Zico, 70 anos: o caminho do garoto de Quintino até se tornar o camisa 10 da Gávea
Do primeiro teste na escolhinha do Flamengo até se tornar dono da camisa 10 do Flamengo, reconstruímos os primeiros passos do garoto mirrado de Quintino

O itinerário que traçamos aqui é o da gênese do craque: os primeiros passos de Zico na base e no profissional do Flamengo até sua afirmação. A trajetória do garoto mirrado de Quintino, subúrbio da Zona Norte carioca, desde sua chegada para o primeiro teste na escolinha do clube, em 1967, até o momento em que ele se consolidou como a principal referência do time de cima, o dono indiscutível da mesma lendária camisa 10 vestida por seu antigo ídolo Dida – o que incluiu superar um recorde pertencente a aquele jogador que encantava o menino Arthur Antunes Coimbra nas arquibancadas do Maracanã. Relembramos o marco inicial em que se pavimentou o caminho para que Zico se tornasse o maior nome da história rubro-negra.
O menino imparável da base
Antes mesmo de chegar ao Flamengo, Zico já havia sido citado na imprensa: em julho de 1967, a Revista do Esporte publicou entrevista com seu irmão Edu, então se afirmando como craque no America, na qual destacava-se o trecho: “Mas quando lhe perguntam quem é o ‘cobra’ da família, se é ele ou o Antunes [o irmão mais velho], Edu responde que é o Zico (o caçula dos irmãos), que joga futebol de salão e peladas lá em Quintino. Segundo Edu, o Zico é tão terrível que quando faz menos de sete gols nas peladas acha que não jogou bem”.
Aos 14 anos, o garoto que defendia a equipe de futebol de salão do River (clube da Piedade, Zona Norte do Rio), além do Juventude, time de futebol de campo de sua rua Lucinda Barbosa, já se mostrava exigente e obstinado, características que o fariam perseverar na carreira. Pouco tempo depois da declaração de Edu, em 28 de setembro de 1967, Zico seria enfim levado ao Flamengo pelo radialista Celso Garcia para um treino na escolinha rubro-negra. Aprovado, faria sua estreia no começo do ano seguinte, em 10 fevereiro de 1968.

O primeiro jogo de Zico vestindo rubro-negro era contra o Everest, no estádio da Gávea. Vitória do Flamengo por 4 a 3 com dois gols de Zico: um, o segundo do time, aos 13 minutos de jogo, ao tocar na saída do goleiro após receber passe do zagueiro Dias, e o outro de pênalti na etapa final. Foram três anos atuando pela escolinha do Flamengo. No último, 1970, Zico se sagraria artilheiro do Campeonato Carioca da categoria com 26 gols, chegando a anotar seis numa mesma partida, a goleada de 8 a 0 sobre o Campo Grande na Gávea.
Ainda em 1970, no dia 16 de junho, Zico participaria de um momento simbólico para o clube e para ele próprio. O amistoso entre o time principal do Flamengo e a seleção carioca marcaria a entrega das faixas de campeã da Taça Guanabara aos rubro-negros e ainda a despedida (sem entrar em campo) do ídolo Carlinhos, o “Violino”, que antes do jogo entregou suas chuteiras à promessa da base, repetindo uma tradição iniciada em 1954, quando o próprio Carlinhos, ainda nos juvenis, recebera o par do veterano Biguá, que se aposentava.
Consolidado como talento ascendente, era a vez de Zico subir para o próximo degrau, a categoria juvenil em 1971. Nela, começaria a jogar e balançar as redes inúmeras vezes naquele que seria seu principal palco, o Maracanã, destacando-se nas famosas preliminares de juvenis dos clássicos do profissional, para as quais os torcedores cariocas chegavam mais cedo ao estádio, conferindo em primeira mão os futuros talentos prestes a despontar nos times de cima. E o desempenho do garoto de Quintino seria um trampolim para o elenco principal.

