Brasil

Wendell Lira e o futebol que sentimos, que também podemos escrever

Estar entre os dez surpreendia a todos. Passar entre os três finalistas e participar da cerimônia de gala da Fifa, então, já significava a grande vitória de vida. E quando Nakata fez o anúncio, a apreensão imediatamente se transformou em lágrimas. Messi e Florenzi não mudaram as suas expressões. Wendell Lira, por sua vez, apertou bastante os olhos, como quem não quisesse acordar de um sonho. Apesar da erupção de sentimentos, tentou manter o controle. Tirou os fones calmamente, beijou a esposa e subiu ao palco. Cabeça erguida de um vencedor, na voz humilde de um batalhador.

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Muita gente pelo Brasil, ao contrário, não teve a serenidade de Wendell Lira no momento mais importante de sua vida. No meu caso, a reação imediata veio com um berro. Depois, ao ver a reação do rapaz goiano, os olhos marejaram. Posso não ter sido sincero com minha própria opinião ao votar no gol mais bonito de 2015. Mas, sem dúvidas, agi instintivamente com aquilo que creio ser a essência do futebol: as boas histórias. Ver o ex-jogador do Goianésia realizado também cumpria a minha própria ânsia de perceber, mais e mais, que o futebol não se limita a si. Que é muito mais do que um jogo – ou o clichê de sua preferência, que, por mais batido, não deixa de ser verdadeiro. A vitória me surpreendeu, diante da representatividade do nome de Messi em todo o mundo. Mas também me fez ter certeza que não fui o único a agir e a reagir com emoção.

wendell

No palco da Fifa, Wendell Lira era o autor do gol do ano. O homem ouvido com atenção pela plateia célebre, de craques do presente e do passado. Para quem votou nele, não. Wendell era o vizinho peladeiro da rua de cima. O menino que faz da lata uma bola e arranca a unha chutando o asfalto. O protagonista da reportagem da TV, que caleja as mãos atravessando a cidade de ônibus para ir treinar. O atacante do interior que você vê da arquibancada, na solidão de um estádio gigante com apenas 389 testemunhas, e que lhe premia com um golaço naquele jogo do estadual que ninguém lhe dava bola.

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Em seu discurso, Wendell Lira expôs ainda mais a sua humanidade. Agradeceu a família. Falou sobre os personagens virtuais que só apareciam na tela de seu videogame e se tornavam reais ali na sua frente. E, na simplicidade que também seria comum ao seu vizinho, falou de fé. Mas a história de Davi e Golias, na verdade, falava de si. O goiano chegou a Zurique como o pequeno guerreiro, contra um dos maiores da história, que no fim teve que se “consolar” com a Bola de Ouro. O desafiante que se agigantou, graças a quem também queria vê-lo vencer – à união de um povo que se solidariza, como bem definiu o amigo Menon. O jogador de 27 anos disse palavras corriqueiras, daquele pregador que a gente cruza na rua e nem dá ouvido. O futebol, no entanto, tem um poder muito maior. Tornou o rapaz eloquente. Seu feito ganha o mundo.

Os votos em Wendell representam a beleza de seu voleio acrobático e o folclore que naturalmente aflora tão enraizado em nosso imaginário do futebol brasileiro. Mas também a própria trajetória de vida que a gente já se cansou de acompanhar como torcedor. Do jovem que estoura cedo, chega às seleções de base e sonha ir à Europa. Que, atrapalhado por uma lesão no joelho e pelas circunstâncias da vida, não vinga. Que, a partir de então, roda pelo futebol do interior com trabalho durante poucos meses do ano, enquanto nos outros pede favores ou vive de bicos. E que, daí em diante, cai no ostracismo. Desta vez não. Desta vez o próprio torcedor pôde mudar o destino. Pôde escrever um final diferente. Talvez o atacante ainda caia no obscurantismo. Não mais no anonimato. Graças a esse prêmio, já trocou o desemprego pela Série B. E o renome que os votos lhe deram ainda pode levá-lo a alguns confins do futebol que lhe garantam uma aposentadoria mais cômoda. Transformou sua vida.

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A vitória do Wendell Lira serve para refletir o que pensamos sobre o futebol. E, neste ponto, reproduzo as palavras do magistral Douglas Ceconello, na conclusão de sua crônica sobre a façanha do goiano: “Mentimos a nós mesmos quando temos arroubos megalomaníacos. Porque, apesar da mania de grandeza, da hipnose quando toca a música da Champions League, nós não vivemos o futebol pela final da Copa do Mundo, não vivemos nem para ver Messi e nem para ter a sorte de torcer pelo maior esquadrão de todos os tempos. Na verdade, nós vivemos o futebol esperando por um Wendell Lira”.

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O futebol é feito de histórias. Parte delas escritas nos livros de capa dura, oficiais, publicados em grandes fascículos. Aquelas que acompanhamos de longe, com admiração, mas também assepsia. Que nos chega pasteurizada pelos cabos da televisão. Porém, a maioria das histórias se escreve a mão, nos caderninhos de anotação ou nos papéis soltos. E por nós mesmos. Ainda que o futebol brasileiro tente se esterilizar em sua elite, ele é muito grande para se desgarrar da sua essência. Imperfeita, que seja, mas nossa, identidade do caráter popular. Não precisa da barbárie, mas ainda pode ser humilde e digna. Como Wendell Lira. Não à toa, os movimentos cada vez mais apegados às raízes do futebol brasileiro se tornam tão crescentes nas redes sociais.

No fim das contas, os contadores dessas pequenas grandes histórias somos nós, torcedores, e não vozes gravadas. Também pertencemos a elas. Bate o orgulho de conseguirmos influenciar o seu curso. E perceber depois que o protagonista é aquele sujeito simples, que você poderia ver no campinho do bairro, mas do dia para a noite apareceu no centro dos holofotes do futebol mundial. Que você, mesmo que em contribuição pequena, tirou das anotações a lápis no caderninho e eternizou com tinta nos grandes livros de capa dura. Uma nova história para ser contada por muito tempo, e não só na oralidade de suas lembranças.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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