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Jadson, Ganso e Cañete: Um conto de três meias

Um paraense, um paranaense e um argentino entraram em um bar. Se eu quisesse contar uma piada (ruim, naturalmente), iniciaria assim o post. O equivalente do bar em questão é o São Paulo, mas não farei troça quanto aos hábitos etílicos de seu presidente. Não desta vez. O que posso dizer é que, há algum tempo, a equipe tricolor não tinha um meia de criação sequer, o que seria quase como um bar sem bebida alcoólica para servir. Justamente por isso, os que chegaram para burlar a lei seca despertaram desleais expectativas. E agora, com todos em condição de jogo, Ney Franco tem de se virar para encontrar a mistura perfeita para o seu coquetel.

O paranaense não foi o primeiro a chegar, pois o argentino pintou no semestre anterior, embora mal tenha entrado em campo e já tenha se lesionado seriamente. Chegou, no entanto, com a responsabilidade de carregar o mais emblemático dos números. Trazer o camisa 10 mais vitorioso da história do clube para entregar ao novo reforço tal peça de roupa pode ter sido proveitoso do ponto de vista do marketing e também um gesto bonito, mas colocou um peso ainda maior nos ombros de Jadson. Até porque, no imaginário de muitos torcedores, o camisa 10 ainda é aquele cara que coordena todas as ações do time, que pede a bola e resolve sozinho.

De carreira bem sucedida no Shakhtar e passagem pela seleção, Jadson tem qualidade para ser titular de qualquer clube brasileiro, embora nem sempre receba reconhecimento à altura de suas capacidades. Só que ele não é o craque que desequilibra uma partida com dribles desconcertantes. Tampouco o maestro que roda a bola e cadencia o jogo. Jadson é, por assim dizer, um acelerador. Seu forte está na velocidade com que raciocina e aciona seus atacantes. Não à toa, cresceu quando Osvaldo e Lucas passaram a atuar juntos, dando opções nas duas pontas. Por arriscar sempre, comete os erros de passe que fazem parte da torcida pegar no seu pé.

Se o crescimento do São Paulo se deu a partir da ambientação de Jadson, ou a melhora da equipe facilitou a sua adaptação, pouco importa. O jogador conquistou seu espaço e se encaixa no que Ney Franco pensou para o seu time. Ainda que não seja exatamente um meia de encher os olhos. Como foi um dia o paraense, que chegou ao clube como um negócio de ocasião. O clube da capital surgiu como um recomeço para o jovem craque, em desavença com a diretoria do Santos. Seria a preguiça dos últimos jogos causada pela insatisfação com a sua situação? Reflexo das lesões dos últimos meses? Arrogância de alguém que jogava menos bola do que acreditava jogar?

O São Paulo pagou para ver. Demorou para dar uma espiada, é verdade. A recuperação de Paulo Henrique se arrastou além do esperado e, acertadamente, a comissão técnica optou por aguardá-lo sem pressa. Até porque o time estava voando, avançava na Sul Americana e brigava pela ponta da tabela do segundo turno do Brasileiro. Na reta final dos torneios, Ganso pôde matar a curiosidade da torcida e pegar ritmo de jogo. Com a saída já prevista de Lucas, muitos davam como certo que ele ocuparia essa vaga, que isso não afetaria o rendimento de Jadson, que tudo ficaria bem… ou seja, que a vida se adapta às nossas expectativas e não o inverso.

Realidade aumentada

Nos primeiros treinos com bola da pré-temporada, Ney notou que Jadson teria dificuldades, ainda que inicialmente, de ocupar a faixa direita do campo. A formação em losango também não daria pé, porque ele e Ganso esbarrariam constantemente pelo setor de criação. Não só pelas características dos dois, mas também pela baixa (para não dizer “falta de”) mobilidade do ex-santista. Como a Libertadores começaria cedo demais, o técnico tomou a decisão mais sensata: manter o esquema vitorioso a qualquer custo. Para isso, Ganso voltou ao banco, pois Jadson está melhor. E Aloísio ganhou chance pela direita, como forma de acuar o fraco oponente.

Não há de funcionar sempre. Primeiro porque poucos adversários abdicarão de atacar pelas pontas, o que poupou Aloísio de acompanhar descidas do lateral do Bolívar (e o que fez com que Douglas, costumeiramente uma avenida, não tivesse problemas também). Por isso, Ney Franco, com o auxílio enfático de Rogério Ceni, segue pedindo a contratação de pelo menos um atleta que jogue pelas pontas, permitindo a manutenção de seu 4-3-3. O ideal seriam dois, já que Osvaldo corre feito um condenado, mas talvez não aguente sozinho o pique de uma temporada que promete ser desgastante. Há de se dizer que a diretoria trouxe dois jogadores com essas características, sendo que Negueba ficará fora de combate pelo semestre inteiro e Wallyson é uma incógnita.

