Brasil

‘Já que os técnicos brasileiros estão desgastados, é o momento dos dirigentes representarem o país’

Com passagens por Corinthians e Athletico-PR, Fernando Yamada atualmente ocupa o cargo e diretor esportivo em time português

Desde janeiro, o Portimonense, clube da segunda divisão de Portugal, é dirigido pelo brasileiro Fernando Yamada. É o primeiro trabalho do dirigente no exterior, considerando até mesmo o período como atleta profissional de futebol. 

Fernando Yamada atuou como goleiro entre o fim da década de 90 até 2014. Revelado pelo Corinthians, rodou durante a carreira por equipes de média expressão, sendo todas no Brasil. 

Hoje, porém, ele trilha um caminho internacional que é cada vez mais comum para os dirigentes e menos para os treinadores. Por isso, inclusive, Yamada afirmou em entrevista exclusiva à Trivela que, na visão dele, cabe aos gestores esportivos a grande responsabilidade de representar o futebol brasileiro no exterior.

– Não me vejo voltando ao Brasil. Quero aprender aqui, fazer cursos aqui. Aprender mais na área. É um momento especial para os gestores brasileiros. Os treinadores brasileiros perderam espaço no mercado externo. Não tem tanto treinador brasileiro no mundo árabe, Japão, Ásia. Porém, os executivos de futebol ganharam espaço. A gente precisa aproveitar esse momento. Já que os treinadores estão desgastados, é o nosso momento de representar o futebol brasileiro – disse Fernando Yamada em entrevista exclusiva à Trivela.

Destacam-se atualmente no cenário internacional Thiago Scuro, no Mônaco, Edu Gaspar (ex-Arsenal e anunciado nos últimos dias no Nottingham Forest, ambos da Inglaterra) e a dupla André Zanotta e Sandro Orlandelli, no Dallas FC, dos Estados Unidos. 

Em Portugal, a SAD do Santa Clara é gerida por um brasileiro: Bruno Vicentin. A equipe, por sinal, foi a quinta colocada na última edição do Campeonato Português. 

E se hoje, por exemplo, duas entre as cinco principais ligas da Europa (Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França) possuem dirigentes brasileiros: Edu Gaspar, no futebol inglês, e Thiago Scuro, no francês. 

Enquanto isso, faz seis anos que o Brasil não é representado por algum técnico nestes campeonatos. O último foi Sylvinho, em 2019, no Lyon, da França. 

Ruan, do Portimonense, em campo
Ruan, do Portimonense, em campo. Foto: IMAGO

Ida de Yamada para clube português começou em Dubai e teve dedo do Corinthians

Anunciado pelo Portimonense em janeiro de 2025, com o clube já na segunda divisão local, Fernando Yamada teve uma carreira como gestor de futebol no Brasil. 

Após se aposentar dos gramados, ele iniciou o trabalho como dirigente no Osasco Audax, em 2014. Entre 2017 e 2021, foi gerente das categorias de formação do Corinthians, clube que o revelou como atleta. Também trabalhou na base e profissional do Athletico-PR, em 2022. 

Mas foi por conta da passagem do Timão que Yamada conheceu Theodoro Fonseca, empresário brasileiro que é o principal acionista da SAD do Portimonense. 

O primeiro contato entre eles aconteceu em Dubai, nos Emirados Árabes, onde o dirigente estava morando e tocando um projeto de consultoria esportiva. 

Fernando Yamada Corinthians
Fernando Yamada gerenciou as categorias de base do Corinthians entre 2017 e 2021 (Foto: Reprodução/Instagram)

E a ideia de se mudar para o país foi por conta de uma visita ao lugar em 2020, quando Yamada foi à cidade para auxiliar na criação do departamento internacional do Corinthians. 

– Eu estava lá (em Dubai) há um ano e oito meses. O dono do Portimonense mora em Dubai. Conheci o Theo, que é brasileiro, através de um amigo. Nos conectamos lá. O Theo jogou no Corinthians, no fim dos anos 80. Nos conectamos por conta dos muitos amigos em comum. Rolou a oportunidade e está sendo muito legal. É um clube-empresa, sem questões políticas – contou Fernando Yamada. 

No Portimonense, Yamada realizou um sonho que não conseguiu realizar enquanto jogador profissional de futebol. 