Em 14 de março, pouco mais de uma semana após completar 18 anos, Zico marcou de pênalti no empate em 1 a 1 com o Botafogo pelo Carioca de juvenis. Era seu primeiro gol no Maracanã, logo seguido por outros cruciais, sobretudo em clássicos. Em 4 de abril, ele decidiu com uma cabeçada o Fla-Flu da categoria (1 a 0), visto por mais de 112 mil torcedores. Mas o triunfo mais especial veio em 13 de junho, quando um gol seu derrotou o Botafogo (1 a 0) e quebrou a série invicta da base alvinegra que já chegava a impressionantes 122 partidas.
Aquela vitória rubro-negra acabou desnorteando os alvinegros, que deixariam o título escapar e ficar nas mãos do Vasco. Artilheiro do certame com 19 gols, Zico foi convocado para a seleção carioca da categoria, que enfrentaria os cruzmaltinos em amistoso festivo, na preliminar do jogo de despedida de Pelé da seleção brasileira contra a Iugoslávia. Naquele 18 de julho de 1971, o escrete juvenil da Guanabara derrotou os vascaínos campeões por 1 a 0. Zico, naturalmente, fez o gol do jogo, concluindo um lançamento no primeiro tempo.
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Esperança em tempos de vacas magras
Enquanto o menino de Quintino brilhava na base, o time principal do Flamengo vivia momento delicado: além de não conquistar o título carioca desde 1965, atravessava turbulências causadas pelo jeito autoritário do técnico Yustrich, ex-goleiro do clube nos anos 1930 e 1940 e à frente do comando da equipe desde o início do ano anterior. O “Homão”, como era conhecido, havia se desentendido com vários jogadores – incluindo protagonistas do elenco, como o atacante Doval – por sua truculência e interferência até na vida pessoal dos atletas.
Os títulos do Torneio Internacional de Verão e de uma gigantesca Taça Guanabara, obtidos no primeiro semestre de 1970, e a campanha muito boa no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, no fim daquele ano, seguraram Yustrich no cargo por um tempo. Mas em maio de 1971, quando não só as rachaduras no elenco já eram escancaradas como os resultados vinham sendo bem fracos, ele foi demitido. Modesto Bria e Newton Canegal, que dirigiam a base (e eram contemporâneos de Yustrich como jogadores), assumiram o comando como interinos.

Pouco tempo depois, o Flamengo anunciaria o novo treinador efetivo, promovendo o retorno de uma lenda do clube, embora já bem veterana: o paraguaio Manuel Agustín Fleitas Solich, então com 70 anos, era chamado para recolocar o Fla nos trilhos, naquele que seria seu último trabalho na Gávea antes de se aposentar em 1973. Comandante no histórico tricampeonato carioca de 1953/54/55 e no título do Torneio Rio-São Paulo em 1961 em suas duas passagens anteriores pelo clube, Solich era um notório e prolífico revelador de talentos.
Em seu primeiro período na Gávea, entre 1953 e 1959, o “Feiticeiro” (como era conhecido) havia promovido dos juvenis uma lista extensa de jogadores notáveis do clube, tendo no topo ninguém menos que Dida e Henrique, que logo chegariam a se tornar os dois maiores artilheiros da história rubro-negra. Após passar pelo Real Madrid, Solich voltaria entre julho de 1960 e janeiro de 1962. E nesta segunda passagem pelo Flamengo, outros novatos ganhariam espaço: os meias Carlinhos e Gerson (o “Canhotinha de Ouro”) e o ponta-esquerda Germano.
Diante dessa folha corrida de serviços prestados, era natural que Solich lançasse mão do garoto que brilhava na base em um de seus primeiros jogos no comando da equipe, o clássico contra o Vasco pela Taça Guanabara (naquela época, ainda um torneio à parte do Carioca) na noite de quinta-feira, 29 de julho. As duas equipes já estavam praticamente afastadas da briga pelo título e abririam a rodada dupla que teria Botafogo x Fluminense como jogo principal. Mas antes de a bola rolar, a escalação de Zico já era a grande notícia do dia.
