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Vivendo um desmanche, Corinthians deveria aproveitar melhor o sucesso da base

* Com a colaboração de Caio Alves, do Alambrado

O time ajeitadinho, entrosado, com uma espinha dorsal definida e que entraria na Libertadores como um dos favoritos ao título não existe mais. Diante dos salários astronômicos oferecidos por clubes chineses, o Corinthians perdeu seus dois melhores jogadores, Renato Augusto e Jadson, o esforçado Vagner Love e está perto de ver os ídolos Ralf e Cássio também deixarem o clube. Qualquer projeto bem definido que havia do Alvinegro para 2016 foi para o espaço, e Tite precisará conduzir um processo de reformulação no elenco. Com dificuldades financeiras e com relativamente pouco dinheiro recebido pela venda de seus destaques, essa nova montagem da equipe deveria ser conduzida pensando em algo que há muito tempo falta para a equipe: a maior utilização de suas categorias de base.

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Nos últimos anos, o Corinthians se especializou em vencer competições juvenis, tanto em âmbito nacional quanto internacional. O sucesso é melhor representado na Copa São Paulo de Juniores, o mais tradicional torneio de categorias de base, em que o time é o maior vencedor, com nove conquistas. Só nos últimos sete anos, o clube ficou com a taça em três edições. É de se imaginar que, com tamanho êxito, o Alvinegro fosse um dos maiores reveladores de novos talentos do Brasil, mas a equipe passa longe disso. Tomando como exemplo os elencos do time principal nos últimos anos, são poucos os pratas da casa que conquistaram um espaço significativo: o goleiro Júlio César e os atacantes Dentinho e Malcom são os que alcançaram esse status. Muito pouco.

Segundo números levantados pelo Globo Esporte no ano passado, após a última conquista do Corinthians na Copinha, entre 2004 e 2015, o clube teve 73 jogadores disputando uma decisão da principal competição de categorias de base do país. Desses, apenas 15 fizeram mais do que 30 partidas pelo time profissional, o que não significaria sequer se tornar uma peça importante do elenco, mas sim apenas um indício de oportunidades dadas a esses jogadores criados dentro do clube.

A conquista de um título pode muito bem ser algo pontual, com circunstâncias muito próprias de uma determinada edição de uma competição, e a narrativa pode ser desconstruída para que cheguemos aos fatores preponderantes na vitória, que podem não ser suficientes para que se diga que aquele time tem valores de muito potencial. Mas quando as conquistas são constantes, é seguro dizer que talento existe. Se isso não se traduz em uma maior utilização dos garotos no time principal, o problema está em uma parte do processo posterior à de “garimpo” dos jogadores.

Quando acertou o seu retorno para o Corinthians no final de 2014, Tite ouviu da diretoria que o clube tinha um objetivo de mesclar mais seus profissionais já estabelecidos com a garotada da base. Alessandro, ex-capitão do time campeão mundial e que passou os últimos cinco anos de sua carreira no Alvinegro, foi apontado como coordenador das categorias juvenis, e sua missão era fazer uma integração melhor entre time principal e times de base, mas o projeto já começou com um grande obstáculo geográfico.

Atualmente, os garotos da base do Corinthians treinam no Parque São Jorge, antiga base dos profissionais. A distância para o CT Joaquim Grava, onde fica o elenco principal, é prejudicial para o andamento de um processo de adaptação da garotada ao clube. Apesar de manter uma versão de que é possível fazer um bom trabalho desta maneira, o próprio Alessandro já reconheceu que aproximar os jogadores que vêm sendo formados na base dos comandados de Tite faz a diferença, e por isso o Alvinegro trabalha na construção de um CT para a base localizado ao lado do Joaquim Grava. O difícil mesmo é sair do papel. Os campos já estão lá, sendo cuidados, mas o complexo inteiro, que deverá alojar 170 garotos em três prédios-dormitórios, já teve sua entrega adiada diversas vezes. Em agosto do ano passado, falava-se em conclusão dentro de seis meses. Em entrevista ao Fox Sports no fim de dezembro, Roberto de Andrade, presidente corintiano, reconhecia que os trabalhos poderiam se estender por até mais dois anos.

Todos os anos, após um título ou uma boa campanha na Copa São Paulo, surgem notícias da promoção de alguns dos destaque do Timãozinho à equipe principal. Em 2009, foram Bruno Bertucci, Marcelinho e Boquita os escolhidos. O último teve várias oportunidades de se fixar, ainda que longe das condições ideais de adaptação, enquanto os dois primeiros nem as chances suficientes tiveram. Lucas Sasha, que construiu carreira em Israel, é outro que, com um trabalho de promoção e integração ao time principal, poderia ter se tornado uma peça de elenco útil. Em 2012, o nível técnico do Corinthians campeão da Copinha era superior, e nomes como os zagueiros Antonio Carlos e Marquinhos e os meio-campistas Matheusinho e Giovanni se destacaram e poderiam ter recebido mais espaço e paciência do Corinthians para seguir do desenvolvimento de suas carreiras no clube. Marquinhos, em especial, é um caso ainda mais agudo do aproveitamento ruim da base no Alvinegro, mas já voltamos a isso.

