A CBF divulgou nesta quinta-feira o Calendário 2020 do futebol brasileiro, que era muito esperado depois da entidade dizer para quem quisesse ouvir que não haveria mais jogos em datas Fifa a partir do ano que vem. E com o calendário divulgado, fica claro: a CBF mentiu e segue mentindo sobre não jogar mais em datas de jogos de seleção. Não se trata apenas de ignorar a Copa América – que terá NOVE rodadas de Campeonato Brasileiro ao longo do torneio, mas de jogar no dia seguinte ou mesmo dois dias depois dos jogos de seleções.

“Assumimos o compromisso de aperfeiçoar cada vez mais o calendário do futebol brasileiro e estamos fazendo isso com diálogo e com firmeza de objetivos. Com isso, ganham todos: clubes, federações e a Seleção Brasileira”, disse o presidente da CBF, Rogério Caboclo, ao site da entidade. “Conseguimos definitivamente liberar as Datas Fifa, para que partidas de clubes e Seleção não se sobreponham. Não podemos concorrer com nós mesmos”.

Bonitas palavras do presidente, mas são apenas isso: palavras, que se desintegram no vazio do sentido ao se olhar com um pouco mais de atenção ao calendário. Palavras que não se sustentam ao ver que será muito improvável que os jogadores convocados para partidas de seleção consigam jogar a rodada seguinte da data Fifa.

Na Europa, depois do jogo de terça-feira das seleções, os clubes voltam a campo apenas no sábado ou domingo. Aqui, voltam a campo na quarta-feira. Não dá tempo nem de esfriar e nem respeitar as orientações de fisiologistas e de sindicatos sérios de jogadores, que dizem que é importante ter ao menos 66 horas de distância entre um jogo e outro – e idealmente, 72 horas.

“Importante registrar que temos a responsabilidade de acomodar em datas ao longo do ano todos os compromissos contratuais assumidos pelos clubes. É uma construção complexa para conciliar Datas Fifa, competições continentais, competições nacionais e os campeonatos estaduais”, afirma Manoel Flores, Diretor de Competições da CBF, ao site da entidade.

O problema dessa fala é que a CBF não conseguiu respeitar nenhuma data Fifa. E, portanto, a fala de Manoel Flores é inócua: mostra que os dirigentes foram incompetentes, ao menos na confecção do calendário, embora politicamente pareçam continuar sendo muito hábeis.

O modus operandi da CBF parece o de alguns políticos: mentem descaradamente, mentem incansavelmente, mentem repetidamente, até que acreditem. É uma tática que vem sendo eficaz, porque você certamente lerá em outros lugares manchetes com “CBF divulga calendário respeitando datas Fifa”, que é o que eles dizem.

A tática consiste em dizer mentiras, para que essas mentiras sejam reproduzidas como falas suas em manchetes e, assim, a mentira seja institucionalizada. É uma tática velha, meio carcomida, mas altamente eficiente. É só pensar que você lembrará o quanto os políticos usam esse ardil, desde que o mundo é mundo – e mesmo aqueles que dizem que são a nova política e criticam a velha.

Datas Fifa respeitadas? Nem a pau, Juvenal

Rogério Caboclo, presidente da CBF (Leandro Lopes / CBF)

A CBF, pela boca dos seus dirigentes, dizer que irá respeitar a data Fifa não é algo exatamente novo. Víamos isso acontecer com os presidentes anteriores, como José Maria Marin (um notório político, preso em Nova York por crimes financeiros), Marco Pólo Del Nero (suspeito de crimes financeiros e que não pode sair do país, com medo de ser preso pelo FBI) e de José Nunes, ou Coronel Nunes, como ficou conhecido. Mas este último nem conta. Ele sequer sabia que existiam ligas de clubes em outros países.

As Datas Fifa são sempre de quinta até terça, com calendário para que as seleções façam dois jogos dentro desse período. A Uefa, por exemplo, costuma espalhar os jogos em todos os dias, concentrando a maioria em quinta/sexta e segunda/terça. A Conmebol normalmente joga às quintas e terça, até pelas questões logísticas do continente.

