Brasil

Um abraço, Maurício

Depois de uma noite de sono, a primeira notícia do dia chega como um soco. Morreu Luís Noriega, um dos grandes locutores de futebol que conheci. Pai de Maurício Noriega, um dos meus grandes amigos.

E a cada vez que isso acontece o sentimento de arrependimento volta: poderia ter ligado antes, mas como tive notícia de melhora, deixei para lá. Agora, o que resta é o abraço e o telefonema.

Luís Noriega faz parte da memória afetiva de muita gente. Ele – e sua voz maravilhosa – nos remetem a um tempo diferente, em que o futebol não era apenas parte da programação de uma emissora. O futebol não era da rede Tal, era a rede Tal que transmitia futebol.

Mais do que um programa da grade, era um evento jornalístico a ser coberto. Não era necessário elogiar sempre. E como era difícil ver Luís Noriega elogiando. Ele era ácido, muito discreto, não tinha bordão. Eu me lembro de uma vez em que foi traído pelo seu modo crítico. Era uma final de Mundial de Basquete do Sírio. Não sei contra quem.

E o Luis estava criticando o modo de o Sírio jogar, sempre buscando arremessos e sem jogo de conjunto. Era arremesso atrás de arremesso. E crítica em cima de crítica. Até que Oscar fez mais uma das suas e o Sírio foi campeão. E Luís Noriega foi da crítica – mais uma vez o Brasil tenta um arremesso – até o entusiasmo discreto – nada a ver com o pachequismo de hoje – do Sírio campeão do mundo.

Com sua voz forte, Luís Noriega abdicava de bordões. O seu gol era algo do timpo. “Pedro Rocha, primeiro gol do São Paulo no Morumbi” ou Palhinha, segundo gol do Corinthians no Pacaembu”.

Sempre discreto, nunca quis ser mais que a notícia. Mas está na história do jornalismo brasileiro. E o comunicado de sua partida não precisava, como foi feito, de um aposto esclarecendo que é pai de comentarista da Globo. O tal comentarista, eu sei muito bem, tem como maior orgulho na vida ser filho do homem cordial, ácido, discreto e de voz marcante. Maurício é filho de Luís.

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