Torcida mista volta ao GreNal para reforçar a ideia da convivência tranquila entre rivais

Em março, durante o GreNal 404, pela primeira fase do Gauchão, Internacional e Grêmio colocaram em prática o “GreNal de Todos”, um setor para torcida mista com uma mensagem clara: mostrar que adversário não é inimigo. O jogo teve alguns incidentes entre torcedores organizados, mas no espaço separado para a congregação de colorados e gremistas tudo correu bem, a ação foi elogiada, e o sucesso foi tanto que manteve-se o plano para as finais do estadual.
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Neste domingo, na Arena do Grêmio, poderemos mais uma vez observar a bela mistura das cores de Inter e Grêmio – com o mesmo clima pacífico, esperamos. A ideia, mais simbólica do que qualquer outra coisa, é apenas um entre outros passos que as duas equipes têm dado no caminho de pacificação nos estádios. Em vídeos promocionais da RBS TV, por exemplo, Alex e Marcelo Grohe destacaram a grandeza de seu rival. Algo que enaltece o espetáculo que é o clássico, mas que passa também a ideia de respeito mútuo.
Neste dia de GreNal 405, resgatamos aqui o significado que enxergamos no dia em que nos foi apresentada a possibilidade de rivais coexistirem num mesmo espaço, de tomarem novamente para si o que sempre lhes pertenceu: a rivalidade.
O GreNal resgatou o óbvio que já parecia estranho: clássico se faz com torcidas, e no plural
Por Leandro Stein
Muitos são os argumentos para colocar o GreNal como a maior rivalidade do futebol brasileiro. A desavença, no entanto, não precisa estar entre eles. E o Beira-Rio neste domingo foi um exemplo de como o vermelho e o azul, mesmo sendo cores tão distintas, podem se combinar harmoniosamente. O clássico de torcida mista não é exatamente uma medida contundente de combate à violência nas arquibancadas. Ainda assim, possui uma representatividade enorme. Porque, afinal, resgata uma noção que já parecia perdida dentro dos estádios brasileiros: os clássicos só se tornam tão importantes por causa de suas torcidas, e no plural.
A medida tomada pela diretoria do Internacional, e abraçada pelo Grêmio, é bastante simples. Não há nada de tão inovador em abrir um setor do estádio para as duas torcidas. Aliás, essa iniciativa era até comum em estádios como o Maracanã e o Morumbi, em um passado já um pouco distante. Entretanto, os gaúchos merecem ser aplaudidos por duas virtudes que pareciam já perdidas no futebol brasileiro: a coragem e a racionalidade. Apesar dos episódios de violência persistentes, isso não generaliza os torcedores como bárbaros. Mas faltava alguém que nadasse contra a corrente e peitasse as restrições cada vez maiores nas arquibancadas.
Uma parte relativamente pequena do Beira-Rio acabou destinada à mistura de colorados e tricolores. Apenas dois mil dos 34,5 mil presentes no estádio dividiram a mesma área. Pouco mais de 5% do público total, que reverberou muito mais do que os outros 95%. Sobretudo, porque a cena em um clássico de tamanho peso (mesmo que nos desvalorizados estaduais) tornou-se raríssima. Ver casais com cores rivais se beijando ou amigos se abraçando, dentro do estádio, causa até estranheza. Especialmente se estiverem rodeados de um número tão grande de crianças, maior do que em partidas comuns.
Se o futebol é reflexo do que acontece na sociedade, não há nada mais verdadeiro sobre o cotidiano dos gaúchos do que o setor misto: pessoas comuns convivendo tranquilamente, como acontece diariamente em qualquer parte do Rio Grande do Sul. Os episódios de violência, justamente, são a exceção na rotina das ruas. Aliás, eles não impediram muita gente de continuar frequentando as partidas normalmente, ainda que tenha afastado uma pequena parcela. O que não pode acontecer é esse ambiente de medo exagerado pautar as regras dentro e no entorno dos estádios, como vinha acontecendo. Por culpa de uma minoria e também das autoridades.
Que o GreNal 404 se torne um exemplo. Que os 5% deste domingo cresçam nos próximos clássicos, se espalhem por outras capitais e também aumentem a quantidade de ingressos aos visitantes – cada vez mais suprimidos nos jogos fora de casa. Porque não é privando os torcedores comuns que se combate a violência nos estádios. O que precisa ser feito, aliás, não muda em nada com a mera existência do setor misto. A necessidade de medidas duras e de policiamento extensivo se repetiu neste final de semana. Como acontece nos clássicos de diversos cantos do país, a torcida visitante depredou parte das arquibancadas dos rivais, assim como sofreu emboscada na entrada do estádio. O que, diga-se, também não afetou a experiência pacífica da maioria absoluta que visitou o Beira-Rio.
Com ou sem setor misto, o que o futebol brasileiro precisa é de prevenção e punição. Tratar a violência como crime, e não apenas como “assunto do futebol”. Identificar quem causou problemas e restringir mais a sua presença dos estádios. Não significa necessariamente banir as torcidas organizadas, um debate longe de ser simples, e que merece muito mais atenção dos dirigentes. O que não pode acontecer é a liberdade que muitos grupos acabam tendo para brigar, e de maneira reincidente.
Principalmente, a violência não pode fechar as arquibancadas. Realizar clássicos de torcida única, ou com porcentagens ínfimas dos visitantes, apenas alimenta a sensação de que o rival é realmente alheio. Os estádios se tornam um espaço à parte da mistura de todo o resto da sociedade. Em certa medida, influencia um distanciamento entre os torcedores.
O GreNal quebra este processo restritivo. Um respiro à própria maneira como os esquemas de segurança nos estádios iam sufocando os clássicos. E que esta abertura também não corra o risco de seguir um processo inverso, como pretexto para a elitização crescente nas “novas arenas” – com a elevação do preço dos ingressos do setor misto, transformando-o em um espaço nobre. Os grandes jogos são feitos para duas torcidas, mas também para todas as pessoas, para diferentes classes sociais. Que o exemplo em colorado e tricolor finalmente estimule mais ações do tipo. Um domingo especial que poderá tornar os clássicos especiais para muito mais gente.