Desta vez, o que a CBF fez foi driblar as datas Fifa. Como se sabe, o calendário de Datas Fifa coloca muitos jogos no segundo semestre, que é, no calendário europeu, o primeiro. Assim, a Fifa não quer encher o saco dos europeus com jogos nas fases decisivas da Champions League ou das ligas nacionais.

Por isso, temos duas Datas Fifa no primeiro semestre (março e junho) e três no segundo (setembro, outubro e novembro). Destrinchamos cada uma das datas Fifa do ano para mostrar que a CBF mentiu descaradamente ao dizer que respeitaria.

O que vemos é apenas uma questão semântica: o calendário não prevê jogos NAS Datas Fifa, mas não respeita o período e terá jogos imediatamente depois. E isso acontece em cada uma das cinco datas Fifa programadas, sem contar a Copa América. Sim, o calendário brasileiro não irá parar durante a Copa América e os convocados perderão simplesmente nove jogos de Campeonato Brasileiro. .

Março: jogo no dia da mentira

A data Fifa de março, a primeira de 2020. A Data Fifa se estende do dia 26 até o dia 31 de março. São as duas primeiras datas de Eliminatórias da Copa do Mundo 2022. A CBF diz que respeita, mas teremos jogo de Campeonatos Estaduais no dia 1º de abril. Sim, eu sei que é irônico que a CBF tenha mentido que não teria jogo em data Fifa e, assim, jogará no dia 1º de abril. É uma ironia dessas deliciosas.

Junho: 6ª rodada do Brasileirão e Copa América

A segunda data Fifa da temporada é apenas em junho. São os amistosos preparatórios para a Copa América. A Data Fifa é do dia 4 ao dia 9. No dia seguinte ao segundo jogo, dia 10 de junho, temos data do Campeonato Brasileiro, que disputará a sexta rodada. Sim, no dia seguinte. E olha que teremos um outro problema neste caso, que é o que tratamos no próximo tópico.

Copa América: 10 rodadas de Brasileirão

Ah, Copa América. Sim, eu sei, ninguém mais aguenta Copa América depois de uma edição em 2015, outra em 2016, outra em 2019 e (ufa) outra em 2020. Haja saco. Era só ter jogado em 2016 e 2020, mas enfim, a Conmebol está tentando tirar todo o suco da laranja. Mas isso é outro problema.

A questão aqui é simples: o Campeonato Brasileiro não para durante a Copa América, ao contrário do que aconteceu em 2019. Isso significa que os times jogarão nove rodadas (repita: nove rodadas) durante a competição, que vai de 12 de junho a 12 de julho.

Só que é pior do que isso, porque os jogadores convocados não ficam fora apenas durante a Copa América. Firam fora já na data Fifa de junho. Ou seja: não perdem nove rodadas, que são as que acontecem durante a competição: perdem a rodada anterior também, no período de preparação das seleções.

Isso significa que se um jogador do futebol local estiver brilhando e acabar convocado para a seleção brasileira que disputa a Copa América, perderá 10 rodadas do Campeonato Brasileiro. Isso significa 26% do campeonato. Você consegue achar isso razoável? Certamente não. Isso significa que será preciso que os clubes peitem a CBF para que seus jogadores não sejam chamados para o torneio e, assim, acabem prejudicando gravemente seus clubes no principal torneio do Brasil.

Setembro: final da Copa do Brasil

Passada a Copa América e o possível desfalque de 10 rodadas do Brasileirão, há um mês de respiro em agosto (aleluia), mas a questão da data Fifa passa a ser um problema para os clubes nos três meses seguintes. Em setembro, a Data Fifa é no início do mês, do dia 3 ao dia 8. Não há jogo no dia seguinte, como nas demais, mas calma, isso não significa que seja melhor.

As seleções jogam no dia 8 de setembro, sabe-se lá onde (lembremos que não se trata apenas da seleção brasileira, mas de outras como a argentina, peruana e uruguaia, por exemplo). São jogos importantes, terceira e quarta rodadas das Eliminatórias da Copa do Mundo, portanto não dá para pedir para os técnicos não convocarem seus melhores jogadores, sejam eles quem forem – se sejam eles brasileiros ou não.