No ano passado, quando a equipe levou a 9ª Copa São Paulo de sua história, o elenco também era forte. Marciel, Guilherme Arana, Matheus Vargas, Léo Príncipe, Maycon, Matheus Cassini e Gabriel Vasconcelos, entre outros. Alguns deles foram promovidos ao time principal, mas sem ganhar chance significativa de se desenvolver e mostrar seu futebol em 2015. O caso de Cassini foi o mais sintomático deles.

O meio-campista foi talvez o maior destaque técnico do time campeão da Copinha passada. Seu nome já era conhecido mesmo antes do início da competição, e clubes europeus já estavam de olho em seu futebol, como, por exemplo, o Atlético de Madrid. Na Copa São Paulo, Cassini confirmou as expectativas prévias e, demonstrando personalidade tanto dentro de campo quanto fora dele, com um discurso de orgulho de defender a camisa do Corinthians, apresentava-se como alguém muito promissor. Tite o promoveu ao time principal, mas sequer o inscreveu para a disputa do Paulistão. Antes que Cassini pudesse jogar um minuto que fosse pelo time principal, o clube vendeu 70% dos direitos do jogador com o Palermo por R$ 3,5 milhões. Negociação que seria inacreditável em qualquer outra agremiação, mas que parece ser apenas um padrão do Alvinegro.

Em 2012, Marquinhos destacou-se na zaga do time campeão da Copinha e subiu para o profissional. Mesmo sem uma adaptação apropriada, demonstrou potencial em seus primeiros jogos. Tecnicamente, também impressionava, e o clube, em vez de segurá-lo, respondeu positivamente ao primeiro aceno europeu. Mais precisamente, por R$ 13 milhões à época, no fim daquele ano. Cerca de seis meses depois, Marquinhos era vendido ao Paris Saint-Germain por mais de R$ 101 milhões, tornando-se, aos 19 anos, o quarto zagueiro mais caro da história até aquele momento.

Formar um jogador com potencial, promovê-lo ao time principal e vê-lo tornando-se um ídolo, com conquistas coletivas e individuais em seu clube de formação, é uma narrativa rara não só para o Corinthians, mas para a grande maioria dos clubes no Brasil. Nosso futebol é exportador, e para essa realidade ser transformada, é necessária uma convergência de fatores difíceis de acontecer. Trabalhar bem a base no Brasil é, em suma, produzir bem e saber vender. Mas nem a esse ponto o Corinthians chega, observando os exemplos mais óbvios e recentes de Cassini e Marquinhos. Na rara ocasião em que algum jovem talentoso sobrevive à adaptação pobremente feita pelo Alvinegro, ele é vendido a preço de banana pelo clube, muitas vezes refém de empresários, de olho no lucro certo e imediato.

A captação de talentos, portanto, está longe de ser um problema para o Corinthians. A questão é como esse talento é aproveitado no time de cima (isso quando acontece algum aproveitamento). A promoção desses jovens ao time principal também acontece, mas a impressão é de que a preocupação vai só até esse estágio. Tomando como exemplo o time campeão brasileiro do ano passado, alguns dos pratas da casa que compuseram o elenco poderiam ter tido muito mais chances do que de fato tiveram.

Diante das lesões de Fágner e da constatação da fragilidade técnica de Edílson, por que Léo Príncipe, que demonstrou potencial na conquista da Copinha, não ganhou sua chance? Por que foi preciso que Fábio Santos fosse negociado e Uendel se contundisse para o ótimo Guilherme Arana começar a fazer parte da rotação do elenco? Por que Marciel, que nas pouquíssimas vezes em que jogou foi bem, não entrou mais também no rodízio do time? E Pedro Henrique? O zagueiro mostrou seu potencial na Copa São Paulo, foi promovido ao elenco principal, viajando até para a Florida Cup no início de 2015, e não jogou nem mesmo uma partida durante todo o ano passado.

Desoladora por um lado, a debandada de jogadores do elenco principal do Corinthians pode ser também uma grande oportunidade de o clube colocar em prática uma política de aproveitação melhor de seus atletas. Não atirando-os à fogueira, como titulares, como salvadores da pátria, esperando que cheguem perto do futebol apresentado por jogadores já estabelecidos e experientes. Mas, pelo menos, incluindo-os em mais e mais partidas, usando esses jogadores para compor o elenco e dando-lhes uma oportunidade de se adaptar ao ambiente do profissional. Buscando uma estabilidade do time principal que possibilite a entrada gradativa dos jogadores de maior potencial de suas categorias de formação.

A principal função da base é prover ao time principal opções interessantes, que evitem uma gastança com medalhões no mercado, e não colecionar títulos. No Corinthians, a realidade é oposta: a galeria de títulos só aumenta, mas ainda são poucos os que servem ao time principal.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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