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Bastidores: como polêmica entre Vasco, Flamengo e Fluminense por Maracanã levou semi do Carioca para Volta Redonda

Inscrição em camisa, versões conflitantes, demora em liberação e mudança de sede: semifinal do Carioca sai do Maracanã para Volta Redonda em meio à polêmica entre Vasco, Flamengo e Fluminense

A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) confirmou o Raulino de Oliveira, em Volta Redonda, como palco do jogo de volta da semifinal entre Nova Iguaçu e Vasco pelo Campeonato Carioca. Mas a decisão, na verdade, não teve muito a ver com a entidade. Uma nova polêmica do Cruz-Maltino com Flamengo e Fluminense nos bastidores criou toda a confusão.

A Trivela conversou com nove fontes de diferentes lados do futebol carioca para entender como um jogo que era esperado para o Maracanã acabou 125km distante no estádio do sul fluminense.

As disputas de bastidores envolveram tensões políticas, uma relação desgastada e uma gota d'água: a inscrição “Maracanã para todos” na camisa do Vasco no primeiro jogo das semifinais, com o clube de São Januário como mandante, no estádio hoje administrado pela dupla Fla-Flu.

Os embates entre o Vasco e os rivais Flamengo e Fluminense pelo estádio são antigos e se intensificaram nos últimos anos. Por meio de liminares judiciais a partir do edital que rege a concessão temporária do Maracanã à dupla Fla-Flu, o Cruz-Maltino tem mandado partidas que considera importantes no antigo Maior do Mundo. Não sem impor sua discordância de que o estádio seja administrado apenas pelos dois rivais.

Sempre que se utiliza do estádio por meios judiciais, o clube de São Januário faz provocações a Flamengo e Fluminense. Após reclamações sobre o gramado e a estrutura, além de publicações irônicas nas redes sociais, a última provocação foi por meio de uma mensagem no espaço mais valorizado de sua camisa.

A frase “Maracanã para todos” também dá nome ao consórcio formado pelo Vasco com a construtora WTorre na disputa pela licitação que concederá o Maracanã para o vencedor pelos próximos 20 anos.

Procurados pela reportagem, Flamengo e Fluminense não se pronunciaram oficialmente, mas afirmaram que seguiriam o posicionamento do Consórcio Maracanã.

Sem Maracanã, Nova Iguaçu indica Volta Redonda e pensa em lado esportivo

O Nova Iguaçu tinha a intenção de mandar o jogo no Maracanã já antes da primeira partida, quando o empate por 1 a 1, no estádio, com mando do Vasco, manteve a vantagem da “Laranja Mecânica” na semifinal. A prerrogativa de definição do local do jogo da volta era do mandante, neste caso, o clube da Baixada Fluminense.

Nova Iguaçu e Vasco empataram por 1 a 1 no jogo de ida das semifinais do Campeonato Carioca (Foto: Úrsula Nery/FERJ)
Nova Iguaçu e Vasco empataram por 1 a 1 no jogo de ida das semifinais do Campeonato Carioca (Foto: Úrsula Nery/FERJ)

Pessoas ligadas à diretoria do Nova Iguaçu confirmavam que havia a intenção, mas também uma dúvida: por um lado, a renda da partida seria importante financeiramente para o clube, mas por outro, a presença maciça de torcedores do Vasco daria vantagem esportiva ao Gigante da Colina no jogo. O impasse permaneceu em reuniões internas até que houve o pedido enviado ao Consórcio, com cópia à Ferj, para jogar no Maracanã.

O pedido não foi respondido no prazo estabelecido em conversas entre o clube e a Ferj — prazo que valeria para qualquer clube para logísticas e operação do jogo. Assim sendo, o Nova Iguaçu, que escolhera um estádio do qual não é dono ou concessionário, indicou o Raulino de Oliveira. A Ferj, nesse caso, não tinha poder de decisão, apenas de confirmação.

O Vasco chegou a deixar seu departamento jurídico à disposição para auxiliar em uma tentativa judicial do Nova Iguaçu em requisitar o mando de campo do Maracanã para o jogo de domingo (17). O clube da Baixada Fluminense, por outro lado, preferiu não entrar em uma contenda na Justiça contra Flamengo e Fluminense, clubes que considera parceiros. A diretoria tampouco se sentiu “prejudicada” pela decisão, pensando também pelo lado esportivo.

Polêmica do Maracanã tem versões diferentes nos bastidores

A Trivela recebeu versões diferentes nos bastidores das notas oficiais publicadas por Nova Iguaçu, Vasco e o Consórcio Maracanã, administrado por Flamengo e Fluminense.