“Vá conhecer hoje à noite o futebol do menino Zico”, era o título do texto de Antônio Roberto Arruda para o Correio da Manhã, um dos principais diários do Rio de Janeiro da época. O Jornal dos Sports, por sua vez, trazia na última página o perfil do estreante assinado por Jorge Arêas: “Quando Fio receber a bola no jôgo desta noite contra o Vasco, sabe que na área tem um atacante veloz, valente, apesar da idade e do físico, pronto para receber o passe e fazer o gol. Êste atacante é o garôto Zico, a maior esperança do Mengão”, predizia.

Há algumas observações a serem feitas sobre este trecho, à parte de todos os acentos diferenciais ainda existentes então. A primeira é sobre o posicionamento em campo: tendo sido o artilheiro do campeonato de juvenis, Zico seria lançado por Solich como centroavante, vestindo a camisa 9 e jogando à frente de Fio (então a poucos meses de se tornar o “Maravilha”), o ponta-de-lança que, como tal, usaria a 10. Aquele ataque teria ainda Nei Oliveira (pai de Dinei) deslocado para a ponta-direita e o versátil Rodrigues Neto na outra extrema.
Outra observação diz respeito às restrições quanto ao físico de Zico, então com exatos 18 anos e 149 dias de idade. Quando chegara ao clube levado por Celso Garcia, em 1967, o garoto mirrado de 14 anos media 1,55 metro e pesava apenas 35 quilos. Modesto Bria, treinador da base, logo repreendeu o radialista: “Ô, Celso! Eu estou montando um time de futebol, não um berçário!”. A insistência valeu um teste. Aprovado, Zico foi submetido a um dedicado trabalho de crescimento orientado pelo preparador físico José Roberto Francalacci.
Zico já havia ganhado vários centímetros de estatura e alguns quilos de massa muscular quando foi escalado pela primeira vez no time de cima. Mas teria de encarar a vigorosa zaga do Vasco formada por Moisés e Renê. Seu parceiro de ataque, porém, não se preocupava: “O garoto é bom. Por isso estou tranquilo e otimista”, comentava Fio, elogiando sua “impressionante” visão de gol e o trato com a bola. “Sabe dominá-la, dar um centro na medida, lançar em profundidade, enfim, o garoto sabe tudo”, declarou ao Jornal dos Sports.

“Poxa, se o Edu, com aquele tamanho, come a bola, por que o Zico não pode fazê-lo?”, concluía Fio. E, de fato, foi o que Zico fez. Na vitória rubro-negra por 2 a 1, ele deu o passe para o primeiro gol, de Nei Oliveira. “O estreante Zico mostrou condições de continuar no time, jogando com classe e impetuosidade”, avaliou o JS. “Muito boa atuação. Jogou com a bola no chão e fez uma estreia positiva. Não se intimidou com Renê e Moisés e cavou boas jogadas de gol. A tendência é subir de produção pois futebol demonstrou que tem”.
Fio, um de seus grandes incentivadores e autor do gol da vitória no último minuto do clássico, endossou os aplausos: “O garoto passou no teste. Encarar de saída uma defesa de marmanjões baixando o pau como a do Vasco não é para qualquer um. E ele jogou muito bem, demonstrando que sabe o que faz com a bola”. Solich também já vislumbrava a pedra preciosa que tinha em mãos: “Zico é um craque. Num jogo como este não poderíamos esperar mais dele. O garoto produziu até acima do esperado”, vibrava o velho Feiticeiro.
Três jogos depois, em 11 de agosto, viria o primeiro gol pelos profissionais – este, bem longe do Maracanã, na Fonte Nova, no empate em 1 a 1 com o Bahia pelo Campeonato Brasileiro, tocando com calma para as redes após receber uma bola escorada de cabeça por Zé Eduardo. O segundo sairia pouco mais de dois meses depois, em 17 de outubro, também no Nordeste, contra o Santa Cruz na Ilha do Retiro, em mais um empate em 1 a 1. Um golaço: tomou a bola do zagueiro Moacir e bateu de cobertura, com curva, quase da intermediária.

