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CBF sai fortalecida de eleições e Romário tende a ser voz isolada no Congresso

A renovação do Congresso Nacional foi grande nas eleições de 2014. Dos 513 deputados federais que fazem parte da Câmara, 198 não foram reeleitos. É uma taxa de 40% de renovação. Nesta onda nova, o número de parlamentares ligados ao futebol aumentou, e isso aconteceu justamente no ano em que o Brasil recebeu a Copa do Mundo. A bola esteve em evidência no campo e na urna – mas não exatamente do jeito que eu e você esperávamos (e não somente por causa do 7 a 1).

A maioria dos membros da “bancada da bola”, grupo de parlamentares ligados aos clubes, às federações e à CBF, se manteve no cargo. Eles defendem com carrinhos, nem sempre leais, os interesses dos cartolas no congresso. Neste ano, eles vão ter novas companhias. São boleiros, mas não necessariamente alinhados ao atual comando da CBF. Romário (PSB-RJ), a voz mais estridente contra a federação, passou de deputado a senador, referendado por 4,6 milhões de votos. Andrés Sanchez (PT-SP) chegou à Câmara rompido com a atual direção da CBF – embora não se saiba exatamente como ele vai jogar nos próximos quatro anos.

Obviamente, não é só quem tem seu histórico ligado aos clubes que trata com esporte na política brasileira. O assunto é prioridade de outros tantos políticos. Mas o que esperar da relação entre parlamento e futebol nos próximos quatro anos? O cenário ainda é incerto, mas já existem algumas indicações. E, embora o coro contra os desmandos tenha aumentado na última legislatura, isso não deverá necessariamente expor os dirigentes a mudanças mais drásticas. A tendência é que tudo continue como está.

O lobby a favor da CBF

As definições de verdade começam apenas no próximo ano, quando as lideranças e as comissões forem definidas. Mesmo assim, há uma lacuna sobre a forma pela qual o futebol será tratado – se haverá uma comissão específica, como no último semestre, com a criação de um grupo especial para tratar da Lei de Responsabilidade Fiscal, ou dentro da Comissão de Esporte e Turismo, como de costume. De qualquer forma, o cenário já começou a se definir.

“Independente dos nomes apontados para as comissões, é possível prever que a CBF seguirá com predomínio e com alto poder de barganha. Nos últimos anos, aliar-se à CBF foi sinal de prestígio. Alguns deputados tiveram contribuição nas campanhas e, no último ano, também ganharam ingressos para jogos através dessas relações. Muitos deles foram reeleitos”, afirma José Cruz, blogueiro do UOL e que há 30 anos cobre no Congresso as áreas de política, economia e legislação do esporte.

Assim, o tradicional lobby em apoio à CBF continua no Congresso. Segundo reportagem publicada pela ESPN nesta quinta, ele já se iniciou. Futuro presidente da CBF, Marco Polo Del Nero se reuniu com o deputado reeleito Assis Carvalho (PT-PI), manifestando as suas intenções de ter pelo menos um parlamentar favorável à entidade em cada uma das unidades da federação. É uma maneira de manter a confederação blindada depois do trauma dos anos 2000, quando as CPIs contra a CBF colocaram, por um breve período,  o poder da confederação em risco.

“A percepção é que a atuação da bancada esportiva vai continuar na mesma linha, em apoio aos clubes e à CBF. É uma questão de gestão esportiva, mas que continuam com a mesma visão míope, de olhar apenas para os interesses dos clubes. Vão trabalhar firme para tentar buscar uma política milagrosa, mas não para resolver os problemas estruturais”, analisa Flávia da Cunha Bastos, professora da USP e membro da Comissão Científica da Associação Brasileira de Gestão do Esporte.

Mas há esperanças. O maior exemplo é a Lei de Responsabilidade Fiscal, bandeira empunhada pelo Bom Senso FC e que foi abraçada pelo governo federal, abrindo também negociações com a CBF. Segundo Cruz, o que se comenta no Congresso é que o único entrave entre as duas entidades é em relação à questão dos salários atrasados. Depois disso, as aprovações e emendas a serem feitas na Câmara e no Senado não vão demorar. A expectativa é de que o texto seja sancionado até o início do próximo mandato presidencial.

