Brasil

Seleção brasileira: Uma nova família Scolari

Goleiros

Segue valendo a máxima de que “goleiro é cargo de confiança”. Foi assim em 2002, quando tantos queriam Dida, outros pediam Rogério Ceni e Felipão insistiu com Marcos, seu comandado dos tempos de Palmeiras, com incontestável sucesso. Scolari agora aposta na experiência de Júlio César, que já atuou em uma Copa do Mundo e esteve entre os melhores arqueiros do planeta. Embora não se possa dizer que seus principais concorrentes sejam inexperientes, ou “incapazes de atuar pela seleção diante de um Maracanã lotado”, como já ouvi por aí de alguns mais exagerados.

Mas é preciso dizer que nem tudo são flores. Nesse caso, talvez tulipas. A falha de Júlio contra a Holanda ainda paira no ar e, ao menor erro, o seu resgate pode ser espinafrado de forma generalizada. Desde então, viveu péssimo momento na Inter, de onde não saiu apenas por ter salário alto, mas também por passar a ser visto como dispensável. Ele está bem no Queens Park Rangers, mas há de se fazer a ressalva de que um bom goleiro de um time muito fraco acaba aparecendo mais, por ser muito acionado, e tem os gols que toma naturalmente relativizados. Ainda mais em uma Premier League marcada por placares elásticos e defesas desatentas, até mesmo nas principais equipes.

Só espero que a decisão de Felipão não tenha sido norteada pelo falso mantra que andou ecoando pela mídia, estimulado principalmente pelas vozes de Galvão Bueno e Walter Casagrande: “Mano Menezes ainda não achou um goleiro para a seleção”. Mentira. O ex-técnico do Brasil pode ter testado mais nomes do que deveria, mas, já há vários jogos, o ótimo Diego Alves havia se firmado na posição. O fato de não ser muito conhecido por aqui e se revezar no gol do Valencia com o também ótimo Guaita (um dos cotados para substituir Valdés no Barcelona) parece impedir muitos de reconhecerem o valor do atleta.

Tudo também poderia ser diferente se Diego Cavalieri, disparado o melhor goleiro em atividade em território nacional, tivesse recebido todas as chances que merecia. Quem viu o Fluminense brincando com a sorte em algumas partidas sabe o quão absurdo é que Diego continue fora da seleção. Júlio César pode pegar e não largar mais a camisa 1. Pode até virar santo, como aconteceu com Marcos, e ser brilhante na próxima Copa. Mas não dá para não pensar que desperdiçaremos uma geração de bons goleiros, que chegarão ao próximo ciclo com menos experiência do que deveriam, e talvez sejam atropelados por outros mais jovens, como Cássio e Rafael.

Defensores

Na ausência forçada de Thiago Silva, algum bom zagueiro pode ter a oportunidade de mostrar o seu valor. Talvez até dois, caso David Luiz pinte como volante, emulando o Edmílson da Copa da Coreia do Sul e do Japão. Leandro Castán, que até quebrou um galho na lateral esquerda, merece continuar no grupo. Dante, que foi um dos melhores zagueiros da Bundesliga atuando pelo Mönchengladbach e se firmou rapidamente no gigante Bayern só é surpresa para quem não acompanha o seu trabalho. E Miranda, que demorou a se adaptar ao Atlético de Madrid, voltou a jogar bem, como fazia com muita regularidade no São Paulo. Espera-se que Dedé volte aos seus melhores dias para entrar nessa briga.

Outro jogador do vice-líder da Liga Espanhola foi lembrado com justiça. Beneficiado pela lesão de Marcelo, Filipe Luís, também pilar do sólido sistema defensivo montado por Diego Simeone, retorna ao radar da seleção. E torce para que Scolari esteja vendo o ótimo desempenho de Adriano, também na lateral direita do Barcelona, o que poderia lhe abrir um lugar no grupo, mesmo quando o jogador do Real Madrid estiver pronto para outra. Daniel Alves, que joga só com o nome há um ano e meio, continuará sendo titular, no entanto.