Fontes ligadas à diretoria do Flamengo afirmaram que “o departamento jurídico do clube jamais recebeu” a solicitação do Nova Iguaçu. Por outro lado, a reportagem apurou que a solicitação foi feita ao Consórcio Maracanã e à Ferj.

Em nota oficial enviada à imprensa, por outro lado, o Consórcio Maracanã disse não ter conseguido cumprir o prazo. A Trivela apurou que a Ferj também recebeu a solicitação do Nova Iguaçu, mas não obteve resposta.

O Nova Iguaçu precisava de uma resposta até o meio-dia de hoje (13/03). Como o consórcio ainda estava analisando a solicitação feita, o clube optou por marcar logo o jogo no Estádio da Cidadania, em Volta Redonda“, afirmou o Consórcio Maracanã.

Camisa do Vasco foi estopim de crise com Flamengo e Fluminense por Maracanã

Se não foi o fato mais importante da polêmica, a camisa utilizada pelo Vasco no jogo de ida das semifinais contra o Nova Iguaçu, no Maracanã, foi importante para a polêmica. A inscrição “Maracanã para todos” no espaço do patrocínio master incomodou tricolores e rubro-negros.

Os administradores do estádio, por outro lado, afirmam que a irritação não era suficiente para qualquer problema quanto à definição do jogo da volta. O Maracanã, de acordo com fontes ligadas a Flamengo e Fluminense, não foi negado ao Nova Iguaçu — e a decisão não tinha nenhuma intenção de prejudicar o Vasco ou outros clubes.

A Trivela apurou que a camisa com o nome do consórcio formado por Vasco e a construtora WTorre para administrar o Maracanã foi a “gota d'água” de uma relação já muito desgastada. O “clima bélico” do Cruz-Maltino na disputa, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem, é visto como incômodo e uma escalada de violência por conta da rivalidade potencializada pelos discursos é uma preocupação das autoridades do Rio de Janeiro neste momento.

Governador do Rio de Janeiro afirma que liberou Maracanã

Em posicionamento publicado em um vídeo em sua rede social, o governador Cláudio Castro (PL-RJ) afirmou que recebeu pedido por telefone do deputado Anderson Moraes (PL-RJ) e do presidente do Nova Iguaçu, Jânio Moraes, para que o clube da Baixada Fluminense disputasse a semifinal no Maracanã. O alcaide teria dado sua permissão.

Cláudio Castro afirmou ainda que o Governo do Estado do Rio de Janeiro jamais prejudicaria o Vasco.

Procurada pela reportagem, a Secretaria da Casa Civil do Governo do Estado do Rio de Janeiro respondeu em nota oficial:

“Todas as cláusulas do contrato de Termo de Permissão de Uso que confere aos clubes Flamengo e Fluminense a gestão do Maracanã estão vigentes. Até o momento, o Governo do Estado não foi comunicado formalmente sobre possível descumprimento de qualquer cláusula do contrato. Caso seja oficializado, o Estado realizará uma avaliação técnica para checar se houve veto ou descumprimento de qualquer regra e tomará as medidas cabíveis, caso seja confirmada a conduta.”

Vasco vê prejuízo ao Carioca e chama decisão de ‘lamentável'

Em um posicionamento oficial em suas redes sociais, o Vasco, visitante na partida de volta das semifinais, ironizou a decisão do Consórcio Maracanã. Para os cruz-maltinos, é “lamentável a dificuldade em se jogar no estádio”.

A nota oficial chamou a dupla Flamengo e Fluminense de “poucos nobres encastelados”, seguindo a linha do Vasco em se opor aos rivais, como historicamente, também pelo contraste social da formação dos clubes. O Cruz-Maltino afirma que deseja uma gestão compartilhada do estádio.

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Caio Blois

Caio Blois nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e se formou em Jornalismo na UFRJ em 2017. É pós-graduado em Comunicação e cursa mestrado em Gestão do Desporto na Universidade de Lisboa. Antes de escrever para Trivela, passou por O Globo, UOL, O Estado de S. Paulo, GE, ESPN Brasil e TNT Sports.
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Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues é jornalista formado pela UFF e soma passagens como repórter e editor de Lance!, Esporte News Mundo e Jogada10.
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Guilherme Xavier

É repórter na cobertura do Flamengo há três anos, com passagens por Lance! e Coluna do Fla. Fã de Charlie Brown Jr e enxadrista. Viver pra ser melhor também é um jeito de levar a vida!
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