Uma vitória em prol da mudança no futebol que deve muito à mobilização dos atletas – o que mostra que a sociedade, quando organizada, consegue mudar até o parlamento. “Houve ações nas outras modalidades, com os políticos questionados pelos atletas. Não vejo muitas perspectivas de mudança a partir dos políticos. Não há grande mobilização, o Romário foi uma voz solitária na última legislatura. A esperança é o Bom Senso Futebol Clube, que tem capacidade de pressionar. O futebol é uma questão nacional, mas não existe convergência no debate. Não há vontade ou diretriz, os clubes seguem com sua própria política. A voz forte para mudar é a desses atletas”, opina Bastos.

Como será a composição de vozes

Durante a última legislatura, Romário se destacou na Câmara dos Deputados. Mais do que a fama que o craque fez nos gramados, sua postura combativa contra a CBF às vésperas da Copa do Mundo também ganhou o noticiário. Um trabalho que acabou mostrando sua aprovação nas urnas, com Romário recebendo 63% dos votos do eleitorado fluminense na eleição para senador, vencendo figurões políticos como César Maia (DEM, ex-prefeito do Rio) e Carlos Lupi (PDT, ex-Ministro do Trabalho).

Apesar do jogo de interesses existente com os dirigentes, contudo, Romário apresentou um novo caminho. “Ele foi na contramão do discurso político. Como dizem, botou a boca no trombone. No seu último discurso, ele nomeou sete deputados que fazem lobby à CBF e sequer foi contestado. Isso foi marcante, porque é possível enfrentar quando se tem argumentos embasados”, define José Cruz. “Romário mostrou ter um eleitorado muito forte. Ele também ganhou moral por sua atuação na área da saúde, na qual poucos entram.”

Segundo o jornalista, a expectativa agora é sobre quem poderia ser o herdeiro de Romário dentro da Câmara nesse papel contrário à CBF. Entre os nomes ligados ao futebol, um dos que surgem é o de Andrés Sanchez. Porém, a posição do ex-dirigente do Corinthians é uma incógnita. Ele é opositor político de José Maria Marin, mas é companheiro de partido e de Congresso de Vicente Cândido (PT-SP),  vice-presidente da Federação Paulista de Futebol, sócio de Del Nero e um dos principais representantes da bancada da bola.

Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians e deputado federal
Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians e deputado federal

“Não vejo o Andrés como oposição à CBF. Ele se coloca contra a atual cúpula da entidade, mas tem declarado o sonho de se tornar presidente da entidade. É uma dissidência, mas está no jogo. Andrés é politicamente cria do Vicente Cândido. A CBF continua com a mesma força em sua bancada”, avalia José Renato de Campos Araújo, ex-coordenador do curso de graduação em Gestão de Políticas Públicas da USP e membro do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas).

Romário, em compensação, sobe de estatura no Senado. A nova função dá mais responsabilidades ao craque em relação ao Rio de Janeiro, mas também aumenta a sua representatividade no parlamento. “Agora ele tem mais peso, um mandato mais longo, mais visibilidade. Não acho que a relação de interesses tenha mudado só por causa do Romário. Ele vai fazer barulho, embora seja apenas um senador”, completa Campos Araújo. O mandato de deputado é de quatro anos. O de senador é de oito anos.

Como o futebol será tratado nos próximos anos

O futebol não passou por mudanças decisivas durante a última legislatura. Ainda assim, foi pauta central no Congresso durante a Copa do Mundo. Algo natural, diante da visibilidade do assunto. A questão é o quanto desta importância será mantida nos próximos anos.

Segundo o professor José Renato de Campos Araújo, a tendência é que os esportes olímpicos sejam mais discutidos: “O futebol entra em segundo plano, não vai ser a mesma coisa. O futebol sempre esteve na pauta política, como aconteceu com as CPI’s no início dos anos 2000, mas no último mandato realmente foi mais discutido por causa das circunstâncias”.

De qualquer maneira, a composição do Congresso e os lobbys ainda são decisivos para que novos projetos, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, sejam votados. “Nos últimos anos, o mais comum foi uma postura passiva em relação aos problemas estruturais, muitas vezes ajudando os próprios clubes com a legislação. Há um grupo estudando a mudança há anos, mas sempre barram a aprovação. E não é a população que precisa pagar essa conta. O futebol precisa se estruturar de outra forma”, diz a professora Flávia da Cunha Bastos.

Pela atual composição do Congresso, só mobilização popular e do Bom Senso podem provocar mudanças. A atual relação de forças mantém tudo como está.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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