Volantes

Para muitos, a grande surpresa da primeira convocação de Felipão está na ausência de um “primeiro volante de ofício”. E olhe que não lhe faltavam opções, como Ralf, para manter a dupla de contenção corintiana, e Lucas Leiva, que exerce a função com muita competência no Liverpool, onde se tornou ídolo da torcida. Caso David Luiz não seja aproveitado no meio campo, Scolari estará dando um voto de confiança a volantes técnicos, mantendo o que Mano havia adotado nas últimas partidas. Paulinho, Ramires, Hernanes e Arouca podem sim dar conta do recado.

Enquanto o ex-técnico hesitava em escalá-lo em uma posição onde não atua pela Lazio, Felipão deixou claro na coletiva que vê Hernanes como um segundo homem de meio campo. Não é porque ele cumpre bem a função no setor de criação do clube italiano, que não pode reviver seus dias de volante, pois foi assim que despontou no São Paulo. Trata-se de um jogador ambidestro, dedicado à marcação e que, vindo de trás, pode qualificar a saída de bola e aparecer como elemento-surpresa. Se não foi falado apenas da boca para fora, o novo aproveitamento de Hernanes tem tudo para ser o maior acerto do treinador em seu começo de gestão.

Meias e Atacantes

Os nomes óbvios, que já haviam até sido adiantados por Scolari, estão lá: Neymar, Oscar e Lucas. O primeiro, claro, é titular absoluto. Resta saber se o segundo conseguirá se manter no time, ou perderá espaço para Ronaldinho. Já o novo xodó do PSG pode ganhar fôlego em sua disputa particular com Hulk pela vaga na ponta direita. E pode até ser prejudicado por Carlo Ancelotti, caso o treinador italiano continue insistindo em escalá-lo pela faixa central. O que não acontece por teimosia, mas sim pela dificuldade que Lucas tem em acompanhar as descidas do lateral adversário, mesmo que sempre tenha se esforçado para tal no São Paulo.

Ronaldinho continua sendo um caso à parte. Pelo que jogou no Brasileirão, não há dúvidas que tenha bola para jogar na seleção. Mas se não repetir o desempenho, passa de solução (como José Maria Marin parece encará-lo) a maior de todos os problemas. É válido argumentar que o dentuço já teve a chance de voltar à equipe e não soube aproveitar. Mas é viável rebater esse argumento com a lembrança de que Mano Menezes escolheu um péssimo momento para apostar em seu retorno. O mais importante aqui é que Felipão arme um esquema que possa funcionar com ou sem o seu relapso conterrâneo. Construir uma equipe em torno de alguém que, de tempos em tempos, parece desistir da própria carreira, seria uma calamidade.

Centroavantes

Para o alívio daqueles que não aguentam mais ouvir em “falso nove” e a felicidade geral daqueles que concordam com a canção que diz que o centroavante é o mais importante em uma emocionante partida de futebol, Felipão já deixou bem claro que gosta de jogar com um homem de área. Como os atacantes brasileiros do futebol europeu não fazem mal nem a uma mosca (por mais que Wellington Paulista se diga disposto a provar o contrário), nada mais natural que Fred e Luís Fabiano, que desandaram a fazer gols no Brasileiro, sejam os nomes escolhidos pelo treinador. Embora o artilheiro são-paulino talvez não merecesse ser premiado, pouco mais de um mês depois de ser expulso por bobagem em uma final de campeonato.

Paradoxalmente, é uma boa notícia também para Alexandre Pato e Leandro Damião, por mais que os atacantes revelados pelo Internacional não tenham sido capazes de se firmar na seleção. Como Mano havia decidido aproveitar Neymar como referência do ataque, sobrava uma vaga a menos no elenco canarinho. Seus rivais na Era Scolari são jogadores de uma certa idade, com histórico de lesões e temperamento difícil. Portanto, desde que apresentem um bom desempenho em seus clubes, a porta continua aberta para Pato e Damião. E não é difícil imaginar que algum dos veteranos a escancare daqui para a Copa do Mundo.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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