Em meio à crise, o Campeonato Mexicano tomou uma decisão importantíssima ao seu futuro, e que promete gerar muita discussão: durante as próximas cinco temporadas, a Liga MX não terá mais acesso e nem descenso. A mudança foi votada nesta sexta-feira, entre os 18 presidentes dos clubes que compõem a primeira divisão. A Ascenso MX, correspondente à segundona local, será transformada em uma “liga de desenvolvimento”. Desta maneira, ao menos durante os próximos cinco anos, os times da elite seguirão os mesmos.

Após longa reunião, a votação não foi unânime. O Cruz Azul se colocou como o principal opositor ao fim dos acessos. Ainda assim, a maioria dos donos dos 18 clubes da Liga MX aprovou a mudança no regulamento. A justificativa é de que, diante da crise financeira, os 12 times do Ascenso MX receberão um pacote de apoio vindo da elite. Em contrapartida, precisarão se manter um nível abaixo, sem chances de promoção. O Clausura 2020 da segunda divisão foi oficialmente cancelado.

“Convocamos uma assembleia que estabeleceu o resgate de todas as equipes do Ascenso MX e, para isso, se concordou que serão criadas mesas de trabalho. Nelas, participarão pessoas envolvidas com um projeto para o calendário”, afirmou Enrique Bonilla, presidente da Liga MX, que recentemente se recuperou da COVID-19. Conforme o dirigente, cada clube da segundona receberá uma compensação econômica de 60 milhões de pesos (cerca de US$2,5 milhões), assim como será criado um fundo de contingência. Os times da Liga MX darão 20 milhões de pesos anuais (cerca de US$840 mil) às equipes logo abaixo.

Além disso, o próprio formato do Ascenso MX será modificado. Como liga de desenvolvimento, o campeonato deverá estabelecer um limite de 23 anos aos jogadores inscritos e as equipes do torneio servirão como “clubes satélites” dos times da elite, facilitando a transferência de talentos. As novas regras ainda serão estabelecidas nos próximos dias, mas os presidentes da antiga segundona já haviam votado a favor das mudanças, em troca do apoio financeiro da primeira divisão.

Todavia, há um imbróglio que pode ser criado com essa mudança no limite etário: os jogadores acima dos 23 anos que disputavam o Ascenso MX em 2020 correm o risco de ficar sem seus empregos. Já existe uma movimentação para buscar os direitos. Alguns clubes da elite contrários à modificação prometem apoiá-los.

O Campeonato Mexicano possui um sistema de acesso já problemático desde antes desta virada de mesa. Há casos de clubes que compraram o direito de disputar a primeira divisão. Um exemplo aconteceu em 2013, quando o Veracruz comprou o Reboceros de La Piedad após esta equipe assegurar a promoção. Assim, o Reboceros mudou-se a Veracruz e adotou os símbolos dos Tiburones Rojos. O Veracruz, que estava longe da elite desde 2008 e havia enfrentado um processo de desfiliação, pôde retornar ao primeiro nível sem conquistar este direito em campo. Desde os anos 1970, foram sete vezes em que este processo ocorreu.

Além do mais, a Liga MX possui o poder de revogar o acesso, caso um time não cumpra os parâmetros financeiros determinados pela entidade. Isso aconteceu em 2018, com o Cafetaleros de Tapachula. A equipe celebrou a promoção dentro de campo, após derrotar o Alebrijes de Oaxaca na finalíssima. Contudo, sem atender as demandas da liga, o clube não pôde disputar a primeira divisão na temporada seguinte. Conforme o regulamento da competição, após ser rebaixado na elite em 2018, o Lobos BUAP precisou pagar a premiação ao Cafetaleros pelo título da segundona. Assim, assegurou também seu direito de permanecer no primeiro nível.

Num sistema que muitas vezes transforma a promoção em algo burocrático, o fim do acesso efetiva uma posição da Liga MX que não surpreende tanto assim. Resta saber quais os impactos competitivos ao torneio, bem como à pirâmide do futebol mexicano e à formação de atletas. Além disso, com um programa que já considera clubes como “franquias” e permite até mesmo mudanças de cidades conforme a vontade dos donos, a Liga MX se aproxima ainda mais da Major League Soccer. Em fevereiro, a ESPN americana havia noticiado uma possível fusão entre as duas competições, estimada para 2026. O fim do acesso abre caminho aos planos.

Durante os últimos meses, o México e os Estados Unidos estreitaram seus laços no futebol além da Copa do Mundo de 2026. Entre julho e setembro de 2019, foi realizada a primeira edição da Leagues Cup, um mata-mata com quatro times de cada país. As duas ligas também anunciaram um duelo entre os melhores jogadores de ambas as competições no All-Star Game da MLS, inicialmente previsto para julho de 2020. Conforme a ESPN, o modelo de fusão poderia seguir o que ocorreu com a MLB – em que México e EUA representariam duas conferências interligadas, até a realizarem mata-matas em paralelo e definirem uma “superfinal”.