“Zico simplifica todas as jogadas: toca de primeira e procura os espaços vazios para receber os passes. Não tem medo de jogo bruto e está sempre na área. Fora de dúvida, a posição é sua”, dizia a nota intitulada “Zico já é o bom” do repórter Aristélio Andrade, publicada pela Placar na edição de 6 de agosto, pouco depois de sua estreia. De fato, o garoto se tornaria nome frequente entre os titulares, atuando em 15 dos 19 jogos do Fla no Brasileiro, mas quase sempre como 9, ao lado de pontas-de-lança como Fio, Nei, Samarone e Zé Eduardo.
O surgimento de Zico era uma das poucas boas notícias naquela fraca campanha rubro-negra no torneio, ainda sofrendo os efeitos do elenco dilapidado pelos atritos com Yustrich – vários dos antigos titulares haviam sido emprestados ou negociados, e, para piorar, um dos destaques da temporada anterior, o elegante meia-armador Zanata, fraturara a perna defendendo a seleção carioca num amistoso no Mineirão no meio do ano. No fim, nem mesmo a magia do veterano Solich se mostrou suficiente para o renascimento da equipe.
De volta entre os garotos
Mas quando a temporada virou, o Flamengo recebeu mais uma injeção de ânimo, a começar pela contratação de Zagallo, que retornava como treinador ao clube que defendera como jogador de 1951 até voltar da Copa do Mundo de 1958. O elenco também foi profundamente reformulado, com novas contratações – a maior delas, a compra de Paulo Cézar Caju (outro que defendera o Fla na base) do Botafogo por cerca de 2 milhões de cruzeiros, valor recorde para transferências nacionais – e o retorno dos emprestados por Yustrich.
De modo que, no setor ofensivo, opções não faltavam a Zagallo: Doval estava de volta – e melhor do que nunca. Paulo Cézar podia jogar pela ponta ou por dentro. Caio, Dionísio e Arílson, o trio de pratas-da-casa, também voltavam de empréstimo ou de lesão. O ex-botafoguense Rogério era o titular na ponta direita. E ainda havia a expectativa pelo retorno de Zanata após a fratura da perna. A fartura era tanta que Fio, antigo titular, esteve para ser dispensado e quase foi negociado com o Grêmio. Foi “salvo” pelo gol histórico contra o Benfica.
Assim, não havia muito espaço para um garoto de 18 para 19 anos com a formação física ainda um tanto incompleta – a técnica não era problema, já era deslumbrante. E Zagallo decidiu então devolver Zico à base, recorrendo a ele apenas para compor o banco, vez por outra, ao longo do Carioca. “Zico é novo e tem muito futuro pela frente. Ele precisa ganhar mais experiência, mais tarimba. Vamos esperar mais um pouco”, avaliava o técnico ao Jornal dos Sports. Na campanha do título estadual de 1972, Zico só fez dois jogos, vindo da reserva.
No dia 23 de abril, o time principal do Flamengo conquistaria a Taça Guanabara com goleada de 5 a 2 sobre o Fluminense diante de mais de 137 mil torcedores numa tarde em que o atacante Caio anotou uma tripleta e comemorou com cambalhotas, que logo se tornariam seu apelido. Mas antes, na preliminar, a festa rubro-negra já havia começado com a vitória também no Fla-Flu de juvenis, sob a batuta de Zico, que marcou os dois gols no triunfo por 2 a 1 sobre a base tricolor que incluía o goleiro Nielsen e o zagueiro Abel Braga.
No Brasileiro daquele ano, Zico voltaria a ser aproveitado no time de cima, participando de quatro jogos, todos fora de casa e sempre entrando durante as partidas. Mas logo retornaria à base para disputar a decisão do Carioca de juvenis em três jogos contra o Vasco daquele que se tornaria adversário em campo e grande amigo fora dele: Roberto Dinamite. Os cruzmaltinos venceram o primeiro confronto, em São Januário, e conseguiram tirar o segundo da Gávea, levando para o Maracanã, mas o Fla venceu e forçou o terceiro duelo.