O jogo de ida da final da Copa do Brasil será no dia 10 de setembro. Sim, dois dias depois. A seleção joga na terça e a final da Copa do Brasil é na quinta. Parece razoável? Isso é respeitar a Data Fifa? Definitivamente, não. Ainda não temos a tabela, porque o sorteio das Eliminatórias da Copa acontece apenas no dia 3 de dezembro, mas é bem possível que tenhamos jogadores de outras seleções sul-americanas, além da brasileira, envolvida, como foi o caso de Paolo Guerrero neste ano. O problema continua existindo.

Outubro: 26ª rodada do Brasileirão

Outubro chega com mais uma data Fifa do dia 8 ao dia 13. São as rodadas 5 e 6 das Eliminatórias da Copa, mas novamente, os jogadores convocados devem perder uma rodada do Campeonato Brasileiro. Isso porque a 26ª rodada do Brasileirão acontece no dia 14, um dia depois do jogo das Eliminatórias.

Ou seja: a não ser que os atletas se submetam a situações arriscadas para eles mesmos, jogando 24h depois de entrarem em campo por suas seleções e provavelmente com uma viagem nas pernas, os times perderão seus jogadores por uma rodada.

Novembro: 34º rodada do Brasileirão

Finalmente, chegamos à última data Fifa do ano, novembro. Desta vez, os jogos serão entre os dias 12 e 17. Mais uma vez, são jogos das Eliminatórias da Copa, ou seja, jogos importantes das seleções. E no dia seguinte ao segundo jogo da Data Fifa, no dia 18, temos a 34ª rodada do Campeonato Brasileiro. Mais uma vez, 24 horas depois dos jogos de seleções acabarem.

É um momento crucial do Campeonato Brasileiro, abrindo a série de cinco rodadas finais. Os times ficariam sem seus jogadores que são importantes em seus times em mais um momento crucial da temporada. E, novamente, por mais que se cobre que o técnico da seleção brasileira não convoque jogadores dos times envolvidos em alguma disputa, é impossível pedir que o mesmo seja feito pelo técnico do Peru, ou do Uruguai, ou mesmo da Argentina. .

Série D: a única boa notícia

A única boa notícia do calendário 2020 do futebol brasileiro é o aumento do número de datas da Série D. Há uma enorme reivindicação dos clubes que disputam a quarta divisão do futebol brasileiro para que o Campeonato Brasileiro tenha mais datas. E isso aconteceu.

A competição terá 64 clubes em sua fase principal. Além disso, haverá uma fase preliminar com oito clubes. A fórmula de disputa será com oito chaves, com oito clubes em cada e jogos de ida e volta dentro dos grupos. Os quatro melhores de cada chave avançam, totalizando 32 times, que passam a jogar em fases eliminatórias dali em diante, até a final.

Isso faz com que a competição passe de 16 para 26 datas, o que ainda passa longe do ideal para times que precisam de calendários maiores, mas já é melhor do que o ano anterior. Serão ao menos 14 jogos para a maioria dos times, já que depois começa o mata-mata. Seria importante ter um calendário de 30 datas para todos os times que disputam a quarta divisão, mas sem discutir o que devem ser os estaduais, isso não será possível.

Clubes precisam agir

A discussão neste ano após a convocação mais recente de Tite para a seleção brasileira foi sobre a falta de respeito da CBF com as Datas Fifa. A reação aconteceu porque a seleção irá desfalcar os times que disputam posições importantes, inclusive o título, como é o caso do Flamengo. E, até por isso, o presidente Rogério Caboclo assinou um texto sobre isso no site da CBF falando da importante conquista de não jogar mais em datas Fifa.

O que parecia ser um movimento para acalmar os ânimos dos clubes se revelou exatamente isso. Porque os clubes continuarão sendo desfalcados. A CBF é a culpada e o técnico da Seleção será cobrado para não convocar jogadores que atuam no Brasil nos momentos decisivos – mesmo estando em disputa de Eliminatórias. Ora, como resolver isso?