Ainda é cedo para descartar Ganso e Jadson jogando juntos. Mas isso exigiria sacrifício de ambos. O paranaense demonstra vontade para tal, mas nitidamente se sente menos à vontade quando deslocado para a beirada do gramado. Talvez encarasse o desafio com mais afinco, se o seu colega não parecesse alérgico a qualquer tipo de esforço. Deve ser mesmo difícil encarar uma posição que não é a sua enquanto se olha para o lado e vê o novo dono do seu antigo pedaço se comportando displicentemente. Foi o que aconteceu contra o Mirassol, quando Ganso esperava a bola sempre no pé e acabava se autoexcluindo dos lances mais importantes.

Da mesma forma que é precipitado considerar Ganso um caso perdido, como muitos andam fazendo, é irresponsável tratar um jogador de meros 23 anos como um veterano consagrado, cheio de vontades. “Ele pode desequilibrar com um simples toque na bola, são os outros que têm de correr por ele”. Não é bem assim, campeão. Imaginem o que seria do Barcelona se Messi, Xavi e Iniesta acreditassem nisso. Ninguém pede que Ganso dê arrancadas alucinantes ou se desdobre na marcação, mas sim que apareça para o jogo, dê margem a tabelas e chegue perto do gol para finalizar. Timidamente, o fez diante do Atlético Sorocaba. Ainda é pouco.

Um possível aliado

Ironicamente, a solução temporária dos problemas são-paulinos pode estar em um argentino que muitos brincavam que nem existia, diante de sua presença fantasmagórica em seus primeiros 18 meses de clube. Solução tanto para um melhor aproveitamento de Ganso, quanto para ocupar o lado direito do ataque, caso um substituto mais adequado para Lucas não seja contratado. Longe de ser o novo Riquelme que a torcida do Boca esperava, Cañete se destaca pelo drible curto e pelo controle da bola. Não é muito rápido, mas tem facilidade para a tabela, o que pode beneficiar Ganso e até atrapalhar Jadson, considerando o estilo de ambos.

Mesmo com a presença de um companheiro que se adeque melhor ao seu ritmo, o futuro de Ganso no São Paulo e na modalidade passa por uma mudança de atitude da parte do próprio jogador. Se ele vem se movimentando pouco por preguiça ou prepotência, precisa tomar uma porrada da realidade. Se há uma limitação física envolvida, terá de usar encontrar um novo jeito de jogar. Quem o vê tratando a bola com tanta categoria sabe que inteligência não faltaria para isso. E se irrita com tanto desperdício de talento.

Não é porque um atleta custou vários milhões que o treinador deve montar sua equipe condicionada exclusivamente à recuperação dele. O São Paulo terá rasgado muito dinheiro se não conseguir fazer Ganso render, mas essa perda pode ser compensada com títulos e premiações, mesmo sem ter o rapaz em campo, caso Jadson, Cañete, Aloísio, Wallyson e companhia deem conta do recado. Perda maior seria a de Paulo Henrique, que acabaria completamente desacreditado. É dele que tem de partir o sacrifício. Do contrário, o paraense pode se tornar uma desastrada piada. E nem precisaria entrar acompanhado em um bar para tal.

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Ricardo Henriques

Jornalista agnóstico formado pela Universidade Católica de Pernambuco, Ricardo Henriques nasceu, foi criado e se deteriorou no Recife, cidade com a qual vive uma relação de amor (mentira) e ódio. Não seguiu adiante com seus sonhos de ser repórter esportivo, nem deu continuidade à carreira como centroavante trombador e oportunista nas areias de Boa Viagem, mas encontrou no Twitter a plataforma ideal para palpitar sobre todos os assuntos onde não foi chamado. Viciado em esportes, cinema, seriados de TV e escolas de samba, tem mania de fazer listas que só interessam a si próprio, chegando ao ponto de eleger suas musas como se selecionasse o onze inicial de um time de futebol. Esse blog não trará informações quentes de bastidores, análises táticas abalizadas ou reflexões ponderadas. O que talvez, por consequência, não traga leitores. No cardápio: ranzinzices bem humoradas, cornetadas debochadas e fartas doses de cretinice e cultura pop, temperando o que há de mais ridículo e pernóstico no mundo do futebol. PS: ele tirará uma onda com o seu time ou os seus ídolos, mais cedo ou mais tarde. Não vai adiantar você fazer careta e espernear que nem o Mourinho faz quando é contrariado. Contato: [email protected]

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