A decisão ficaria mesmo para o estádio rubro-negro, no dia 16 de dezembro. Uma partida muito intensa, como o próprio Zico se lembra: passando mal o primeiro tempo todo, pensou em sair, mas foi instado pelos irmãos a ficar e passou a jogar mais avançado, na área: “Já perto do fim do jogo, o (lateral) Nei cruzou uma bola, eu dominei na coxa, o zagueiro Marcelo veio, e eu dei um toque por cima da coxa dele. A bola caiu na esquerda, e aí eu bati meio de voleio, cruzado, no canto”, relembrou no livro “A história de todos os gols de Zico”.
A vitória por 2 a 0 deu ao Fla o título da categoria com uma equipe que, além de Zico, revelaria ainda o goleiro Cantarele, os defensores Rondinelli e Jayme e o talentosíssimo meia Geraldo. “O estádio da Gávea estava lotado. Esse foi o segundo gol e acabou com o jogo. O gol foi bonito. O Mazarópi era o goleiro. Foi muito emocionante. Estava toda a minha família na Gávea”, puxou pela memória o Galinho – apelido o qual ainda não recebera. A conquista colocaria em evidência aquela geração e indicaria um caminho ao clube pela base.
Buscando seu espaço
Definitivamente profissionalizado e incorporado ao elenco principal, Zico iniciaria a temporada de 1973 mostrando suas credenciais contra o Atlético no Mineirão pelo Torneio do Povo, no dia 28 de janeiro. De saída, os alvinegros abriram o placar com Campos, mas Zico igualou após driblar três adversários e chutar forte de canhota. Depois ele serviu Caio, que deixou o Fla em vantagem, e pegou a sobra do chute de Rogério para marcar o terceiro. O Atlético diminuiu para 3 a 2, mas o jovem talento rubro-negro foi o nome da partida.
A disputa por posição logo se intensificaria quando o Flamengo contratou o centroavante Dario, do Atlético Mineiro, e o ponta-de-lança Sérgio “Galocha”, do Internacional – e no meio do ano traria ainda o experiente meia Afonsinho. De modo que Zico entraria onde houvesse espaço, fosse como segundo homem do meio-campo, com a camisa 8, ou de ponta-direita, vestindo a 7 (como no jogo contra o Náutico, pelo Brasileiro). Ou até mesmo de 10, como no clássico diante do Botafogo, já em dezembro, ocasião em que anotou um golaço.
A legenda da sequência de fotos publicada na primeira página do Jornal dos Sports recontava o lance detalhadamente: “Zico recebe a bola bloqueado por Carlos Roberto e Nilson Andrade no centro da grande área. Faz um rodopio espetacular. Engana os adversários e entra pela clareira aberta na defesa. Antes de Nilson chegar, por trás, Zico coloca a bola, num tiro de meia força, no canto esquerdo. Cao, enganado pelo jogo de corpo, cai para o outro lado. Só resta ir buscar a bola na rede”. Foi o gol da vitória rubro-negra por 1 a 0.
Ao todo, Zico atuaria em 51 das 72 partidas do Flamengo naquele ano, sendo titular em 36 – a maior parte no segundo semestre – e vindo do banco em 15. Balançou as redes 13 vezes, sendo que, a partir de setembro, já ganhava o respaldo para se colocar como o batedor de pênaltis da equipe, mesmo em meio a tantos nomes mais experientes. Da marca da cal, anotaria contra Vasco, Náutico, Remo e América Mineiro. No Brasileiro, ele seria o artilheiro do time com oito tentos. Mas nada comparável ao que se veria no ano seguinte.
Desde que chegara à Gávea, Zagallo dividia o comando do Flamengo com o da seleção. Quando teve de se ausentar, como na Taça Independência (ou Minicopa) de 1972 e na excursão do Brasil pela Europa e norte da África em meados de 1973, o time rubro-negro ficava sob os cuidados de Jouber Meira, ex-lateral criado no clube nos anos 1950, e que conhecia muitos dos atletas por ter sido treinador deles na base, cargo que passou a ocupar assim que pendurou as chuteiras. Essa troca no comando se repetiria já no início da temporada 1974.