A chave está nos clubes, que são os principais atores do futebol. Não é por acaso que na Europa não há data Fifa na reta final dos campeonatos de lá. Os clubes são organizados e unidos e agem em conjunto para lutar pelos seus interesses. Há, inclusive, desejo em diminuir o número de datas Fifa para o próximo ciclo. No Brasil, o que os clubes fazem? Bom, eles discutem pela imprensa decisões de uma arbitragem ruim e ficam trocando farpas. E nada muito além disso.

Será preciso que os clubes comecem a pensar mais como conjunto, unidos, abrindo mão do individualismo e parando de quererem levar vantagem uns sobre os outros fora de campo. A disputa dos clubes deve ser em campo, não fora dele. Há poder para isso. Imagine só clubes de grande repercussão como Flamengo, Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Vasco, para ficar nos que têm mais torcida, unidos para mudar o calendário?

Pois é, mas seria preciso rediscutir os estaduais, eventualmente os transformando em uma espécie de Série E. E, para isso, seria preciso acomodar diversos interesses: da TV, que quer jogos toda semana; das federações, que querem poder e não vão abrir mão dele, a não ser pela força dos clubes; e da CBF, que quer manter o seu cabresto sobre as federações e segue aleijando os clubes do poder na entidade, com o voto de federações estaduais valendo muito mais em eleições da CBF, por exemplo.

Os clubes estão dispostos a buscarem mudanças reais e agirem como as entidades gigantes que são, mediando os interesses em prol do seu torcedor e, em última instância, dos seus próprios interesses como conjunto? É difícil imaginar. É mais fácil imaginar os clubes quietos agora, na divulgação do calendário, sem exigirem mais mudanças, e reclamarem avidamente quando tiverem seus jogadores convocados em Datas Fifa ano que vem. Dirigentes irão bradar, com seus ternos mal alinhados e rostos vermelhos, falando em nome da torcida. E muitos torcedores comprarão esses discurso. Mas agir, de verdade, nenhum clube parece realmente disposto.

Enquanto isso, os clubes acabaram gravemente prejudicados até para contratar. Porque se um grande time brasileiro decide por contratar um destaque de outra seleção, corre o risco de perdê-lo por muitos jogos, como acontecia, por exemplo, com o Santos quando teve Neymar jogando muita bola nos anos que ficou no Brasil. Sua capacidade de brigar por títulos foi alijada por não poder contar com o seu principal jogador por muitas rodadas, quando ele estava vestindo a amerelinha em algum lugar do mundo (que era quase sempre o Emirates, em Londres).

Cinismo sem tamanho

Tudo isso significa que Rogério Caboclo, presidente da CBF, mentiu descaradamente quando anunciou, com pompa e com texto cheio de firulas, que o calendário do futebol brasileiro em 2020 respeitaria as Datas Fifa. Ele mentiu não só porque os convocados para a Copa América perderão 10 rodadas do Campeonato Brasileiro, mas porque o calendário não respeita NENHUMA das cinco Datas Fifa previstas para o ano. Em todas, teremos jogos com uma diferença inviável de tempo para os jogadores voltarem aos clubes.

Caboclo mostra que suas palavras valem muito pouco. A credibilidade do presidente da CBF vai ao chão e o iguala aos seus antecessores. A diferença, talvez, seja que os antecessores não tinham know how corporativo, nem eram conhecidos por serem o homem do compliance. O presidente da CBF parece ótimo com textos que recheiam o site da CBF de palavras bonitas, que sugerem práticas atualizadas de gestão, com o mote de eficiência que tanto vemos ser vendido por políticos com verniz de moderno que, no frigir dos ovos, são tão ruins quanto os que criticavam, se não piores.

A CBF de Caboclo ganhou um banho de loja, mudou a marca, mas falta muito para ir além das velhas práticas que prejudicam o futebol brasileiro. A CBF e Rogério Caboclo mentiram quando disseram que respeitariam as Datas Fifa em 2020. Poderiam ao menos respeitar a nossa inteligência.