– Sempre tive o sonho de, como atleta, jogar fora do Brasil. Na minha época era menos comum goleiro jogar bola. Eu não tinha passaporte comunitário. Era difícil contratar goleiro brasileiro, que ocuparia a vaga de estrangeiro. Não consegui realizar o sonho da época de jogador, viver algo diferente – disse Yamada. 

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Para Yamada, formação beneficia técnicos portugueses no Brasil

José Boto e Filipe Luís
José Boto e Filipe Luís (Foto: Divulgação/Flamengo)

A contramão de Fernando Yamada não é só devido à presença no exterior enquanto há cada vez menos brasileiros no mercado internacional, mas também a presença em Portugal, país que cada vez mais exporta profissionais ao Brasil. 

Desde 2019, há uma onda muito grande de treinadores portugueses. Porém, na temporada atual alguns times também contrataram dirigentes lusitanos. José Boto é o diretor de futebol do Flamengo. Já o Vasco da Gama conta com Admar Lopes como executivo. 

Para Fernando Yamada, o destaque dos profissionais portugueses no Brasil está na formação acadêmica, sobretudo em relação aos treinadores. 

– O que tem causado grande polêmica é o alto volume de treinadores no Brasil. Portugal é conhecido como um país de estudo, tem esse know how. De modo geral, as universidades são boas. Porto e Lisboa são referências mundiais na formação de treinadores. Os treinadores aqui se beneficiam disso. Os cursos de formação são muito mais complexos do que os da CBF, por exemplo. São mais longos, o funil é mais curto, mais difícil entrar. Eles se preocupam mais com a formação do treinador – contou Yamada. 

Futebol brasileiro assusta até dirigentes no exterior e SAFs são tratadas como esperança

Mesmo em Portugal, Fernando Yamada segue acompanhando o futebol brasileiro, inclusive profissionalmente. A inflação em relação ao mercado verde e amarelo assusta até mesmo quem está no exterior. 

– Valores altos, que assustam. Nós, que monitoramos o futebol brasileiro para jovens talentos para as equipes B, ficamos assustados. Onde isso vai parar? Quanto mais profissionais preparados nos setores, menos vão ser investidos em salários altos. Os profissionais preparados vão ser muito mais criteriosos para investir – destacou o dirigente. 

No entanto, Yamada acredita que a chegada das SAFs no Brasil tende ajudar os clubes a profissionalizar os seus processos de gestão. 

– A transformação dos clubes em SAF vai ajudar muito. Quando eram associativos, eles não se importavam como deveria com a formação, uma vez que tem uma pessoa com dinheiro vai cobrar resultado. E o maior resultado em clube-empresa é projetar ativos. Você fica mais perto de ganhar campeonatos. Você precisa melhorar o time, ter ativos para vender. Você vai investir na base. Vai ser seletivo nos profissionais que vão liderar os departamentos. Antes, era muito difícil. No associativo, contratava o amigo do amigo – revelou Fernando.

E o Portminonense do Yamada?

Time dirigido por Fernando Yamada, o Portimonense disputará a divisão de acesso do Campeonato Português pela segunda temporada consecutiva. O profissional chegou durante a disputa do último torneio, em que a equipe terminou na 15ª colocação, a um ponto do playoff do rebaixamento.

– Time não caiu por um ponto na temporada passada. Vinha de sete anos consecutivos na Série A. Chego em janeiro, no meio da temporada. Já mudamos comissão técnica e iniciamos o processo de remodelagem de elenco – disse Yamada.

O Portimonense estreia na segunda divisão portuguesa no dia 10 de agosto, contra o Penafiel. Antes, o time fará cinco amistosos durante a pré-temporada contra Coventry City, Fernebaçhe, Santa Clara, Vitória de Guimarães e Casa Pia.

Foto de Fábio Lázaro

Fábio LázaroSetorista

Nascido em Santos, criado em São Vicente e entregue a São Paulo. Na Trivela desde junho de 2024, como setorista do Corinthians. Passagem pelo Lance! entre fevereiro de 2020 e maio de 2024, onde cobriu Santos e Corinthians. Por lá, também coordenou pautas e estratégias digitais. Atualmente, também é comentarista no programa Esporte por Esporte, da TV Santa Cecília.

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