Zico era um desses velhos conhecidos de Jouber, que sabia exatamente em que posição e de que forma a revelação rubro-negra – agora já com 20 para 21 anos – gostava de jogar. O elenco havia sido consideravelmente enxugado na virada do ano, e mesmo o astro Paulo Cézar Caju atuaria poucas vezes antes de se juntar a Zagallo na seleção na preparação para a Copa de 1974. Logo o Velho Lobo deixaria o clube em definitivo, e Jouber seria efetivado. Para Zico e uma legião de jovens da base, seria a melhor notícia que poderiam receber.
No primeiro coletivo daquele ano, no entanto, Jouber armou o time com Afonsinho no meio, Rogério e Paulo Cézar pelas pontas e Doval e Dario fazendo a dupla de frente. Só que, na reserva, Zico acabou com o treino: fez os dois gols na vitória dos suplentes sobre os titulares por 2 a 0. No dia seguinte, foi chamado à sala do treinador juntamente com Dario e Doval. E Jouber comunicou que Zico era o novo titular, enquanto os dois astros da companhia disputariam a outra vaga. Com isso, o jovem de Quintino ganhava em definitivo a camisa 10.
O ano da explosão
Na pré-temporada, ele já se mostrava imparável. No amistoso contra o Zeljeznicar, da Iugoslávia, que marcou a despedida do zagueiro paraguaio Reyes, ídolo da torcida, Zico entortou a defesa que incluía nomes da seleção balcânica e marcou dois belos gols na vitória por 3 a 1. Mais adiante, em 17 de fevereiro, anotou um belíssimo gol de falta e outro em que veio desde o meio-campo enfileirando adversários na goleada de 5 a 1 sobre o Corinthians de Rivelino em outro amistoso no Maracanã. Quando chegou o Brasileiro, ele jogava o fino da bola.
Transferido para o primeiro semestre, o torneio nacional assistiu a uma excelente campanha dos rubro-negros na primeira fase. Entre os 40 participantes, o Flamengo foi o segundo a somar mais pontos, atrás apenas do Grêmio. Em 19 jogos, foram 12 vitórias, cinco empates e só duas derrotas contra o Coritiba no Couto Pereira e o Vitória na Fonte Nova – em ambas, sem Zico. A renovada equipe do Flamengo, agora incluindo vários jovens da base, foi brilhante nas 16 partidas daquela etapa nas quais pôde contar com o Galinho em campo.
No empate em 1 a 1 com o Vasco, Zico abriu o placar com um toque de categoria. Contra o Bahia na Fonte Nova, marcou driblando até o goleiro Buttice na vitória por 2 a 0. No Beira Rio, livrou-se de Figueroa para anotar no 1 a 1 com o Inter. Marcou nas vitórias sobre o Atlético Paranaense em Curitiba e sobre o Avaí em Florianópolis. Emendou de sem-pulo um golaço na 1 a 0 diante do Grêmio no Maracanã. E anotou um gol antológico, driblando quatro adversários, nos 2 a 0 sobre o Botafogo, em um dos tentos mais bonitos de sua carreira.
Já no fim da primeira fase, no entanto, o time começava a sofrer com lesões em peças-chave do time. Zico seria um deles: depois de jogar e marcar um gol na boa vitória de 3 a 0 sobre o Guarani no Maracanã na abertura da segunda etapa, ele seria desfalque em dois jogos cruciais, contra o Bahia na Fonte Nova e o Palmeiras no Pacaembu. Sem seu camisa 10, o time perdeu pontos e se distanciou da classificação. Quando Zico voltou, sofreu sua única derrota: Cruzeiro 3 a 1 no Maracanã. Na despedida, fez dois nos 6 a 0 sobre o Paysandu.
O Flamengo terminou a competição na sexta colocação, mas teve em Zico o grande destaque do Brasileiro. Prova disso foi seu desempenho na premiação da revista Placar. Nas notas atribuídas pela publicação para as atuações, apenas três jogadores conseguiram superar 8,00 como média: um foi o goleiro Joel Mendes, destaque de um surpreendente Vitória (8,09); outro foi o zagueiro chileno Elias Figueroa, do Internacional, referência da posição na América do Sul (8,22). Mas Zico extrapolou, levando a Bola de Ouro com inalcançáveis 8,74.

