentando a conscientização.


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