Paulo Cézar Caju nem voltou ao Flamengo após a Copa, vendido ao Olympique de Marselha. Na Taça Guanabara, agora valendo pelo primeiro turno do Estadual, a campanha dos rubro-negros foi oscilante – exceto Zico, que marcou em todos os clássicos (de pênalti contra o America, de falta contra o Fluminense, em arrancada sensacional contra o Botafogo e com um chute forte contra o Vasco) e terminou a etapa como o artilheiro, ao lado de outros dois goleadores novatos e ascendentes: Roberto, do Vasco, e Luisinho, do America.
E seria justamente contra o America, campeão do primeiro turno, que o Flamengo estrearia no segundo: a goleada por 4 a 1, com dois gols de Zico, carimbou a faixa dos rubros. Mas a vaga no triangular final do Carioca só seria obtida com a conquista do terceiro turno, com outra vitória diante do America: 2 a 1, de virada, com um tento sensacional do Galinho cobrando falta. Assim, as finais seriam disputadas entre os dois clubes mais o Vasco, vencedor do segundo turno. Zico havia marcado contra ambos em todas as três etapas até ali.
Na abertura do triangular, o Flamengo derrotou mais uma vez o America por 2 a 1 graças aos gols de dois jovens revelados no clube: o zagueiro Jayme, companheiro de Zico nos juvenis, e o lateral-direito Junior, que estreara no time de cima apenas semanas antes. No jogo seguinte, os rubros arrancaram o empate em 2 a 2 com o Vasco por meio de um gol de Edu, irmão de Zico, perto do fim da partida. O resultado colocava a equipe dirigida por Jouber precisando apenas do empate contra os cruzmaltinos para ficar com o título na decisão.
Mas não seria fácil: detentor do título brasileiro, o Vasco era um time experiente, duro na defesa e contando com o talento do ex-rubro-negro Zanata no meio e o faro de gol de Roberto na frente. Mesmo assim, não vencia o Flamengo há um ano e meio, ou sete jogos. O Flamengo, por sua vez, tinha uma baixa de muito peso no ataque: Doval, lesionado, ficava de fora. O time entraria em campo com nada menos do que sete jogadores de menos de 23 anos de idade. Era o ímpeto dos garotos rubro-negros contra a malandragem dos vascaínos.

Quando a bola rolou, diante de mais de 165 mil pagantes no Maracanã, nem parecia ser o Vasco o time que precisava vencer: o Fla dominou as ações e criou as chances mais perigosas – a maior delas com Zico, numa bola que passou pelo goleiro Andrada, mas o lateral Alfinete salvou em cima da linha. O 0 a 0, porém, bastou aos rubro-negros para a conquista do título. Naquele 22 de dezembro, os meninos de Jouber seguraram os cascudos adversários. “É meu título carioca inesquecível, o primeiro como titular”, declarou Zico recentemente.
A conquista, obtida diante do maior público do país naquele ano e o sétimo maior da história do Maracanã, veio coroar o excelente ano do garoto de Quintino, que também superou uma marca bastante significativa: com seus 49 gols anotados, tornava-se o maior artilheiro do clube em uma única temporada, batendo o recorde estabelecido por Dida, seu ídolo de arquibancada, em 1959. Tudo isso, mais o prêmio de melhor jogador do Brasileiro, indicava que Zico deixava o status de promessa, consolidando-se como um novo talento de fato no país.
O que viria a seguir só confirmava essa certeza: no ano seguinte, ele seria o artilheiro do Carioca com expressivos 30 gols, marca que o futebol do Rio não via há mais de um quarto de século. Já em 1976, ele estrearia com bastante impacto na seleção. Daí viria o prêmio de Melhor Jogador da América do Sul em 1977 e toda a grande era vitoriosa com o Flamengo a partir de 1978, para a qual nem o topo do mundo se mostrou inatingível.



